Literatura -Primeiras Letras
Luiz Carlos Amorim
Crônicas

O BALAINHO – BOLETIM DE LITERATURA INFANTO-JUVENIl

 
       Os incentivadores da leitura entre crianças e adolescente não estão sozinhos. Desde agosto de 1999, uma dupla de professoras vem reunindo suas experiências de sala de aula num periódico pouco convencional, "O Balainho", boletim de literatura infanto-juvenil editado trimestralmente, destinado a professores, educadores e apaixonados pela leitura. Na verdade, Eloí Elisabet Bocheco, professora aposentada da rede pública estadual, e Zenilde Durli, atuando no curso de pedagogia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) em Joaçaba, usam seus conhecimentos para que outros expressem suas opiniões, pontos de vista, críticas e sugestões sobre a leitura em artigos e cartas.

Três anos e quinze números depois, "O Balainho" é um sucesso editorial. Tanto que, além de ter conquistado fiéis leitores catarinenses que receberam o boletim através de uma mala direta, o jornalzinho já chegou a pessoas em outros Estados. "Soube que o número três foi lido numa rádio comunitária em Nova Mamoré, em Rondônia", conta satisfeita Eloí Bocheco, 45 anos.

O boletim é patrocinado pelo Centro das Ciências da Unoesc, de Joaçaba, desde o segundo número, editado em novembro de 1999. A primeira edição saiu com 250 exemplares com o patrocínio do comércio da cidade - uma livraria e uma cantina universitária. A repercussão foi tão grande que em poucos meses o periódico estava sendo distribuído em 2.500 endereços.

Além das críticas acadêmicas, um outro tipo de retorno dá muita satisfação a quem faz o jornal. "Há muitos pais telefonando, lendo as colunas, mandando sugestões. Dia desses recebi a carta de uma mãe de Timbó falando da diferença que ela começou a sentir entre a publicação literária e o livro de modelo consumista que anda por ai. Isso me alegra muito", observa Eloí Bocheco. A campanha do "O Balainho", estendeu-se a outras áreas. "Antigamente existia um certo rótulo de quem devia se preocupar com a leitura eram os professores de português. Hoje, recebemos comentários de quem ensina física, química, matemática, geografia, fisioterapeutas. Quem quer uma sociedade melhor, diferente da que está aí, deve se preocupar com a formação do leitor", explica.

Flexibilidade

As duas educadoras do boletim preferem adotar uma linha flexível em relação à edição. Há poucas colunas fixas, como "Todo Balaio Mágico Tem...", com sugestões de leituras, e o espaço dedicado a comentários. Só isso. Quem manda na edição são os próprios leitores. "Até os títulos foram recriados muitas vezes", conta Eloí. O espaço consolidou-se como um dos mais lidos trazendo a cada três meses cerca de dez títulos de autores nacionais, e catarinenses. Uma das fontes de consulta para sua elaboração é a lista publicada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, que sai em maio com os melhores do ano anterior. "Indicamos os premiados, mas não só eles, porque senão pode virar cartel. Há obras não premiadas que as crianças amam. Sem ler, raramente indicamos algum autor", salienta Eloí.

Mas ainda são poucas as indicações da produção literária infanto-juvenil catarinense. "A produção é muito esparsa. É difícil chegar até as obras - as livrarias não mostram os livros daqui. As pessoas publicam, mas divulgam apenas em suas regiões", lamenta a professora aposentada. Uma outra questão também impede a circulação do que está sendo feito no Estado para o público infanto-juvenil. "As estórias ainda estão muito comprometidas com as questões morais, com a predominância de ensinamento, premiando o menino bonzinho. Se a literatura quer dar uma lição, essa tem de ser de liberdade", diz.

Para Eloí Bocheco, o jornal é a continuação de uma paixão que a levou a ensinar língua portuguesa e literatura há 30 anos. "A leitura é insubstituível. Não há outro veículo que consiga mobilizar tanto as pessoas. Lamento que muitos educadores ainda não tenham descoberto o seu valor. Todos os textos são importantes, mas quando se trata de abrir e ampliar horizontes, o texto literário é criativo, aquele que permite olhar o mundo de forma lúdica e inventar a linguagem", explica.
Paixão, sonhos e literatura

Eloí Elisabet Bocheco nasceu no interior de Campos Novos, mora no município de São José, na Grande Florianópolis, e por 30 anos lecionou na rede pública estadual de ensino, em cidades como Capinzal, Joaçaba e Florianópolis. Cinco anos antes de se aposentar, em 1998, ela trabalhou numa biblioteca no Monte Cristo, bairro carente na região continental da Capital, ajudando na formação de leitores. "Sou uma apaixonada por livros", diz a professora formada em letras pela Universidade de Passo Fundo (RS).

Naquele ano, ela estreou na literatura, escrevendo "Uni... Duni... Téia", pela Editora Papa-Livro, livro de poesias com ilustrações de Francisco Mibielli. No ano seguinte, veio "A de Amor, A de ABC", também pela Papa-Livro. Os últimos poemas "Ô de casa", saiu pela Editora Grifos, da UNOESC de Chapecó, no ano passado. O livro “Poesia Infantil – O abraço mágico”, um ensaio/antologia, foi publicado em 2002.

Quando começou a ensinar português, em Capinzal, Eloí Bocheco tinha 16 anos, era mais "baixinha do que é hoje", e entre seus alunos havia pessoas de 50 anos, muito mais altas do que ela. "Foi um susto", lembra. Mas ela não se curvou diante do desafio. "Iniciei a aula com o poema "Estrela" do Manuel Bandeira, apesar de não ter tanta clareza dos motivos de querer trabalhar com literatura. Mas sabia o que queria. Fui adiante e a turma adorou. Nunca mais parei", relata.

Além de "O Balainho", Eloí Bocheco é convidade pelas escolas da região da Grande Florianópolis a dar palestar e trocar experiências com os aunos/leitores. Entre 1998 e 2000 colaborou com o Anexo e atualmente escreve para a coluna de crônicas do AN Verão. A idéia agora é reunir os melhores escritos num livro, ainda sem data para ser publicado. Também adora saber do retorno que suas obras têm, como a de sua fiel leitora dona Catarina, 94 anos, moradora de Patos (PB), que teve acesso a seus livros por intermédio de uma amiga paraibana. "Analfabeta, decorou os poemas de "Uni... Duni... Téia" porque há alguém que lê para a idosa que reuniu crianças da comunidade em torno do livro aberto, fazendo relação com as ilustrações. Só isso já serve como estímulo para continuar escrevendo

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