A extirpação de Um Cancro
Uma vez eu já senti uma sensação assim
como esta que o meu planeta deve estar sentindo hoje. Há que se voltar
no tempo, no espaço e aos dias precedentes à sensação que senti, para
que possa me fazer entender.
Eu era jovem, bonita, tinha 52 kg e
um fusca movido à álcool, última novidade em carro por cá nestas terras
de Santa Cruz (apesar de depois terem dado a maior rasteira em Bautista
Vidal, o mentor intelectual da Proálcool, como convinha ao Capital por
aqui instalado), e com meu fusca andava por todos os lados. Na ocasião
em que vou falar, especificamente, estava em Foz do Iguaçu, passando uns
poucos dias de férias, mas férias mesmo, que nunca tive dinheiro para ir
até lá buscar muamba.
Então estava em Foz do Iguaçu, num
lindo hotel na Estrada das Cataratas, todo cheio de jardins paradisíacos
e com uma piscina paradisíaca também, garçons gentis, boa comida,
turistas de diversas partes do mundo, quiçá alguns contrabandistas, e a
possibilidade de fazer as três refeições do dia cada uma num país
diferente. A amizade já rolara entre o pessoal que freqüentava a
piscina, e na sexta-feira ficou combinado que todos iríamos juntos, no
sábado, a uma nova danceteria recém-inaugurada e que já se tornara
famosa pela beleza e elegância.
Portanto, sábado deveria ter sido
como um portal de uma noite maravilhosa, mas não foi. Alguma coisa
estava errada comigo, alguma coisa indefinida fazia sentir-me um pouco
mal, e conforme a tarde se adiantava, aquela coisa ia me tirando a
vontade de ir para a danceteria, e fui dormir enquanto os amigos da
piscina botavam suas roupas caprichadas para brilhar na pista de dança.
Aquela noite, no linguajar da minha
mãe, e que cada vez mais vejo nas linhas de Saramago, foi uma noite
“encalada”, em que nada estava muito bom e nem dava para dormir muito
direito. Quando o domingo amanheceu eu tinha piorado um bocado, mas
ainda dava para pensar coisas assim: “Se eu der uma boa nadada na
piscina, melhoro!”. Então entrei na piscina para dobrar-me de dor, uma
tão aguda dor que não sei como não desmaiei e me afoguei, ali naquela
hora matinal, onde os outros hóspedes ainda estavam dormindo, se
refazendo da noite na balada famosa. Consegui sair da água e ir para a
cama, sempre com aquela esperança: “Se dormir um soninho, vai
melhorar!”.
Melhorou nada. A noite de domingo foi
um pesadelo, e na segunda pela manhã, já sem conseguir ficar de pé
direito, encurvada de dor, dirigi meu fusca até o hospital mais próximo,
e num instantinho tinha um diagnóstico: estava com uma infecção numa
coisa que todo o mundo tem, mas que a gente só fica sabendo quando
inflama: um tal de apêndice, que se situa do lado direito, um pouco
abaixo da cintura. O jovem médico que me atendeu disse que ia mandar
fazer um exame de sangue só para confirmar seu diagnóstico – e enquanto
isso eu estava já tomando um sorinho intravenoso misturado com remédio
para dor, e o mundo parecia ter ficado melhor. Já tinha ouvido muitas
pessoas falarem que tinham operado o tal de apêndice, e comecei a fazer
planos: se o diagnóstico se confirmasse, decerto o médico iria me mandar
para casa para ser operada na minha cidade, e então, naquela tarde,
aproveitaria para dar um pulo à Argentina, para tomar a boa cerveja que
lá se faz...
Voltou o médico, e era aquele mesmo o
diagnóstico. Só que não havia mais como ir nem tomar a cerveja
argentina, a 10 km dali – eu tinha 15 MINUTOS para telefonar para casa e
avisar, pois em seguida seria irremediavelmente operada. Adeus, cerveja
argentina! Gastei os 15 minutos refletindo o que fazer, e achei que era
melhor que a minha família não soubesse: se eu ficasse melhor, depois
contaria – achei por bem dar meu endereço para a enfermeira, para o caso
de terem que enviar meu corpo para algum lugar. E tinha acabado o tempo
antes da anestesia.
Na verdade, eu ficara fazendo aquelas
conjecturas, imaginando cervejas argentinas, etc., por conta do soro com
analgésico – no fundo, continuava um bocado mal, indisposta, de mal com
a vida. A anestesia foi bem-vinda, pelo menos tirou-me daquela agonia de
viver mal.
Não sei quanto tempo passou, mas lá
pelas tantas uma enfermeira me dava tapinhas no rosto e perguntava:
- E então? Tudo bem?
Foi só então que eu entendi que tudo
já tinha passado, e que era trazida de volta do mergulho na
inconsciência por aquela moça simpática. Mas o melhor de tudo, mesmo,
era a sensação de bem estar, bem aventurança, bem tudo no mundo –
fora-se embora a sensação de doença, de mal-estar, de agonia. Havia dor,
claro, principalmente quando me mexia, pois estava com um talho todo
cheio de pontos na barriga, mas a dor daquele talho era o que se pode
chamar de “dor boa”, se é que alguma dor pode ser boa, talvez como sejam
as dores de amor. A “dor má” se fora, como se um cancro tivesse sido
estirpado.
Foi bem assim que me senti de novo
hoje, quando soube que Pinochet morreu. Tenho a sensação que o planeta
inteiro está se sentindo assim, depois da maldade daquela dor toda que
ele provocou por tanto tempo. Ufa! É um grande alívio saber que a
Humanidade está livre para sempre daquele traste!
Blumenau,
10 de Dezembro de 2006.
Urda Alice
Klueger
Escritora |