
Literatura
-Primeiras Letras
Luiz Carlos
Amorim
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As
cartas dos leitores A
recepção da produção literária da escritora catarinense Maria de
Lourdes Krieger é marcada por uma relação sui generis com o
leitor: a troca de cartas, o que possibilita trazer à tona o olhar e a
voz do leitor sobre a literatura infantil e juvenil, avaliando esse gênero
pelo próprio destinatário. Assim, ao direcionar nosso olhar sobre o
leitor e a sua recepção de leitura, podemos contar com o arquivo
particular da autora com correspondências de leitores - 580 cartas,
datadas de 1979 a 1995 - revelando as expectativas dos leitores quanto
à experiência estética, tanto intelectual quanto afetivamente.
Dos dezesseis livros publicados por Maria de Lourdes Krieger as cartas
refletem com mais freqüência sobre seis, sendo que três se direcionam
ao pequeno leitor: Nos
ombros fortes de papai [1],
Ana levada da breca [2]
e Irmão sanduíche [3],
enquanto os outros três pressupõem o leitor com mais experiência de
leitura: Recordações de um agente secreto [4],
Um amigo muito especial [5]
e Segredos do coração [6]. As
correspondências, iniciadas no segundo semestre de 1979, encontram-se
arquivadas cuidadosamente pela autora. Tínhamos consciência do
material riquíssimo que estava ao alcance das nossas mãos; era preciso
"chegar mais perto", como lembra Carlos Drummond de Andrade [7],
"e contemplar as palavras: cada uma tem mil faces sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe
deres: trouxeste a chave?". Não se tratava da palavra literária,
mas era a palavra sobre a palavra literária; que chave usaríamos para
penetrar nesse intrincado jogo de mostra-esconde, de perdas-achados?
Latentes, palpitantes, apresentavam-se os testemunhos. Como as palavras
constituídas de mil faces, mil faces de leitores que convidavam a
desvendar um discurso em nada neutro. Entre tantas correspondências, o
perigo de se perder num labirinto; daí a necessidade de seleção. Como
selecionar o testemunho de x em detrimento do de y? Questão aos poucos
resolvida, em razão de outras questões pontuadas pelos próprios
discursos dos leitores. Quem
são esses leitores? Em sua maioria, são crianças e jovens em idade
escolar, e as leituras dos textos literários são realizadas como
dever/ atividade, regidos pela instituição escola. O testemunho do
adulto surge na figura do professor e de homens e mulheres que,
desvinculados da escola, encontram na leitura do texto literário uma
porta de comunicação para o prazer estético. A caracterização
desses leitores fica restringida às suas próprias informações,
facilitadas por aqueles que mantiveram correspondência mais assídua. A
comunicação origina-se de três formas: 1.
Por iniciativa individual do leitor, que se dirige à autora. 2.
Por atividade escolar, orientada pelo professor. 3.
Sem relação com a instituição escolar, o leitor tem contato com o
livro e o desejo irremediável de relatar sua experiência de leitura. No
primeiro caso, temos exemplos de leitores que acabam desencadeando
outras correspondências dos colegas de sala, ao mostrar a resposta da
autora. No segundo, o próprio professor se dirige à escritora,
propondo a atividade. Em terceiro, uma aproximação e identificação
com a leitura leva o leitor a comunicar-se com a autora do texto. Nos
dois primeiros encontram-se muitos leitores que se tornam
correspondentes, após a atividade escolar realizada. O
emissor é uno: o autor. Mas no caso do destinatário, que virtualmente
obedeceria a uma regra geral da literatura infantil e juvenil, desvanece
para dividir-se em três tipos: a criança, o adolescente e o adulto,
ultrapassando os estreitos limites do público específico. Tentamos,
assim, revelar as condições de recepção do texto literário e as de
produção dos enunciados, no caso, as cartas. Com o objetivo de
penetrar na relação comunicacional estabelecida entre leitor, obra e
autor, buscamos, por meio das cartas, observar como o leitor encara a
aproximação com o autor, quais são suas expectativas frente à obra,
como acontecem a identificação com as personagens e as suas projeções;
como o leitor age frente às estratégias textuais e que papel a escola
desempenha nessa atividade. Adotamos
como sistemática a apresentação do primeiro nome dos leitores -
porque, apesar de termos a autorização da autora, não entramos em
contato direto com os leitores - idade, série escolar, local e data da
emissão da correspondência, bem como o do livro que tiveram acesso. As
cartas foram transcritas independentes de correção, divididas em subtítulos
que nos parecem abarcar a maior incidência de reflexões por parte do
leitor. Quebra
de expectativas O
leitor, ao se aproximar do texto, traz suas disposições individuais,
seu referencial literário, lingüístico, social e ideológico. O texto
literário pode confirmar como desestruturar as expectativas do leitor.
Nas cartas analisadas relativas a essa questão, encontramos depoimentos
de desapontamento, surpresa e reflexão frente à quebra das
expectativas. Em
13 de setembro de 1985, a leitora Débora, de 13 anos de idade,
estudante da 5ª série do I grau em Canoas - RS, escreve, comentando
sobre o livro Um Amigo Muito Especial, que retirou por empréstimo
na biblioteca escolar. Só não apreciei foi os tipos de algumas palavras que a senhora usa neste livro. Acho que nomes feios não nos levam a nada, não nos ensinam, nem nos transmitem coisa alguma. É a primeira vez de cinco anos que estudo, que leio um livro com palavrões em seu conteúdo. No colégio o ensino sempre foi contra nomes feios. Aqui o aluno que fala palavrões é levado para uma sala para conversar e reconhecer seu erro com um professor, que cuida da dissiplina do colégio O
testemunho da leitora elucida o estranhamento frente às convenções
constituídas pelo seu horizonte de expectativas, tanto no que diz
respeito aos fatores lingüísticos, literários, sociais e ideológicos.
No primeiro aspecto, a narrativa rompe com o padrão da norma gramatical
privilegiada na sua vivência escolar, o que coincide com as outras
leituras de textos literários, com que a leitora manteve relação em
cinco anos de vida escolar. Socialmente, a leitora está inserida numa
hierarquia, no caso a instituição escolar, em que o mais experiente -
um professor- reprime os vocábulos considerados palavrões, "nomes
feios"; sendo assim, a leitora está presa pelos valores ideológicos
de seu contexto social. São poucos, no entanto, os vocábulos no texto
que podem ser considerados palavrões. Entre eles: "De tanto rir, não
olhou direito onde pisava: enfiou o pé direito numa bosta de vaca"
(p.14); "_ Esse menino tem bicha, ele vive na privada"
(p.16); "Não é xixi, não posso fazer da porta"
(p.23); "_ vai encher o quarto de catinga de cocô"
(p.23). A linguagem usada pelas personagens nos diálogos está dentro
de um conjunto de expressões familiares no contexto social da
narrativa, que diverge do meio em que convive a leitora. Na
mesma linha, encontra-se a correspondência coletiva de seis leitoras:
Adalgisa, Andressa, Kallyeane, Isabel, Laniza e Lisiane, estudantes em
Campina Grande (Paraíba). O texto da carta não traz dados específicos
das leitoras, quanto à idade ou série escolar, mas informa quanto ao
contato com o livro Segredos do Coração, adquirido "para
realizar uma tarefa escolar". Emitida em 4 de maio de 1992,
retiramos para análise o seguinte comentário, que parece
significativo: *
O fato do livro terminar ainda dizendo que Regina era espinhenta e
outras coisas. Sabe-se
que o livro em questão apresenta, em sua tessitura narrativa, o diálogo
com os contos de fadas; contudo a autora se distancia dos valores ideológicos,
sociais e culturais das narrativas primordiais, com a inserção de um
contexto contemporâneo: os enfrentamentos da personagem adolescente,
suas perdas (a mãe, o reino encantado, a infância) e seus achados (os
amigos, a realidade e a adolescência). A
relação paradoxal - imaginário e verdade, ficção e realidade - é
compreendida pelas leitoras, que percebem na trama ficcional a inserção
de atitudes e atos presentes no mundo além do ficcional. Munidas
das referências literárias dos contos de fadas, as leitoras exigem da
autora a vinculação às normas tradicionais dessas narrativas, que
terminavam com o enlace dos pares amorosos (Regina e Felipe não ficam
"juntos", "felizes para sempre"). A representação
de Regina (pele espinhenta) não condiz com o ideal de beleza (pele alva
e macia) dos contos de fadas, em que todos os problemas têm soluções
agradáveis. A
pouca caracterização da personagem pai, adulto e masculino, é
referida pelas leitoras como ausência que deveria ser completada. A
incompreensão da tia, outra figura adulta, também é destacada pelas
leitoras. As leitoras abordam, assim, a mediação do adulto no mundo do
criança e do adolescente, exigindo a sua presença (pai) e compreensão
(tia). Para
Marisa Lajolo [8],
os textos contemporâneos direcionados para o público infantil e
juvenil apresentam modelos condizentes e tolerados pela escola atual; no
entanto, percebe-se que uma visão conservadora ainda permanece, apesar
de a sociedade contemporânea já aceitar alguns valores e
comportamentos liberais concedidos à criança. Os dois depoimentos
abaixo, sobre o texto Ana Levada da Breca, confirmam o quanto
ligados ainda estão os leitores aos modelos instituídos em tempos não
distantes: A
leitora Luiza, aluna da 2ª série do I grau em Campos de Goitacazes,
Rio de Janeiro, escreveu em 8 de outubro de 1991: Eu
acho que Ana para ser feliz não precisava deixar de brincar de bola de
gude, bola, todas as brincadeiras de menino, pois menino e menina podem
brincar juntos. Eu acho que ela precisava para ser feliz era apenas ser
uma boa menina como Lia, isto é não brigar com o irmão, cuidar mais
dos seus cabelos, pois uma menina deve estar sempre bem cuidada e
arrumada. Conflitante
é o testemunho da leitora. Percebe-se que concorda com as brincadeiras
entre meninos e meninas; que elas não precisam ser diferenciadas; que
valores e comportamentos outorgados pela sociedade contemporânea aos
poucos, vão concedendo ao sexo feminino espaço nas brincadeiras
instituídas como masculinas: jogar futebol, brincar de bolinha de gude,
etc. Por outro lado, discorda do aspecto comportamental de Ana - brigar
como irmão e cuidar de seu aspecto físico - "Pois uma menina deve
estar sempre bem cuidada e arrumada". O verbo "deve"
assinala como obrigação do sexo feminino "estar sempre bem
cuidada e arrumada" para o outro, o masculino. Acredita-se
que o texto em questão, Ana Levada da Breca, questiona as convenções
sociais apontadas de alguma forma pela leitura de Luiza. Parece
relevante apresentar as interrogações da leitora Ana Cristina, do
município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, na correspondência de
11 de novembro de 1992, que vem corroborar nosso pensamento: Olha não queria mandar certamente opiniões sobre Ana ou Lia, só gostaria de lembrar que realmente toda criança é tão ou mais levada que a Ana mas que bem no fundinho o modelo de filhos que nós queremos, é o do tipo da Lia; "quietinha", educada, etc... Você acha que uma criança pode ser assim, sem ser comparada a uma "vaquinha de presépio"? Sem se sentir tão tristonhazinha? A
leitora percebe a contestação e a tentativa de ruptura que o texto
deseja, ao apresentar a criança travessa, capaz de questionar seu papel
social, mas reflete que o modelo interiorizado e desejável socialmente
é outro; nessa contrapartida, a leitora levanta questões que deixa em
aberto para outras leituras: que modelo de criança se quer? Aponta,
talvez, o distanciamento entre a teoria e a prática. Teoricamente se
sabe que a criança é dinâmica por natureza, mas na prática o modelo
condizente é outro. A
reflexão à relação de gênero presente em Ana Levada da Breca
frente ao papel feminino reaparece na narrativa de Nos Ombros Fortes
de Papai, agora na figura masculina, que também recebe um papel a
cumprir na sociedade dos "homens não choram". Sabrina,
aluna da 5ª série do I grau, em Brusque, escreve em 24 de junho de
1992: O seu livro "Nos Ombros de Papai", fez lembrar que às vezes nós também não enxergamos as coisas pelo outro lado, assim como Lauro reagiu quando viu seu pai chorar. O
texto aponta o "outro lado" como nos fala a leitora; as coisas
não são estanques, os sentimentos também não o são. Tudo tem dois
lados e a nós cabe a tarefa de saber olhá-los. A leitora reflete sobre
a desautomatização do olhar, por conseqüência das normas. Jaíson
Lona, aluno da 5ª série do I grau na cidade de Brusque, escreveu para
a autora, em 15 de junho de 1992: Seus livros são muito bons porque envolve um pouco de cada um, achei como seu melhor livro o livro "Nos ombros fortes de papai" pois fala de que uma criança acha o medo de não crescer como seu herói mas ve que aquele heroi não é aquilo que pensava ser mas uma pessoa que tem sentimentos, que pode chorar, ter medo de alguma coisa. A
imagem feminina de Ana Levada da Breca e a idealização da
imagem paterna em Nos Ombros Fortes do Papai são questionadas,
fazendo com que os leitores reflitam e tomem uma posição. Não se
opera um mero reconhecimento do já conhecido, mas se realiza uma
despragmatização das normas familiares e sociais. |