A Garça E O Segredo Das Dunas
Hoje a garça era maior, muito maior. Fiquei a
espiá-la de longe com medo que se assustasse e voasse, e eu a perdesse.
Vê-la era como tê-la; há quem irá concordar comigo. Ela estava pousada
na beiradinha da água da grande goela da lagoa imensa, numa língua de
vegetação escura que acabara nascendo na umidade de antes das dunas.
Cortei caminho, subi numa duna, para não perdê-la, e de longe fiquei a
avaliá-la: apesar de toda a sua alva delicadeza, era uma garça de
respeito, capaz de engolir uma tainha inteirinha, acho. Estava fascinada
por ela – queria poder chegar perto, acariciá-la, apertá-la ao peito
como a um bichinho de pelúcia feito de arminho – mas sabe como é, o amor
pode sufocar, e às vezes a gente tem que amar de bem longe para não
correr muitos riscos – embora correr riscos seja coisa implícita do
amor.
Como recomenda um amor incondicional,
havia que deixá-la para que ela pudesse viver a sua Liberdade e a sua
Plenitude. Então segui pela beiradinha das dunas até muito longe, muito
longe, já lá nas dunas do outro município, e o céu e o mar eram da mesma
cor azul-chumbo do antes do anoitecer , e chegou um momento em que só
havia ainda céu e a brancura das dunas, e pensei que era melhor voltar.
Já não contornava as dunas, na volta
– fazia um novo caminho que era como um caminho novo, onde não havia
nenhum vestígio de outros pés, subindo e descendo pela areia branca,
embora me mantivesse bem consciente do lado em que estava a lagoa e do
lado em que estava o farol. Aquela imensidão de areia fina e branca me
fazia lembrar um certo aviador que um dia sofreu uma pane e teve que
ficar num deserto onde acabou por encontrar um menino que era o príncipe
de um asteróide, e que falaria coisas tão lindas, tão lindas, e que o
aviador registrou num livro que hoje pode ser lido até em quíchua ou
aimara. “Cativa-me”- o menino contara ao aviador sobre como acontecera
seu amor por uma raposa. “Cativa-me”.
E então, por causa da areia branca e
daquele menino, eu me lembrei como foi que o meu amor me cativou, numa
noite de emoção pura onde muita outra gente deve ter sido cativada!
Aquela noite foi como uma bênção tão grande que decerto muitas décadas
irão se passar até que se saiba toda a extensão da sua magia. E então,
porque o meu amor um dia me cativou, naquela areia branca eu me sentia
como se estivesse no Saara, eu, que de deserto só conheço o colorido
Atacama.
Era quase tão intensa assim a magia de
hoje. A grande garça nada precisava fazer além de existir, para me
cativar completamente, para me fazer mudar de caminho em respeito à
integridade da sua Liberdade, e por causa dela eu subi as dunas e
descobri um mundo novo, o mundo de um deserto que só conhecia por
fotografia e desenhos, e era como se ela tivesse feito com que eu
encontrasse de novo o menino-príncipe, e era como se o menino-príncipe
estivesse a dizer: “Cativa-me” – e era como se ele fosse o próprio
Príncipe-meu-amor!
Então, em paz com a minh’alma, já a
noite se fazendo quase total, continuei pelas dunas descobrindo que
dentro da alvura delas havia mil segredos escondidos: não os via, mas
podia ouvi-los. Eram desde pios finos como notas produzidas por um
violino até vozes rascantes como as de um ancião que está a cuspir todas
as suas amarguras – as menores sombras nos vãos entre as dunas altas
regurgitavam de vida alada que ali se protegia para a noite! Muito
quieta, então, fui andando pelas corcovas altas da areia branca, atenta
ao menor pio, à menor nota musical que subisse e flutuasse no ar,
descobrindo, assim, que para salvar a Liberdade de quem me cativara,
acabara descobrindo um tesouro inigualável!
Ah! Grande Garça da goela da lagoa, não
pude te apertar ao peito como um bichinho de arminho, mas como
enriqueceste a minha vida! São coisas do Amor Incondicional.
Barra
do Camacho, 30 de Maio de 2006
Urda
Alice Klueger
Escritora
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