A Força Da Dignidade
Como o terrorismo é
ensinado rapidamente
200.000.000 de ônibus vazios
estacionados geometricamente no terminal da Fonte – e lá dentro, nenhum
motorista, nenhum cobrador, nenhum passageiro. Começara a longa greve
que durante seis dias paralisaria a cidade de Blumenau/Brasil – também
conhecida como Europa Brasileira pela sua elite, que esconde com muito
cuidado as suas favelas por detrás dos morros, onde pobre pode ser
tratado como a elite acha que pobre deve ser tratado.
No terminal já citado, apenas uns
poucos policiais guardavam a entrada. Do outro lado da rua, na noite de
frio intenso, os motoristas paralisados, com pesados casacos escuros,
esfregavam as mãos umas nas outras para esquentá-las, e aproveitavam
para assar lingüicinhas num braseiro, para depois comê-las com pão. Um
ou outro motorista tinha um cobertor, e se enrolava nele. Os comentários
eram os de uma greve quase idílica:
- A gente não trabalha, e a polícia
faz o serviço dela, e cuida do patrimônio do patrão.
- É, ninguém quer danos para o
patrão. Só queremos o respeito que a lei assegura para a gente.
- Sim, queremos ser gente de novo.
Ninguém agüenta trabalhar 12, 14 horas por dia, e ter só 4 folgas por
mês.
Fiquei pensando: a Europa Brasileira
repetia agora, no século XXI, a Europa da Revolução Industrial, do
século XIX, e transformava seus trabalhadores em declarados escravos?
Que outro nome se podia dar àqueles homens com tal jornada de trabalho e
exaustão explícita?
- Se todo o mundo estiver junto, a
gente vence.
- É, vence. Nada de tumultos. Vamos
ficar aqui na nossa, que do patrimônio do patrão a polícia cuida. Está
muito bem assim.
Penso que todos os grevistas estavam
acreditando naquilo. Foi então...
Foi então que começaram a chegar os
carros de polícia e parar dentro do terminal. Num instante já eram cinco
carros; logo, havia polícia como se fosse um formigueiro. No meio das
tuas turmas, uma rua de duas pistas.
Terrorismo é coisa fácil de aprender,
e lá nas academias de polícia ele deve ser muito bem estudado. E ele
começou a ser executado.
Primeiro uma viatura cheia de moças
bonitas, ao invés de se dirigir ao terminal, veio estacionar junto aos
motoristas. Há que se tirar o chapéus para as moças policiais: usam
maquiagem discreta, cabelos longos elegantemente presos, são sorridentes
e lindas. Claro está que um grande grupo de homens na idade da sua
grande força não ficou indiferente àquelas moças bonitas – conversaram
com elas respeitosamente, com um ou outro olhar um tanto quanto mais
aceso, querendo mais era ficar logo amigo das moças – e elas retribuíam
com simpatia e sorrisos – e então começaram a retirar da viatura seus
coletes à prova de bala e a vesti-los teatralmente, quase que
acintosamente, com todos os olhares de todos aqueles homens presos
nelas, e elas eram todas sorrisos, mas a mensagem era bem clara: haveria
tiroteio, decerto, e como elas estavam no meio dos que seriam atingidos,
estava na hora de se proteger. Não sei como ficou aquilo dentro de cada
um – quem nunca tinha nem sonhado como é que é que se faz terrorismo,
talvez tenha tido uma tremura de medo por dentro, não dá para saber. Mas
a confiança na polícia que “protegia o patrimônio do patrão” continuava,
e quando o puliça veio e atravessou a rua, houve cochichos entre
os que assavam as lingüicinhas:
- Esse cara é gente fina! A gente não
está fazendo nada de errado.
E o puliça postou-se diante
dos grevistas, e como quem não quer nada, entabulou uma conversa, dessas
assim também de quem não quer nada, e inseriu nela, como se nada
quisesse, que os ônibus logo seriam tirados dali. Um dos homens disse:
- Daqui não sai ônibus.
E o puliça:
- E como é que vocês vão impedir?
E os homens, uns apoiando os outros:
- A gente se deita tudo na entrada do
terminal. Não tem como passar, com a gente deitado lá.
E o puliça:
- Vocês nunca viram como é que fica
um braço depois que o pneu dum ônibus passa por cima, não?
Nem o sorriso das moças e nem o
sorriso sardônico do puliça evitaram o mal-estar geral que
percorreu o grupo, como um óleo quente que se espalha por todos os
lados. Estava dada a largada para o intensivo aprendizado sobre como
funciona o terrorismo e as autoridades que os motoristas de Blumenau
iriam ter nas mais ou menos 150 horas seguintes. Nenhuma universidade
seria capaz de ensinar tanto numa vida inteira. E o bom é que tanto eu
quanto o puliça sabemos quem ele é, e eu sei que ele vai ler isto
aqui e saber que ele é ele. É aquele que costumava andar portando um
spray de gás de pimenta, conforme se têm tantas fotos.
No terminal do Aterro
Era necessário escrever um compêndio
para explicar detalhadamente as lições de terrorismo e os atos
acontecidos lá no terminal da Fonte, até que já não havia como resistir
e optou-se por se juntar à maioria dos outros motoristas em greve. E
então se foram todos para o terminal do Aterro, inclusive o puliça
com seu spray de gás de pimenta e suas ameaças sardônicas. Eram
muitos os motoristas dentro dos quais crescia a indignação; tinha
começado o tratamento humilhante e aviltante com que seriam tratados os
motoristas dali por diante, como escória da sociedade, como galés, como
se não fossem eles os preciosos trabalhadores que funcionavam como que
veias por onde circula o sangue desta minha cidade, e aquela insistência
no rebaixamento da sua dignidade lhes doía um bocado, e espoucavam
revoltadas discussões a respeito, inclusive com o puliça, que
decerto estava se segurando (quer dizer, segurando o gás de pimenta)
para não encher os camburões de presos por desacato à autoridade, quando
quem desacatava a integridade e o respeito humano daqueles trabalhadores
era ele, o homem do gás de pimenta.
O frio não era para brincadeira –
fazia 12 graus na noite de estrelas, e um grande fogo nascera na frente
do terminal, e ali se estava, também, a preparar lingüicinhas assadas
com pão. Era muito grande o número de companheiros naquele terminal:
motoristas, cobradores, sindicalistas, apoiadores. Havia os com medo e
os sem medo, e aquelas perguntas angustiantes de quem sabe o travo
amargo da pobreza:
- Os dias parados serão descontados?
- E se um trabalhar e o outro não,
vai haver demissão?
- O que vai acontecer?
E sempre havia quem consolava:
- A força está na nossa união. Há que
ficarmos juntos. Nada de discussões, que os caras querem é que a gente
discuta, para dizer que houve tumulto ... – e a noite seguia.
Apesar, no entanto, dos com medo e
dos sem medo, o que imperava era a grande dignidade de um conjunto de
homens que sabia o valor que tinha e que se sentia ultrajado por coisas
ultrajantes, como aquela do gás de pimenta. Aqueles homens tinham sonhos
e tinham estrelas de Esperança dentro de si, estrelas muito maiores que
a luz daquele fogueirão ali aceso. Um deles, na noite fria, com os olhos
cheios de profundidade, falava das suas estadas no sítio que amava, no
Alto Vale, e das leituras que costumava ler, coisa de muito bom gosto.
Era sereno e suave na postura que lembrava um príncipe, e penso que
muito burguês gostaria de ter tido um filho assim, a melhorar a
dignidade da sua genealogia. Porque, cá entre nós, a burguesia tem
produzido cada figura... E o burguês nem acredita nisto que estou
dizendo, e nem acredita que entre trabalhadores possa haver alguém que
possa pensar e sentir como aquele, como aqueles estavam fazendo. Fico
pensando se, talvez, vez ou outra, a burguesia não se reúna para
discutir se o trabalhador tem alma. Se até a Igreja já passou 350 anos
discutindo coisa parecida...
A passeata
Heroicamente, a greve cumpria seu
segundo dia, e nem é possível que se conte o tudo que aconteceu naquele
tanto tempo em que a cidade era quase como que um grande dinossauro
agonizante, privado do seu sangue e do seu oxigênio. Talvez tenha
havido, mas não fiquei sabendo: não conheci exceção sobre o
comportamento da imprensa, agindo abertamente, decididamente a favor do
Capital – e tem gente que fala em democracia num país com uma imprensa
assim!
Este segundo dia era na quinta-feira,
e nunca que pensei ver ao vivo, algum dia, o Germinal, de Emile
Zola
acontecendo nas ruas da minha cidade. (Bem, por que não? Se somos a
Europa Brasileira...). O fato é que depois da Assembléia, a categoria
dos motoristas de ônibus saiu pela cidade numa passeata, partindo da
prefeitura e descendo a Rua Sete. Era MUITA gente, tanta que nem sei
dizer quanta – e, organizadamente, toda aquela gente seguia caminhando e
gritando palavras de ordem, e eram homens adultos, homens maduros,
homens velhos, e usavam os uniformes marrons e pretos das suas empresas,
e o dia gelado fazia-os usar os casacos mais pesados, o que os tornava,
na aparência, incrivelmente parecidos com o que a gente imagina quando
lê Germinal. Mas o que mais os assemelhava aos personagens de
Zola era a profunda indignação de que estavam tomados no seu íntimo, a
verificação sem nenhuma máscara de que nada eram diante dos donos do
poder e do Capital, e que não adiantava uma vida inteira de serviços
prestados à comunidade que fazia com que as engrenagens do Capital
pudessem girar azeitadamente para que tivessem atingido o status
de homens – sabiam antes, mas sem tanta certeza – sabiam agora, com toda
a certeza, que os poderosos os viam apenas como escravos, carne de
canhão para alimentar a grande fornalha da produção – para os que
mandavam, nos empregos e na cidade, a condição humana deles não existia.
E a indignação crescia dentro deles, e com os punhos levantados eles
socavam o ar como se socassem a sua humilhação, e era possível vê-los
tão fortes, mas tão fortes, que era como olhar para um muro feito da
mais dura rocha,quando se olhava para seu conjunto, e então não dava
para duvidar da força do povo.
A noite vem cedo, neste tempo de
maio, e assim naquela penumbra que se formava, aqueles homens de punhos
levantados, de marrom e de negro, me contaram, naquele dia, que só
poderia haver a vitória. Quando muita gente fica indignada junta, não há
ameaça, amedrontamento ou gás de pimenta que possa ter força maior que a
dignidade ultrajada. E tem gente que não consegue nunca ter a
sensibilidade para entender coisa tão simples!
... e houve o dia do lazer, coisa
esquecida.
Então, no domingo, que já era o
quinto dia de greve, os motoristas de ônibus de Blumenau descobriram que
havia uma coisa da qual já não lembravam: o lazer com suas famílias!
Aquela vida que vinham tendo, de acordar às duas da manhã e dormir às
sete da noite, trabalhando de 12 a 14 por dia, vida que os impedia a ter
vida privada ou familiar, de repente ressurgia no aceso da greve, e todo
o mundo almoçou junto, homens, mulheres e crianças, e os casais
conversavam de mãos dadas com outros casais de mãos dadas, e as mulheres
estimulavam seus homens na continuação da luta, e um malabarista
encantava as crianças que nunca tinham podido andar por aí junto com os
pais, como as outras, e aquela coisa quase esquecida, da união familiar
e do prazer se irradiava dos rostos como um campo de girassóis na
primavera! Discretamente, se podia ouvir segredinhos: como as pessoas
tinham desligado seus telefones nas paredes, para não sofrer a pressão e
o terrorismo dos patrões, e de como tinham desligado seus celulares.
Ficava fácil imaginar uma nova rede de comunicações na cidade, primos
levando recados para primos, amigos dando notícias para velhos pais
preocupados. Havia quem segredasse que nem em casa estava dormindo – e
com o apoio da mulher – agora que os patrões já sabiam que os telefones
estavam desligados e estavam mandando emissários fazer terror na própria
casa dos empregados. Há que se ser muito bobo, mesmo, para se pensar que
o povo é bobo!
Toda a dignidade que emanava daquele
campo de girassóis tinha que resultar em alguma coisa, e acho que é
apropriado, aqui, baixar o nível e usar a expressão mais correta: os
patrões pediram pinico, solicitaram negociar naquela tarde!
A falta de respeito
E então, em tradicional hotel da
cidade, com uma hora de atraso, as duas partes sentaram-se para
negociar. Segundo quem viu, a atitude dos patrões era negociar com os
olhos no chão.
Quem não viu os patrões pode ver o
outro lado, vilmente impressionante: formigueiro de polícia, tropa de
choque, gente presa, caminhão de som e carro de passeio aprisionados – e
a grande, dolorosa revolta daqueles homens que muito tinham aprendido
nos cinco dias anteriores, e que agora esperavam do lado de fora do
hotel – e também das suas mulheres, pois elas estavam solidárias com
seus companheiros naquela solidariedade que se encontra tão facilmente
entre os humildes.
Então os representantes dos
trabalhadores ficaram sabendo do que se passava do lado de fora do hotel
e não houve titubeio: com a dignidade que era necessária naquele
momento, abandonaram a negociação, exigiram o respeito que estava
faltando. Teve burguês estrebuchando, dizendo que não tinha poder sobre
a polícia – mas foi só ver a coisa feia que os representantes do Capital
passaram a usar seu poder sobre a polícia, e quem estava preso foi
solto, e o formigueiro de policiais sumiu, coisas assim que muitas
vezes
a gente não pensa que pode acontecer mesmo!
Afinal, acabou não havendo acordo na
negociação, naquela noite de domingo – não tenho amizades entre os donos
de ônibus, e, portanto, não sei dizer qual foi – mas vi quando um deles,
decerto incomodado demais por ter que perder o Fantástico por causa
daquela gente que talvez nem tivesse alma, saiu do hotel com ares nada
amistosos e foi-se embora no seu automóvel de luxo.
A
segunda-feira já seria o sexto dia de greve, e então a coisa ia ou
ia. Desta vez as duas partes tinham que se sentar com uma Juíza do
Trabalho, lá em Florianópolis, e anoiteceu e a noite avançou sem que
se soubesse o que se passava lá naquela ilha. Então alguém
sinalizou: parece que vinha coisa boa para a categoria, parece que
havia sido fechado um acordo. Como cada vez mais não se usavam os
telefones ou a Internet, penso ter visto, na noite de lua cheia,
bastante nuvenzinhas de fumaça resplandecendo por esta cidade,
repassando notícias alvissareiras.
A dignidade na madrugada
Foi às três da manhã, frio de dez
graus, lá no terminal da Fonte, que a Assembléia aconteceu. Aqueles
homens de marrom e de negro que tinham levantado os braços e socado o ar
de tanta indignação, dias antes, agora faziam a mesma coisa movidos pela
tremenda dignidade que tomava conta das suas pessoas que tinham tido o
reconhecimento de que eram portadoras de almas. Os patrões tiveram que
ter um tempo para poder resolver direito a coisa, claro, que a cidade
exige respeito e bons profissionais bem treinados, como estes que
cruzaram os braços por seis dias. Então os patrões têm meio ano para ter
a coisa toda funcionando – e nossos motoristas, que sequer
reinvindicaram salários, vão trabalhar, quando tudo estiver nos
conformes, apenas sete horas por dia, uma razoável jornada para quem é
responsável pela segurança e saúde de quase toda a população, sem contar
as muitas outras conquistas – e então alguém disse: “E se os patrões não
cumprirem o acordo?”. Foi engraçado, ninguém nem respondeu a quem
perguntou uma coisa assim: as pessoas ao redor deram-se risinhos
cúmplices e fizeram aquelas caras que dizem tudo, e cada um entendeu
muito bem o que todos sentiam – que quando as pessoas aprendem a lutar,
elas não se esquecem nunca mais!
E então houve uma coisa
tão bonita, tão linda, que tinha que ter alguém como Emile Zola por
perto, para poder contar depois da melhor forma: assembléia encerrada,
três e pouco da madrugada, nossos motoristas nada discutiram - cada um
envolveu-se bem no macio e protetor manto da dignidade conquistada,
subiu no seu ônibus e foi trabalhar. Estão por aí, trabalhando, desde
aquela hora. Já quase anoitece. Tivemos perto de 150 horas de greve, a
mais longa greve de motoristas já acontecida no Brasil.E esta nossa
cidade de Blumenau nunca mais será a mesma!
Blumenau, 29 de maio de 2007
Urda
Alice Klueger
Escritora e historiadora
Blumenau,
10 de Dezembro de 2006.
Urda Alice
Klueger
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