Eu sei que Blumenau tinha o
“Barracão dos Imigrantes”, lugar onde essa gente que passava três meses
atravessando o mar podia descansar um pouco, refazer-se um pouco, antes
de pegar o rumo da floresta desconhecida que seria o seu lar. Fala-se,
hoje, nos desconfortos do tal Barracão, mas, em todo o caso, era um
lugar em terra firma onde havia aquele descanso tão necessário. Minha
avó nunca me falou do Barracão, nem de como eles andaram mato adentro
para chegarem nas terras, mas me falou muito da sua primeira noite no
mato. Seu pai cortou palmitos e montou uma pequena casa, um rancho,
coberto pelas folhas dos próprios palmitos, e eu fico a imaginar que ele
aprendera a técnica nos dias ou semanas em que ficou no Barracão dos
Imigrantes, para fazer num instantinho uma casinha assim. Lá dentro,
arrumaram as suas coisas para uma primeira noite: baú e caixas contra a
parede, camas muito precárias no chão. Mais tarde, talvez no dia
seguinte, tratariam de fazer camas suspensas, estrados de renda de cipó,
onde as pessoas poderiam dormir mais ao abrigo de formigas e outras
coisas. Naquela primeira noite, porém, não houve tempo. Tão logo houve
cama pronta no chão, e alguma coisa para comer, as crianças foram
dormir.
Pensem comigo: criança é assim
mesmo, desde que o pai e a mãe estejam por perto, elas dormem calmamente
em qualquer lugar, sem sentir medo de nada. E minha avó e seus dois
irmãozinhos entregaram-se aos braços de Morfeu tranqüilamente, e
dormiram que foi uma beleza. Teriam dormido assim até de manhã, não
fosse a trovoada que caiu: a pequena cabana fora construída num declive
de terreno, e a água daquela assustadora trovoada tropical entrou cabana
adentro, querendo levar tudo de roldão e molhando todo o mundo que
dormia no chão. Ela lembrava-me como acordara, como foram socorridos
pelos pais. Era um pouco folclórico, aquele acontecimento da trovoada, e
o que ela contava a seguir era da manhã seguinte, quando meu bisavô
tomou as primeiras providências contra trovoadas tropicais, abrindo
valetas ao redor daquela casinha de nada, feita de palmitos. Decerto
depois que a água inundou a casinha, os pais botaram as crianças a
dormir em lugar seco, isto é, sobre as caixas e baú , e elas de novo se
esqueceram do mundo. Muitas outras coisas da vida desta minha avó eu já
contei em crônicas e livro – ela não é uma estranha para a Literatura.
Então eu chego à conclusão:
soube do que acontecia na primeira noite de um imigrante no mato pelos
olhos de uma criança, e criança dorme bem e é feliz desde que os pais
estejam por perto. Tive dessa primeira noite uma experiência romântica,
bonita, apesar da assustadora trovoada, pois tudo foi visto pelos olhos
de uma criança que se sentia protegida pelos pais.
Como terá sido para os meus
bisavós, no entanto, tal experiência? Que sentiram, pessoas adultas, ao
verem a tempestade quase pôr abaixo a casinha que era o único socorro
que tinham? Quais os medos que os acometeram quando ouviram todos os
ruídos do mato circundante, todos os pios, rugidos e outras coisas, e
pensaram na possibilidade de índios andando ali fora, já que se estava
em plena guerra com os nossos Xoklengs? Isto foi coisa que eu descobri
depois. Um dia eu conto.
Urda Alice
Klueger
Escritora,
historiadora e doutorando em Geografia pela uFPR
Blumenau, 29
de setembro de 2010.