|
UMA VEZ UMA MULHER
Eloí
Elisabet Bocheco
---Todo
dia uma mulher tirava água de um poço que havia nos fundos de sua
casa. Girava a roldana e descia o balde de alumínio que retornava
derramando de tão cheio.
---
A roldana cantava e a mulher também. Ela tava entoando um larilalai
quando o balde enroscou em alguma coisa. Larilalai ... lari.. ah, não!
Só pode ser pedra. Vai arranhar todo o meu balde de alumínio!
---
Ela puxou e puxou o balde sem conseguir arrancá-lo das garras do que
quer que fosse. O balde tinha se enroscado nos galhos de uma árvore que
vinha crescendo no poço naquela hora. A árvore tava cheia de pressa e
foi se enfiando poço acima sem olhar para os lados.
---
A mulher então saiu para procurar alguém que pudesse descer no poço,
que era fundo e tinha um olho só, imenso e cheio d´água. A mulher, às
vezes, se mirava no olho do poço e descobria coisas que não contava a
ninguém. Pelo tanto que ela ria sozinha enquanto se mirava no olho do
poço, deviam ser coisas muito boas que ela descobria!
---
Quando ela voltou com um vizinho e uma escada para a descida, deu com a
árvore na boca do poço e, num galho, enroscado, o balde de alumínio.
---
_ Ah, veio trazer o meu balde? – a mulher perguntou à arvore.
---
_ Não sei de balde nenhum, não – disse a árvore.
---
_ Como não sabe, se o balde tá enroscado no seu galho?
---
_ No meu galho só tem ninho de sabiá!
---
E tinha mesmo só um ninho de sabiá quando a mulher tornou a olhar para
os galhos da árvore. A atenção da mulher se fixou no ninho e o ninho
se mudou para o olho dela. E então os olhos da mulher ficaram cheios de
ovos de sabiá, que chocaram. Ela piscava e libertava um sabiá. Em
pouco tempo a árvore ficou tomada de passarinho.
---
Eu nunca vi tanto passarinho assim numa árvore! – a mulher exclamou.
---
Passarinho? Nos meus galhos só têm ameixas.!
---
A mulher pregou bem o olho na árvore e só viu mesmo ameixas pretas,
maduras, molinhas, cheias de caldo, prontas para serem devoradas em uma
ou duas bocadas. Foi o que a mulher fez. Devorou as ameixas com gosto,
se lambuzando na calda doce.
---
Depois pegou o monte de caroços das ameixas e jogou no poço. Ficou
olhando pro fundo do poço, distraída, e nem viu quando os caroços
viraram peixes e começaram a subir pela árvore.
---
_Peixe em árvore é a primeira vez que eu vejo – a mulher disse à
aranha que tava fazendo teia ali perto. ---_Que
peixes? Nos meus galhos só têm andorinhas – a árvore falou.
---
Quando a mulher tirou o olho da teia e da aranha para olhar a árvore só
viu andorinhas. Entre um bater de asas e outro as andorinhas foram
fazendo um verão, dois verões, mil verões. Partiram deixando a árvore
cheia de sóis nascentes e poentes, um mais luminoso que o outro. A
mulher podia escolher os sóis que queria para se ensolarar.
---
Uma árvore cheia de sóis é o que faltava na minha vida! _ a mulher
falou encantada.
---
Ora sóis! Nos meus galhos só têm dente de dragão! – a árvore
exclamou.
---
A mulher tornou a si do enlevo com os sóis de verão e o que viu na árvore
foi uma profusão de dentes de dragão. Ela colheu-os um a um numa bacia
e foi semeá-los num canteiro do quintal. No canteiro cresceram centenas
de pés- de- trovão. As plantas do quintal, assustadas com o barulho,
pularam a cerca e foram se esconder atrás de um morro.
---
Com uma enxada a mulher arrancou os pés de trovão e atirou-os pra fora
do quintal. De raiz de fora, os pés-de-trovão trovoaram como nunca.
Jamais se ouviram trovões tão fortes como aqueles na face da terra. A
árvore da boca do poço, cheia de terror, tapou os ouvidos com resina.
---
A mulher atirou os pés-de-trovão num lago onde nadavam marrecos. Uma
parte do lago fervilhou e a outra não. Os rumores do trovão cessaram.
O mundo voltou aos apitos, latidos, cricris no capim, roncos, gritos,
gorgeios e tudo o mais.
---
Sobre a copa da árvore pastavam os cavalinhos do céu que vieram pelo
barulho dos pés-de-trovão. A mulher viu e guardou a cena no fundo do
seu cesto de bordado. Ela, então, disse à aranha da teia:
--- _
Eu tava mesmo procurando um risco de bordado para a minha toalha de
linho branco!
---
A árvore se mudou para um lugar bem distante e levou o poço junto. De
vez em quando a mulher olha o bordado e se lembra de tudo desde o começo.
---
Na toalha de linho branco pastam, distraídos, os cavalinhos do céu,
entre linhas de seda e de prata.
A autora do conto acima, Eloí Elisabet Bocheco,
é professora de Língua e Literatura, formada em Letras pela
Universidade de Passo Fundo, pós-graduada em Alfabetização pela
UNOESC. Publicou os livros “Uni... Duni... Teia”, “A de Amor, A de
ABC”, “Ô de Casa” e “Poesia Infantil – O Abraço Mágico”.
“Uni... Duni... Teia” - Este é o primeiro título
de poesia para a infância, lançado pela escritora Eloí Elisabet
Bocheco: Espaço dos ritmos, dos jogos, das rimas, da palavra
reinventada, a poesia provoca o encantamento da criança e pode
representar o início de uma grande amizade com o livro. Ainda mais se o
livro privilegiar o critério estético e se constituir como arte,
gerando um aprendizado amoroso e belo".
"Uni... Duni... Téia" é tudo isso, dito pela apresentadora
do livro, Alaíde T. Santos, e muito mais. Com uma apresentação
primorosa, o livro, que leva o selo da Editora Papa-Livro, tem o cuidado
de trazer as ilustrações em preto e banco para que a criança, o
leitor, possa interagir com ele, colorindo e participando da sua criação.
"A de Amor - A de ABC" - além da
poesia sempre de boa qualidade, tem um apresentação impecável, todo
colorido, com ilustrações de Francisco Mibielli em todas as páginas.
Livro para fazer a criança tomar gosto pela leitura.
“Ô DE
CASA” - Este o terceiro livro de
poesia para criança, da professora e escritora Eloí Elisabet Bacheco,
publicado pela Editora Grifos, da Universidade do Oeste de Santa
Catarina,. Aliás, talvez não se deva dizer que o livro é
exclusivamente "para criança", pois criança é um público
exigente e nós adultos, ficamos a admirar a qualidade da obra da
autora, com vontade de ter feito igual.
Por outro lado, Eloí, como professora é uma formadora de leitores,
motivando e disseminando o gosto pela leitura junto leitores em formação.
"Poesia Infantil - O Abraço Mágico"
(Editora Argos), aborda, de maneira pouco convencional, como a poesia
pode integrar a educação nas escolas e incentivar a formação de
futuros, atentos e críticos leitores. "O que vemos hoje é a
domesticação e o desejo de formatar a literatura", explica Eloí,
a autora, para quem a literatura serve, infelizmente, a um "propósito
didático" e muito pouco ao encantamento e deleite do público
infantil.
O livro tem 126 páginas e, segundo a autora, levou 30 anos para ser
escrito. É que durante este período como educadora, Eloí registrou
inesquecíveis momentos de descoberta da poesia pelas crianças. "É
difícil uma criança ter acesso à poesia e não se encantar",
conta a escritora. Eloí Bocheco procurou conceber um livro fugindo das
fórmulas tradicionais. "Não dou receita de como trabalhar com
poesia, falo da minha experiência das crianças com a poesia. Quem for
procurar uma receita, não vai encontrar", explica.
A publicação mescla poemas de autores conhecidos do público infantil,
como José Paulo Paes, Cecília Meireles, Mário Quintana, Sérgio
Caparelli e Vinícius de Moraes, entre outros, com pequenos testemunhos
de antigos alunos de Eloí, que comentavam com a professora sobre as
dificuldades e alegrias em lidar com a literatura.
Uma amostra da poesia de Eloí Bocheco:
CAVALINHO
DA ALVORADA
(Eloí E. Bocheco)
Meu cavalinho
só sai na alvorada.
Em outro horário,
bate a pata, empaca,
vira estátua de luar.
Nem com reza braba
sua teimosia acaba.
Com meu cavalinho
vou pelas estradas
à procura de sementes.
Escolho as sementes aladas,
pois nascem mais depressa
e tenho pressa
de replantar o planeta.
Voltar
|