Pelas três, quatro da madrugada, deu-se a grande ocupação – era
inverno, amanhecia tarde, faltava muito, ainda, para o dia chegar, e
aquela gente que tinha como rumo único a solidariedade e o sonho de
uma terra para plantar, acostumada que era a viver sem coisas como
luz elétrica tratava de se organizar, e por todos os lados surgiam
lanternas que começaram a iluminar o imenso campo devastado. Como
os demais, eu vagava por ali, esperando a chegada do dia e vendo os
vultos escuros. As lanternas que estavam com as pessoas tinham os
mais diversos modelos e formatos: iam desde as mais sofisticadas,
aquelas que se usam em luxuosas barracas de grandes famílias, no
verão dos campings, alimentadas não-sei-a-que, até... bem, até
aquela como nunca vira na minha vida, a não ser parecidas,
existentes em desenhos ilustrativos de histórias infantis que se
passavam antigamente em países cheios de neve. É melhor explicar
logo: alguém pegara uma lata dessas de conserva de pepinos ou de
pêssegos, cortara um quadradinho na parede da lata, fizera uma alça
de arame, e lá dentro da lata acendera uma vela. Era um homem que a
segurava – as paredes de lata impediam que a vela fosse apagada pelo
vento, e aquele pequeno quadrado era uma janelinha de luz que
liberava sua luminosidade quase que em forma de cone, ampliando-a –
e o dono da lanterna sabia manejá-la muito bem, direcionando a luz
para onde bem lhe aprouvesse.
Fazia um frio danado e a manhã tardava a chegar. Zanzando por ali
tudo, acabei me aproximando do homem da rusticíssima lanterna,
curiosa com o funcionamento dela. Na pouca luminosidade daquela
madrugada, o homem me mostrou a praticidade dela, falou do baixo
custo para mantê-la, essas coisas que costumam ser faladas por quem
está acostumado a viver com quase nada.
A
mulher do homem se juntara a nós, e eram ambos seres muito
maltratados pela vida, envelhecidos – imaginei que tivessem já seus
quarenta anos.
-
Quer ver nossas crianças? – o homem perguntou, direcionando sua luz
precária para um colchãozinho infantil que descansava na grama,
escondido sob um cobertor de lã. Com muito cuidado, ele e a mulher
levantaram parte da lã... e sob ela dormiam SEIS criancinhas, uma
escadinha que ia de zero a sete anos.
-
Perdemos uma... – o homem se emocionava, iluminando seus tesouros
com aquela lanterna mágica que me atraíra.
-
Que aconteceu?
-
Ficou doente. A gente não tinha como tratar. Morreu – e tanto ele
quanto a mulher ficaram ali, inclinados e tristes, chorando um no
ombro do outro. Tinham seis anjinhos ali dormindo naquele
colchãozinho, mas sentiam falta daquele outro que partira – já não
eram completos; uma parte deles lhes fora tirada pela pobreza,
ficara no meio do caminho, quebrara-se a sua cadeia da vida.
Estavam tão tristes assim chorando naquela iluminação precária, que
procurei desconversar.
-
Vocês são de onde?
-
Vim do interior de São Paulo, dona. A mulher eu roubei no Paraná,
faz sete anos! Ela tinha 14 anos! – a alegria lhes voltara com
aquelas lembranças quase que de capa-e- espada, provavelmente a
única grande aventura das suas vidas. Agora riam seus risos
desdentados e feios de quem só conhecera a dura pobreza extrema, e
então fiz a conta, considerando a criança mais velha:
-
Mas então tu tens 21 anos...
Sim,
aquela mulher maltratada, envelhecida prematuramente, só tinha 21
anos, um marido decerto um pouquinho mais velho, e o colar
incompleto de seis crianças que eram as suas pérolas. E juntos, os
dois tinham aquele colchãozinho infantil, um cobertor, aquela
lanterna – e um sentimento enorme que os unia.
Fiquei ali, parva, pensando como poderiam sobreviver aquelas oito
criaturas se não tivessem se amparando uns aos outros dentro daquele
movimento que clamava pela justiça do fim das capitanias
hereditárias.
Nunca me esqueci daquela família com sua lanterna mágica, seu amor
tão grande até por aquele anjinho que voara embora, aquele anjinho
que fazia falta no colchãozinho onde dormiam outros seis.
Penso que se passaram uns três ou quatro anos até encontrar aquele
homem de novo. Era de dia, mas o reconheci. Desta vez, como eu, ele
estava de apoiador para um povo inteiro em risco de vida por conta
de um fazendeiro pestilencialmente mau. Rimos um para o outro, e
perguntei por sua mulher, pelas crianças. Todos estavam bem, e agora
TINHAM A SUA TERRA! Ele me disse o nome do assentamento onde
moravam, e eu sabia que aquele era um lugar bom, onde as pessoas
estavam conseguindo viver felizes.
-
Dona, lá dá de tudo! Tem feijão, tem milho, tem melancia... e as
vacas, dona, eu estou criando vacas! É a coisa mais linda! Já tem
leite para vender, e nunca mais que as crianças ficaram sem leite!
Foi
a maior alegria encontrar de novo aquele homem que possuía uma
lanterna mágica, agora seguro e bem alimentado! Decerto sua mulher
rejuvenescera também, no novo regime de leite, manteiga e tantas
melancias, “olha dona, precisava ver cada melancia!”.
De
vez em quando eu fico lembrando do homem que tinha aquela lanterna
única. E então penso também no punhado de bobões que acredita na
imprensa que se curva diante do Capital e se posiciona ao lado dela,
falando as maiores barbaridades contra quem procura seu direito à
terra, sem ter nenhum conhecimento sobre o que seja verdade ou não.
Daí eu sei que sempre vou poder contar com aquele homem e a sua
família. Há uma lanterna mágica a nos unir para sempre.
Blumenau, 09 de Novembro de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora