Aos poucos, as coisas foram se clarificando, e penso que já devia andar
pelo Científico quando John Lennon tomou à frente nas lideranças entre
nós, jovens, quando passou a se posicionar, decididamente, a favor da
paz. Vivíamos a Guerra do Vietnã, e John Lennon arranjou um guru hindu e
passou a falar da paz como ninguém ainda o tinha feito para nós.
Houve um tropeço nas nossas
emoções, então: de repente, John Lennon separa-se da sua primeira
mulher, e quase que da noite para o dia, casa-se com um ser
estranhíssimo chamada Yoko Ono. A imprensa explorou amplamente sua
lua-de-mel onde os dois, vestidos de branco, recebiam os repórteres na
cama, e outras coisas assim, e ajudou a criar uma boa revolta nossa
contra aquela mulher que parecia ter vindo para criar complicações.
Naquele período, a Segunda Guerra Mundial ainda era muito próxima, e não
tinham sido os japoneses os vilões da História, com direito a
experimentarem as duas primeiras bombas atômicas do mundo e tudo? Nossa
cabeça formada pelas Seleções do Reader’s Digest não aceitava com
nenhuma facilidade aquela japonesa na vida do nosso ídolo, ainda mais
considerando o fato de a acharmos feia, e sabermos que era mais velha
que ele. Como daí a pouco os Beatles se separaram, na nossa cabeça a
culpa era dela, bem dela.
A História encarregou-se de nos
mostrar que Yoko Ono nada tinha a ver com as nossas mágoas adolescentes.
Nosso amor pelos Beatles nunca morreu (amor verdadeiro não morre mesmo),
especialmente por John Lennon, que, entre outras coisas, nos deu aquela
pérola chamada Imagine, que, entre outras coisas, diz : “
...Imagine todos vivendo a vida em paz/todas as pessoas partilhando o
mundo inteiro/Você pode dizer que sou um sonhador/mas não sou o
único...”
Daí, um dia, um louco foi lá e
matou aquele doce e meigo gênio que nós amávamos profundamente, e a
nossa dor era tão grande com a perda dele, que transferimos todo aquele
nosso grande amor para sua viúva, Yoko Ono, que víamos a chorar pelos
corredores de Nova York, e até hoje me emociono até às lágrimas quando a
vejo.
Então, um dia uns caras foram
lá e jogaram uns aviões sobre uns prédios nos Estados Unidos. Foram
cenas vistas ao vivo pelo mundo inteiro, e um sangrento desejo de
vingança tomou conta do presidente e da maioria da população daquele
país, e passou-se a se querer muito uma guerra para se lavar a honra
daquele povo que se sentia ultrajado. Naquelas primeiras semanas depois
do 11 de Setembro de 2001, nenhuma rádio estadunidense tocava nenhuma
música que falasse em paz; nenhum filme sobre tal tema era mostrado,
tamanho era o desejo de guerra que por lá havia.
Então foi ela, Yoko Ono, aquela
a quem tínhamos detestado no começo, que lavou a nossa alma: ela comprou
uma página inteirinha do New York Times (só imagino quanto terá
custado!), e mandou publicar nela a letra da música Imagine.
Fazia tempo que a gente já sabia que ela era a Guardiã dos Nossos
Sonhos, mas naquela ocasião ela como que recebeu o grau máximo da nossa
emoção. Também por causa dela, sabemos hoje que o sonho não acabou.
Blumenau, 26 de Fevereiro
de 2002.
Urda Alice Klueger