Literatura -Primeiras Letras
Luiz Carlos Amorim
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UM ANJO NA ESCURIDÃO
Anamaria Kovács

Passava das oito da noite, mas a praça, no centro da cidade, ainda fervilhava de gente, carregando pacotes, arrastando crianças cansadas e birrentas. Era véspera de Natal, e todos tinham pressa. Indiferente à zoeira em volta, uma velha mendiga desgrenhada esticara-se num dos bancos e dormia profundamente, agarrada à sua garrafa de pinga.

Algumas horas depois, tudo mudara. O silêncio envolvia a praça num abraço carinhoso. Já ninguém tropeçava nas velhas pedras portuguesas, amaldiçoando a Prefeitura; ninguém olhava desconfiado para os lados, procurando assaltantes à espreita. Algumas lâmpadas queimadas lançavam o ambiente numa semi-escuridão. A penumbra só não era mais densa porque o presépio, armado no centro da praça, lançava em volta uma ilha de luz. Suas figuras, em tamanho natural, destacavam-se, majestosas e mudas.

Lentamente, cheios de cautela, desconfiados como camundongos ao sair da toca, crianças de rua foram deixando seus esconderijos em volta da praça. O grupo compunha-se de três meninos - o mais novo com pouco mais de dois anos de idade - e quatro garotas, a mais velha, de uns treze anos, grávida e inocente.

O presépio no centro da praça atraía-os todas as noites, como um ímã. Depois que cessava o movimento, lá estavam eles, contemplando a cena misteriosa. Passavam horas ali, examinando as figuras, acariciando os animais, tocando de leve nas roupas dos reis, tão brilhantes e coloridas... Uma das meninas chegou a tirar o pequeno Jesus da manjedoura, para segurá-lo no colo. Mas o líder do grupo repreendeu-a; o boneco poderia cair e quebrar. Assustada, ela repusera o lindo bebê em seu lugar.

Ao passarem pelo banco da mendiga, um dos meninos, com um sorriso maroto, aproximou-se na ponta dos pés e - zás! - arrancou-lhe dos braços a garrafa.

-Ahh!

Num movimento rápido, a velha agarrou os pulsos dele com dedos de ferro. O garoto começou a debater-se e a gritar.

-É brincadeira, vó Dôda, é brincadeira!

Ela lançou-lhe um olhar feroz.

-Te torço o braço, cretino!

-Me larga, sua maluca! Doida!

Finalmente, ela deixou-o ir. Examinou a garrafa.

-Diabos! Tá vazia... - resmungou, e atirou-a longe. O vidro espatifou-se contra um poste. As crianças recuaram.

-Vamo' lá ver as estauta... - murmurou uma das meninas, puxando os companheiros pela mão. Aproximaram-se da ilha de luz.

-Por que será que montaram isso aqui? - perguntou, pela centésima vez, um dos garotos.

-Tem a ver com o Natal, isso eu sei - disse outro - Mas não alembro mais da história.

-Vai ver que Dôda sabe - interveio uma menina - Ela é velha; deve saber.

-Ei, Dôda! Vem cá! - chamou o líder do grupo.

Foi difícil convencer a velha rabugenta a levantar do seu banco, mas ela acabou deixando-se arrastar até o presépio. As crianças rodearam-na, falando todas ao mesmo tempo, bombardeando-a com perguntas. Ela resistiu. Não sabia de nada, não lembrava de nada. Queria ficar em paz, no seu banco, com a sua pinga e o seu desespero, mas as crianças insistiam, seguravam-na, obrigavam-na a olhar para aquela cena e matraqueavam...

A velha Dôda se lembrava, é claro. Lembrava-se do presépio que ela mesma armava, todos os anos, em sua própria sala, com a ajuda dos filhos. Seus olhos turvos reviam claramente o marido, chegando em casa com os braços cheios de pacotes e um grande sorriso. Mas a lembrança não parava aí; seguia adiante, para as noitadas de Altair, suas escapadas, suas traições, seu descaramento...

-Eu quero a minha pinga... - resmungou ela - Me deixa! Eu quero a minha pinga!

Ao erguer a cabeça, ela encarou diretamente o anjo, preso ao telhado do estábulo, que abria os braços e lhe sorria, com uma expressão amorosa no olhar. Desviou a cabeça, mas agora era o Menino que parecia chamá-la, estendendo os bracinhos gorduchos, rindo... Zonza, Dôda tropeçou e caiu sentada no chão, sob os aplausos da garotada. Imediatamente, as crianças sentaram-se em torno dela, interpretando sua queda como um convite para se acomodarem e ouvirem a história. Elas não entenderam por que ela chorou tanto, mas estavam acostumadas ao sofrimento, de modo que esperaram pacientemente. Por fim, quando as lágrimas secaram, a velha suspirou e começou, num fio de voz que foi aos poucos se firmando:

-Há muitos e muitos anos, na cidade de Nazaré, morava uma moça chamada Maria...


Publicado na coletânea "As Mais Lindas Histórias de Natal", em 1998, pela Editora Sinodal (São Leopoldo, RS).

Anamaria Kovács nasceu no Rio de Janeiro, em 1948, mas está em Blumenau desde 1976. Além de escritora, é jornalista e professora universitária. Trabalho no extinto Correio da Manhã, do Rio, já extinto, no Jornal do Brasil e no Jornal de Santa Catarina.
Tem vários livros publicados: "Entre a Terra e o Infinito" - contos, 1985; "Sonhos de Criança" - poesia infantil, 1988; "Bomba Relógio" - contos, 1993; "O Canto da Sereia" - romance juvenil, 1996; "O Pingüim que Procurava o Sol" - literatura infantil, 1998; "O Monstro Atômico" - romance juvenil, 1998 e "O Burrinho que Calculava" - literatura infantil, 1998.

Participou de várias antologias, como "Poetas de Blumenau", 1980; "Nova Literatura Brasileira", 1983'"A Nova Poesia Brasileira", 1983; "Poetas Brasileiros de Hoje", 1984; "Contistas de Blumenau", 1985; "Escritores Brasileiros de Hoje", 1984 e "As mais Lindas Histórias de Natal", 1998.
Publicou em jornais e revistas, também.
 

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