A índia
da Guatemala
Acabei de voltar do 3º Fórum
Social Mundial de Porto Alegre, onde muitas coisas aconteceram. Foram
tantas, que poderia escrever um livro inteiro a respeito, mas vou me
limitar a contar uma história que lá vi, de uma índia guatemalteca,
que muito me impressionou.
Tinha
eu ido a uma oficina chamada “Mujeres Solidárias”, onde mulheres
argentinas iriam contar de como haviam se unido para conseguir ao menos
que seus filhos comessem, quando a grande crise deles começou.
Cheguei cedo, tomei assento, e fiquei a observar as lindas jovens
argentinas que tinham arregaçado as mangas e ido à luta quando seu país
“fizera água”, em dezembro de 2001. Era visível que todas aquelas
moças vinham de família rica, o que lhes dera boas pernas, boas
maneiras, gosto para se vestir bem, que tinham comido muito bem na infância,
embora uma ou outra, agora, estivesse magra em excesso. Todas tinham
aspecto europeu, e quando entrou uma índia no recinto, chamou a maior
atenção. A índia era idosa, baixinha, atarracada, e usava uma roupa
bordada que eu era incapaz de reconhecer como sendo de algum lugar
determinado. Sucintamente, as argentinas contaram das providências que
tinham tomado para garantirem a comida dos filhos, como trabalharem de
enxada na mão em terrenos baldios, transformando-os em hortas comunitárias,
como criaram refeitórios coletivos para que as crianças de cada bairro
pudessem comer. Pensei que falariam mais – na verdade, tinham vindo
para ouvir e aprender.
Então,
diversas outras representantes de outros países falaram de trabalhos
parecidos que faziam em grupos de mulheres solidárias, e falaram duas
bascas, uma brasileira de Maceió, uma venezuelana, etc. Todos estavam
sentadas em círculo, e a estranha índia como que se excluíra, estava
lá num cantinho da sala, com sua inegável cara americana e suas flores
bordadas no vestido, como se tivesse algum receio de tantas mulheres com
caras européias.
A
coordenadora dos trabalhos, então, chamou a índia para falar. Não
guardei o nome dela, mas apresentaram-na como uma grande personalidade,
alguém que como que caíra do céu para participar daquela discussão.
E então a índia falou.
Ela
era baixinha e atarracada, já disse. Quando abriu a boca, porém,
agigantou-se na sala, deixou pequeninas aquelas lindas moças de longas
pernas européias.
Ela
contou do que ocorrera na Guatemala depois da guerra: restaram milhares
e milhares de mulheres viúvas e crianças órfãs, e as mulheres
guatemaltecas eram preparadas apenas para servirem aos maridos: não
aprendiam a ler e nem a ter nenhuma profissão. Até hoje, 70% das
mulheres guatemaltecas maiores de 35 anos ainda são analfabetas. A
guerra deixou-as desamparadas, e como as argentinas, quando elas viram
suas crianças com fome, reagiram. Basicamente, fizeram a mesma coisa:
providenciaram comida, profissionalizaram-se, aprenderam a ler, não só
nas cartilhas escolares, mas também nas amplas páginas da História e
do Capitalismo, e descobriram muitas coisas que antes não sabiam.
Então
houve um momento em que o básico estava garantido, e elas já sabiam
que suas crianças não mais morreriam de fome. Que fizeram, então?
Pela sua tradição, havia que ter os corpos dos seus maridos nos cemitérios,
para que pudessem fazer-lhes visitas, e levarem seus filhos a visitarem
os pais. Ora, os homens haviam morrido em grandes batalhas, e haviam
sido enterrados às centenas em valas comuns. Achei tétrico o que ela
contou, mas há coisas que a gente deve contar adiante: as mulheres
guatemaltecas abriram as valas comuns, e cada uma acabou por achar o seu
homem. Não me perguntem como os reconheceram; talvez o clima de lá
seja diferente e tenha conservado os corpos, não sei. O que sei é que
cada uma levou o seu marido para o cemitério da sua cidade, da sua
aldeia, cada uma obedeceu à tradição do seu povo.
Depois
de contar isto, aquela mulher ergueu a cabeça e cruzou as mãos, numa
atitude que dizia: “Missão cumprida”. Elas podem, agora, por todo o
sempre, visitar seus maridos, assim como seus filhos podem visitar os
pais. Mulheres são capazes de coisas que a gente nem imagina!
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