Pois bem, um dia meus avós
desfizeram-se de sua casa e foram morar com uma filha, e
adivinhem quem ganhou a galinha de vidro colorido? Euzinha
mesmo, sem mais nem menos. Com certeza aquela era a peça mais
bonita que eu possuía, e durou vários anos nas minhas mãos: era
criança quando a recebi; era adolescente quando, um dia,
deixei-a espatifar-se no chão. Aquilo foi uma tragédia para
mim! Juntei caco por caco e guardei tudo dentro de uma camiseta
velha, na esperança de que um dia a Ciência produzisse algum
tipo de cola que me permitisse refazer a minha galinha. Ela
estava sempre lá, no fundo do armário, a me fazer lembrar de
como fora linda e garbosa, nos seus tempos de porta-jóias,
plácida e gorda galinha deitada num ninho também de vidro – como
esquecê-la?
O tempo passou. Eu já tinha
30 anos quando o meu pai faleceu, tão cedo ainda! Houve toda a
tristeza da doença, da morte, do enterro... Todas as famílias já
passaram ou passarão por coisas assim. Meu pai morreu em agosto,
e logo depois da sua morte minha mãe avisou-me que ele já havia
comprado o meu presente de Natal, antes de ficar doente. Queria
eu ganhá-lo logo?
- Não, mãe, deixe para o
Natal, como era a vontade dele.
Quisemos que aquele Natal
fosse diferente, para que não ficássemos todos dentro de casa
lembrando, nos emocionando e chorando. Achamos por bem irmos
todos acampar, e o fizemos. Fomos para Armação do Itapocoroy, lá
onde eu passara os grandes verões da minha adolescência, e eu
inaugurava moderna panela elétrica que permitia fazer todo o
tipo de comida num camping, e passei a tarde do dia 24
cozinhando, fazendo desde esmerado pernil à Califórnia, até
maionese de batatas e tudo o mais que pudesse compor uma boa
mesa de Natal. E a noite mágica foi chegando, e nas nuvens
iluminadas pelo pôr-do-sol que apareciam pelas beiras da baía de
Armação já parecia que havia muitos mistérios escondidos – numa
hora o sol se foi, e deixou, ainda por algum tempo, uma fímbria
de ouro nas nuvens – e depois ele se foi mesmo, e o horizonte
ficou róseo e azul, bem como devem ser as cores dos anjos – e
nós espiávamos tudo aquilo enquanto degustávamos o jantar de
Natal, e o mistério daquela noite estava mesmo aumentando e nos
deixando cheios de ansiedade!
Então escureceu, e era hora
de abrirmos os presentes. Os meus sobrinhos ainda eram pequenos,
e havia aquela coisa do Papai-Noel ter passado por ali sem que
víssemos, e olha lá a boneca nova da Rosa Maria! E olha lá a
caixa nova de lápis de cor do Mteka! E olha lá o estojo de
maquilagem da Anna Paula! E olha isso, e olha aquilo... quando
minha mãe achegou-se a mim com um embrulho de papel de seda, e
fez-me lembrar:
- O teu pai tinha te comprado
o presente de Natal antes de morrer...
Só aquilo já fazia engolir em
seco – cuidadosamente, desembrulhei o papel de seda... e o que
havia lá dentro? Nada mais nada menos do que uma galinha de
vidro igual àquela da casa da minha avó, que meu pai vira no
começo do ano em alguma loja, e que aproveitara para comprar já,
pois sabia o quanto eu gostaria dela! Quatro meses depois da sua
morte meu pai ressuscitava e me dava aquele porta-jóias de vidro
ao qual eu dava tanto valor, era como se ele viesse e me
dissesse:
- “Estás vendo? Sei
direitinho o teu gosto!”
Que restava a mim fazer,
então, do que sentar-me na grama e chorar?
Blumenau, 12 de Novembro de
2003.
Urda Alice
Klueger