Literatura -Primeiras Letras
Luiz Carlos Amorim
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UMA VEZ UMA MULHER
Eloí Elisabet Bocheco

---Todo dia uma mulher tirava água de um poço que havia nos fundos de sua casa. Girava a roldana e descia o balde de alumínio que retornava derramando de tão cheio.
--- A roldana cantava e a mulher também. Ela tava entoando um larilalai quando o balde enroscou em alguma coisa. Larilalai ... lari.. ah, não! Só pode ser pedra. Vai arranhar todo o meu balde de alumínio!
--- Ela puxou e puxou o balde sem conseguir arrancá-lo das garras do que quer que fosse. O balde tinha se enroscado nos galhos de uma árvore que vinha crescendo no poço naquela hora. A árvore tava cheia de pressa e foi se enfiando poço acima sem olhar para os lados.
--- A mulher então saiu para procurar alguém que pudesse descer no poço, que era fundo e tinha um olho só, imenso e cheio d´água. A mulher, às vezes, se mirava no olho do poço e descobria coisas que não contava a ninguém. Pelo tanto que ela ria sozinha enquanto se mirava no olho do poço, deviam ser coisas muito boas que ela descobria!
--- Quando ela voltou com um vizinho e uma escada para a descida, deu com a árvore na boca do poço e, num galho, enroscado, o balde de alumínio.
--- _ Ah, veio trazer o meu balde? – a mulher perguntou à arvore.
--- _ Não sei de balde nenhum, não – disse a árvore.
--- _ Como não sabe, se o balde tá enroscado no seu galho?
--- _ No meu galho só tem ninho de sabiá!
--- E tinha mesmo só um ninho de sabiá quando a mulher tornou a olhar para os galhos da árvore. A atenção da mulher se fixou no ninho e o ninho se mudou para o olho dela. E então os olhos da mulher ficaram cheios de ovos de sabiá, que chocaram. Ela piscava e libertava um sabiá. Em pouco tempo a árvore ficou tomada de passarinho.
--- Eu nunca vi tanto passarinho assim numa árvore! – a mulher exclamou.
--- Passarinho? Nos meus galhos só têm ameixas.!
--- A mulher pregou bem o olho na árvore e só viu mesmo ameixas pretas, maduras, molinhas, cheias de caldo, prontas para serem devoradas em uma ou duas bocadas. Foi o que a mulher fez. Devorou as ameixas com gosto, se lambuzando na calda doce.
--- Depois pegou o monte de caroços das ameixas e jogou no poço. Ficou olhando pro fundo do poço, distraída, e nem viu quando os caroços viraram peixes e começaram a subir pela árvore.
--- _Peixe em árvore é a primeira vez que eu vejo – a mulher disse à aranha que tava fazendo teia ali perto. ---_Que peixes? Nos meus galhos só têm andorinhas – a árvore falou.
--- Quando a mulher tirou o olho da teia e da aranha para olhar a árvore só viu andorinhas. Entre um bater de asas e outro as andorinhas foram fazendo um verão, dois verões, mil verões. Partiram deixando a árvore cheia de sóis nascentes e poentes, um mais luminoso que o outro. A mulher podia escolher os sóis que queria para se ensolarar.
--- Uma árvore cheia de sóis é o que faltava na minha vida! _ a mulher falou encantada.
--- Ora sóis! Nos meus galhos só têm dente de dragão! – a árvore exclamou.
--- A mulher tornou a si do enlevo com os sóis de verão e o que viu na árvore foi uma profusão de dentes de dragão. Ela colheu-os um a um numa bacia e foi semeá-los num canteiro do quintal. No canteiro cresceram centenas de pés- de- trovão. As plantas do quintal, assustadas com o barulho, pularam a cerca e foram se esconder atrás de um morro.
--- Com uma enxada a mulher arrancou os pés de trovão e atirou-os pra fora do quintal. De raiz de fora, os pés-de-trovão trovoaram como nunca. Jamais se ouviram trovões tão fortes como aqueles na face da terra. A árvore da boca do poço, cheia de terror, tapou os ouvidos com resina.
--- A mulher atirou os pés-de-trovão num lago onde nadavam marrecos. Uma parte do lago fervilhou e a outra não. Os rumores do trovão cessaram. O mundo voltou aos apitos, latidos, cricris no capim, roncos, gritos, gorgeios e tudo o mais.
--- Sobre a copa da árvore pastavam os cavalinhos do céu que vieram pelo barulho dos pés-de-trovão. A mulher viu e guardou a cena no fundo do seu cesto de bordado. Ela, então, disse à aranha da teia:
--- _ Eu tava mesmo procurando um risco de bordado para a minha toalha de linho branco!
--- A árvore se mudou para um lugar bem distante e levou o poço junto. De vez em quando a mulher olha o bordado e se lembra de tudo desde o começo.
--- Na toalha de linho branco pastam, distraídos, os cavalinhos do céu, entre linhas de seda e de prata.


A autora do conto acima, Eloí Elisabet Bocheco, é professora de Língua e Literatura, formada em Letras pela Universidade de Passo Fundo, pós-graduada em Alfabetização pela UNOESC. Publicou os livros “Uni... Duni... Teia”, “A de Amor, A de ABC”, “Ô de Casa” e “Poesia Infantil – O Abraço Mágico”.

“Uni... Duni... Teia” - Este é o primeiro título de poesia para a infância, lançado pela escritora Eloí Elisabet Bocheco: Espaço dos ritmos, dos jogos, das rimas, da palavra reinventada, a poesia provoca o encantamento da criança e pode representar o início de uma grande amizade com o livro. Ainda mais se o livro privilegiar o critério estético e se constituir como arte, gerando um aprendizado amoroso e belo".
"Uni... Duni... Téia" é tudo isso, dito pela apresentadora do livro, Alaíde T. Santos, e muito mais. Com uma apresentação primorosa, o livro, que leva o selo da Editora Papa-Livro, tem o cuidado de trazer as ilustrações em preto e banco para que a criança, o leitor, possa interagir com ele, colorindo e participando da sua criação.

"A de Amor - A de ABC" - além da poesia sempre de boa qualidade, tem um apresentação impecável, todo colorido, com ilustrações de Francisco Mibielli em todas as páginas. Livro para fazer a criança tomar gosto pela leitura.                                                                            

Ô DE CASA” - Este o terceiro livro de poesia para criança, da professora e escritora Eloí Elisabet Bacheco, publicado pela Editora Grifos, da Universidade do Oeste de Santa Catarina,. Aliás, talvez não se deva dizer que o livro é exclusivamente "para criança", pois criança é um público exigente e nós adultos, ficamos a admirar a qualidade da obra da autora, com vontade de ter feito igual.
Por outro lado, Eloí, como professora é uma formadora de leitores, motivando e disseminando o gosto pela leitura junto leitores em formação.

"Poesia Infantil - O Abraço Mágico" (Editora Argos), aborda, de maneira pouco convencional, como a poesia pode integrar a educação nas escolas e incentivar a formação de futuros, atentos e críticos leitores. "O que vemos hoje é a domesticação e o desejo de formatar a literatura", explica Eloí, a autora, para quem a literatura serve, infelizmente, a um "propósito didático" e muito pouco ao encantamento e deleite do público infantil.
O livro tem 126 páginas e, segundo a autora, levou 30 anos para ser escrito. É que durante este período como educadora, Eloí registrou inesquecíveis momentos de descoberta da poesia pelas crianças. "É difícil uma criança ter acesso à poesia e não se encantar", conta a escritora. Eloí Bocheco procurou conceber um livro fugindo das fórmulas tradicionais. "Não dou receita de como trabalhar com poesia, falo da minha experiência das crianças com a poesia. Quem for procurar uma receita, não vai encontrar", explica.
A publicação mescla poemas de autores conhecidos do público infantil, como José Paulo Paes, Cecília Meireles, Mário Quintana, Sérgio Caparelli e Vinícius de Moraes, entre outros, com pequenos testemunhos de antigos alunos de Eloí, que comentavam com a professora sobre as dificuldades e alegrias em lidar com a literatura.

Uma amostra da poesia de Eloí Bocheco:

CAVALINHO DA ALVORADA
(Eloí E. Bocheco)

Meu cavalinho
só sai na alvorada.
Em outro horário,
bate a pata, empaca,
vira estátua de luar.
Nem com reza braba
sua teimosia acaba.
Com meu cavalinho
vou pelas estradas
à procura de sementes.
Escolho as sementes aladas,
pois nascem mais depressa
e tenho pressa
de replantar o planeta.

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