- Ela agora vai morrer. É assim
mesmo. Já deve ter posto seus ovos, e agora vai morrer.
Não é impossível pensar-se que as
borboletas possam sentir solidariedade – talvez aquela tenha
sentido. O fato é que adejou mais uma vez suas asas maravilhosamente
azuis, talvez seu último adejar. Consolei mais uma vez a mocinha:
- Elas vivem poucas horas...
Havia que me ir – uma
fisioterapia que se alonga me aguardava um pouco adiante. Mas fui
com aquele azul maravilhoso da borboleta dentro dos olhos, aquele
último adejar de asas encantadas que vão se transformar em nada, em
poeira de calçada... Mesmo assim andava rápido, havia o horário da
fisioterapia, bem quando ... não podia ser verdade, decerto eu
estava sonhando, assim como aquela borboleta sonhara à vista do seu
primeiro sol, poucas horas antes... era verdade, não era? Já não
importava o horário, nem a tristeza da mocinha, nem aquele adejar
azul com que a borboleta se despedia – lá do outro lado da rua o
mundo deixava de ter lógica, virava puro encanto, e creio que me
quedei imóvel, paralisada, fascinada demais para qualquer outra
coisa – quem vinha lá andando bem alheio ao fascínio que espalhava?
Com a beleza e a leveza de um colibri que paira no ar meu Gato
Malhado caminhava pela calçada do outro lado da rua, em habitat e
horário estranhos para a circulação de colibris-gatos-malhados, uma
surpresa total para aquela rua onde uma borboleta azul estava
morrendo!
Inundei-me de luz e de alegria;
vi um sol do qual já não lembrava; esqueci da dor, das dores, tantas
– que importavam as dores se um colibri encantado adejava pela rua
onde uma borboleta azul morria? Meu Gato-Malhado-Colibri vinha
sério, circunspeto, a ternura dos seus pêlos malhados de prata como
que precisando de uma carícia, a leve camisa de fino tecido branco
raiado de preto adejando também, como, um pouco antes, as asas da
borboleta azul; seu cenho sobrecarregado por tantos cansaços como
que pedindo um refrigério; o peito amplo parecendo frágil naquela
rua em que a borboleta morria – que poderia eu fazer por ele, para
alisar-lhe as rugas da testa, o peso das preocupações, as mágoas
tantas, acumuladas sabe-se lá desde quando, talvez desde os tempos
em que andava a caçar estrelas em noites de satélites?
Eu não podia fazer nada além de
ficar olhando e ficar feliz – lembro-me que em algum momento pensei
que aquela postura de estátua fascinada deveria ser constrangedora,
e então procurei a tênue proteção de um poste de cimento – o que é
que se faz, em horas mágicas assim, em que borboletas azuis desistem
da vida e encantados colibris adejam com toda a leveza por calçadas
que até então não tinham passado de calçadas comuns? Não havia o que
fazer além de ficar amando silenciosamente aquele Gato Malhado que
se ia, ficar a olhá-lo até ele sumir na distância, o coração
disparado de alegria.
Mais tarde, depois da fisioterapia, quando voltei pelo mesmo
caminho, fui haurindo em grandes haustos o ar daquela rua, pois ele
estava cheio de perfume de flor. Também! Uma rua assim como aquela
nunca mais será a mesma, depois da borboleta e do Colibri adejante
terem estado ali assim ao mesmo tempo – pena que a borboleta morreu,
e que do Colibri só ficou o perfume!
Blumenau, 28 de
fevereiro de 2008.
Urda Alice Klueger
Escritora