Crônicas

Urda Alice Klueger

 A História de John Smith

                                    Nesta semana, numa reunião onde estava, surgiu uma discussão sobre a pobreza ou não da África, e quando vi estava quase me pegando de pau com Napoleão, um colega que admiro muito. Como tantos outros historiadores que eu conheço, ele defendia a idéia de que na África até pode haver um cantinho sem estar cheio de pobres e de moscas (é esta a súmula de tal pensamento), mas que era mais ou menos inadmissível que o resto do continente não fosse uma pobreza só, pura guerra, doença e tristeza. É exatamente a imagem que fazem do Brasil lá fora: favelas, tiroteios matando inocentes, massacres de menores, seca no nordeste. Lá na África têm mais de 50 países, e uns 50 estão em paz, construindo alguma coisa de bom há décadas – tem coisa bonita demais para se ver lá – já andei por lá e vi. Como no Brasil. Se eu perguntar para vocês se Blumenau é uma cidade rica ou pobre, o que vocês vão dizer? Claro que o centro de Blumenau é uma cidade rica – por detrás dos morros, porém, há cada favela (eu conheço algumas) onde a fome é a grande realidade, e se a gente conhecer Blumenau daquele ângulo, vai dizer que Blumenau é uma cidade tão pobre quanto os lugares pobres da África. Na discussão com o colega, nesta semana, disse-lhe: “E os Estados Unidos? Tu pensas que lá também não está cheio de pobre?” Espero que ele não tenha ficado chateado comigo, mas a discussão me levou a pensar: e os pobres dos Estados Unidos? E aquele rapaz chamado John Smith (disseram-me que seria o equivalente ao João da Silva brasileiro), que cresceu numa favela estadunidense, sobreviveu no meio da criminalidade que havia no seu colégio, e acabou ficando um adulto desempregado? Digamos que agora ele está com 18 ou 20 anos, e neca de emprego – que fazer com a sua vida, com a sua força alimentada a hambúrguers, com a sua viçosa saúde como os jovens têm, e que anda à procura de dar um jeito de perpetuar a espécie? Como alimentar seus filhinhos, caso eles vierem? Como conseguir sobreviver sem emprego num país em recessão?

                                   Ah! Tem um jeito, sim! Para não perder a popularidade, o tal Mister Cachorro Louco, mais conhecido como Bush II, resolveu  tornar-se popular arranjando emprego para toda a rapaziada desempregada: a guerra.(É bom lembrar que o serviço militar não é obrigatório lá nos EUA, como aqui.). E então John Smith acabou indo para o exército, para não morrer de fome. Ele nem sabia muito bem em que ponto cardeal ficava este tal de terceiro mundo, quando embarcou para brigar num totalmente desconhecido país chamado Iraque. (A história é igual se considerarmos o Afeganistão.) E um dia ele desembarcou lá, todo paramentado de farda nova e armas impressionantes, e disseram para ele mais ou menos assim: quem se mexer é inimigo. E o primeiro que se mexeu na escuridão de uma trincheira, na sua primeira noite de soldado assustado e cheio de medo, ele atirou com sua mira sofisticada e viu o cara cair. Nem parecia que alguém tinha morrido: era tão fácil, tão incruento e tão indolor! E John Smith acostumou-se a cumprir as ordens e a salvar a pele, para garantir o salário e a ração, e está lá no Iraque matando gente conforme lhe mandam, ou conforme o medo lhe aconselha. Não sabe muito bem quem são os iraquianos, mas sabe por que está lá: porque não há outro emprego para ele. O único que o governo lhe assegura é o de matador. Esqueçam desta coisa de que ele tem uma ideologia.

                                   Mas então as gentes do Iraque se encheram de serem mortos sem reagir, e fizeram bem aquilo que nós faríamos se tivéssemos o nosso país invadido: passaram a  reagir à invasão, e não têm mais dia sem que uma porção de Johns Smiths sejam atacados e mortos em emboscadas, eles que tinham aprendido que não se morria, só se matava. E agora o medo aumentou, e John Smith dispara a sua arma com muito mais freqüência, o que faz com que as emboscadas e os atentados também aumentem de freqüência. Neste momento em que escrevo ele ainda está vivo e talvez ainda mate alguns desconhecidos iraquianos nesta noite – amanhã, porém, não se sabe como estará. E tudo o que ele queria era um emprego, por mais simples que fosse, e um lugarzinho onde pudesse morar com a sua Mary para poderem perpetuar a espécie em paz. Agora, ao contrário, está a dizimar a espécie. É o que acontece com os pobres de certos países. Você não sabia que os pobres existiam lá no outro lado da América, sabia?

                                   Blumenau, 09 de Novembro de 2003.

                                    Urda Alice Klueger.

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