Crônicas

Urda Alice Klueger

Seu Hamilton, profissão cidadão

                       Seu Hamilton, 53 anos, tratorista há 33, brasileiro, profissão cidadão. Seu Hamilton, de Salvador, nove crianças na sua casinha de dois quartos, e uma coragem do tamanho do mundo dentro do peito.  Quando a gente vê gente como o seu Hamilton enfrentando sozinho, apenas armado de uma camisa surrada, que ele usava para enxugar as lágrimas, todo o aparato da Lei e do poderio do Capitalismo, a gente volta a crer que “o essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração.”[1]

                       Tem muita gente grande que acha que é bobagem um pequeno/grande livro que Antoine de Saint-Exupéry escreveu um dia, chamado “ O pequeno príncipe” – as pessoas acham que é um livro infantil, ou uma mera fábula. Digo-lhes que não é. Ao longo da minha vida tenho-o lido de novo mais ou menos a cada 5 anos, e ele sempre é novo e a cada leitura descubro um monte de novidades que não percebera na leitura anterior. Seu Hamilton  fez com que eu o buscasse e lesse outra vez.

             Saint-Exupéry fala do Amor assim como Marx fala do Capital – e seu Hamilton junta as duas coisas, o Amor e a revolta contra a Injustiça que o Capital perpetra. E, numa noite de sexta-feira, deixa a nós todos, brasileiros, bobos com a sua coragem. Eu, cá, queria ser, algum dia, um seu Hamilton.

            Para quem não viu na televisão:  seu Hamilton, tratorista há 33 anos, foi chamado para cumprir uma ordem da Justiça: derrubar uma casinha construída numa invasão – era uma invasão enorme, um bairro inteiro, mas certa casinha estava sobre o terreno de um homem rico que apelara à Justiça, e agora seu Hamilton teria que obedecer às leis. Ele ligou o trator, movimentou-o – e começou a chorar. Desceu do trator, e num primeiro plano, a enfrentá-lo, estava o oficial de justiça, a polícia, o homem rico que era o dono da terra – a rodeá-los, uma multidão de gente pobre, e ali junto, desconsolada, nem se agüentando em pé de tanta dor, a família que ia perder a casinha que construíra reunindo todas as economias da vida. 

           Seu Hamilton foi duramente tratado pelo oficial de justiça, ameaçado com prisão – subiu de novo no trator, de novo movimentou-o, de novo começou a chorar- e de novo desceu dele, e recebeu, então, voz de prisão por estar obstruindo a justiça. Não foi para a cadeia – acabou num hospital, com uma crise de pressão alta, e virou o herói de muitos milhões de brasileiros.

          Existissem muitos seus Hamiltons por aí, e a nossa realidade ficava bem diferente. Os simpatizantes ortodoxos do Capitalismo vão dizer que ele está errado, que o terreno era do antigo dono e pronto, e então eu penso em Jean-Jacques Rousseau, que disse mais ou menos isso: “Quem foi o louco que não matou o primeiro homem que cercou o primeiro pedaço de terra e disse que era seu?” Pois é, não me consta que lá pelo Paraíso terrestre Deus tivesse dito a Adão: “Olha, tua terra é este pedaço aqui – ali adiante vai ter outro dono.”.

         E penso em Kant, que disse que para nós termos  um êxtase perpétuo, precisamos apenas de “o céu estrelado sobre nossas cabeças e a lei moral no fundo do coração”. É brabo isso aí, né, gente? Lei moral é coisa muito maior do que lei de papel – e o seu Hamilton, com certeza, tem perfeitamente definido dentro de si o que é Lei Moral. Tão grandioso quanto Gandhi, seu Hamilton praticou uma desobediência civil que podia tê-lo levado para a cadeia e para o desemprego – mas o povo sabe, ah! Como o povo sabe o que é certo e o que é errado, e o povo sabe muito bem que não é Jader Barbalho quem está certo. Gandhi, com sua desobediência civil, acabou derrubando o Império Britânico – no que resultará o ato do seu Hamilton?

        E só para fechar, faço mais uma citação, desta vez do poeta alemão Bertold Brecht: “... a compaixão dos oprimidos pelos oprimidos é indispensável. Ela é a esperança do mundo.”.  

                                    Blumenau, 08 de Maio de 2003.

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