O Que Eu Gostaria De Ter dito Aos
Alunos Da Escola Conselheiro Mafra
Na Velha Grande
Oi, crianças! Estive aí na sua
escola, mas vocês não estavam. Fui até aí pensando que a gente
conversaria, que haveria uma festa de crianças – mas havia uma festa de
gente grande. Foi uma pena não tê-los conhecido, e então é por isto que
agora lhes escrevo, dizendo o que gostaria de ter-lhes dito se vocês
estivessem na escola no sábado. Vamos lá:
Eu queria dizer para vocês que um
dia, quando eu era criança, morava num lugar muito parecido com o Vale
onde moram, só que era um Vale no Bairro Garcia, também aqui em
Blumenau. Sei muito bem como é morar assim entre morros, com o ribeirão
serpeando lá no fundo do Vale, perto da estrada – sei a umidade que
existe, a friagem que dá nos pés da gente quando o sol se põe, o tanto
de tempo que leva para a roupa secar nos dias de inverno... Foi bem num
lugar assim que vivi a maior parte da minha infância.
Existem duas diferenças entre os dias
em que fui criança e os dias em que vocês estão sendo crianças. Uma, é
que naquele tempo havia menos gente, e então havia mais espaço, e as
pessoas podiam ter quintais onde plantavam aipim, hortaliças, criavam
galinhas – e como as mães daquele tempo não trabalhavam fora, produziam,
elas mesmas, muito do alimento nosso de cada dia, nos terrenos que então
eram bem amplos.
A outra diferença é que, no Vale onde
me criei, já nascíamos com emprego garantido: aos 14 anos, cada criança
tinha seu lugar certo nas fábricas, e dificilmente alguém deixava de
cumprir o seu destino de trabalhar em alguma das que ficavam próximas,
até se aposentar. Sei que hoje a vida está mais complicada, que muitos
de vocês terão dificuldades de achar emprego quando chegar a hora – e
então é sobre tais coisas que queria falar com vocês.
Apesar de eu ter nascido num lugar
onde cada criança crescia para trabalhar numa fábrica, nem eu nem minhas
irmãs nunca fomos para nenhuma fábrica – e aqui quero deixar bem claro
que nada há de desonroso trabalhar-se numa fábrica – mas também quero
lhes contar que há outras formas de viver que podem ser melhores ou
piores do que tal trabalho. Eu e minhas irmãs tivemos a sorte de termos
conseguido viver vidas melhores, mais interessantes e gratificantes do
que os nossos amiguinhos de escola que foram para a fábrica, e então eu
pergunto a vocês: o que nos diferenciou deles para que nossas vidas
fossem diferentes? Para mim a resposta é muito clara: a diferença está
na escola, nos livros, na biblioteca da escola ou outras que a gente
possa acessar, oportunidades que nem todas as crianças têm por igual.
Na minha escola havia uma boa e
sortida biblioteca, que eu li avidamente antes dos 12 anos, para depois
me associar à Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Mueller. Era fácil,
onde eu morava, ir até a Biblioteca Pública: era perto, podia-se ir de
bicicleta, e o trânsito daquele tempo era muitíssimo menos perigoso.
Aqui na Velha Grande está-se muito longe da Biblioteca Pública, e vocês
sabem o quanto o trânsito de hoje é perigoso para se ficar andando de
bicicleta por aí. Assim, não vejo como vocês poderão freqüentar uma
biblioteca, neste bairro, se não houver uma na escola, e quando vocês se
acostumarem a mergulhar no encanto dos grandes mistérios dos livros,
encanto que dificilmente é igualado por um filme ou outra forma de
expressão, vocês verão que a vida de vocês passará por mudanças que
ainda não podem aquilatar, mudanças que poderão mudar todo o seu
destino.
Faz cerca de uma década que a escola
de vocês inaugurou uma biblioteca que, para minha surpresa e prazer,
levou o meu nome. Estive na sua escola naquela ocasião, e falei para as
crianças daquele tempo o que estou lhes falando agora. Era muito grande
o meu prazer em saber a coisa maravilhosa que estava acontecendo, que
decerto iria mudar a vida de tantas pessoas da sua comunidade. Por
diversos motivos, no entanto, a vida daquela biblioteca foi efêmera –
calculo que por uns oito anos ela se manteve fechada, inacessível para
as crianças da Velha Grande, e tal me corta o coração – oito anos
significa que muitas e muitas crianças entraram na primeira série e
saíram na oitava sem terem tido o direito de freqüentar uma biblioteca,
sem terem o direito de ampliarem seus conhecimentos, sem terem o
direito, quem sabe, de mudarem sua vida para melhor. Eu considero uma
coisa criminosa fazer tal coisa com pessoas, principalmente com crianças
– os culpados por terem cortado as possibilidades de novos caminhos para
tantas crianças, em algum momento das suas vidas, decerto haverão de
prestar contas por tamanho crime.
O mais importante, no entanto, é que
faz poucos dias que a biblioteca da sua escola foi reaberta, e o que eu
queria lhes dizer é que não existe essa coisa de se ter ou não se ter
hábito de leitura, como alguém me disse que as crianças da Velha Grande
não tinham: quando a gente vê uma biblioteca, a gente tem que entrar,
descobrir tudo o que há lá dentro, PRINCIPALMENTE o que está lá
escondidinho nos livros, pois aquelas são as coisas mais preciosas, as
que fazem a diferença. E depois que a gente descobre a importância do
conteúdo dos livros, a gente não tem mais como passar sem eles, como
ficar sem aprender mais e dar novos rumos à nossa vida. Experimentem a
grande emoção que é a leitura, a grande caminhada que se pode fazer a
partir de uma biblioteca – e lutem o resto das suas vidas para nunca
mais ficar sem ter uma por perto. Esta biblioteca da escola pode ser o
caminho para a grande biblioteca de uma universidade, para a biblioteca
de uma nova vida – nunca mais deixem que a sua escola lhes corte os
caminhos para um futuro que pode ser muito diferente do que agora
conseguem visualizar!
Muito carinho para todos!
Blumenau, 19
de junho de 2007.
Urda Alice
Klueger
Escritora e
historiadora |