A Sinfonia Não Terminou
Choveu, hoje; era necessário. Neste
tempo de fim de Primavera e de quase Natal tudo tinha que estar
perfeito, e a chuva deveria lustrar e fazer luzir cada folhinha desta
Mãe-Terra do Vale do Itajaí, porque era o dia em que ela deveria abrir o
seu ventre para receber para o descanso de para-sempre aquele seu filho
dileto chamado Hélio Hahnemann.
Só soube que Hélio partira faz pouco,
e mal queria crer. Liguei, então, para Noemi e Roi Kellermann, e eles
estavam acabando de chegar da despedida daquele Ser-Beija-Flor que se
cansara de bater suas asas coloridas e resolvera que era tempo de ir
dormir seu sono mais reparador no ventre da terra deste Vale. Dói saber,
dói muito, assim como dói a cada vez que a gente perde as pessoas que
ama, e então saí para caminhar um pouco pela tarde, para, mais perto da
Natureza, tentar entender por que Hélio se fora, os porquês das
partidas, e Hélio tinha sido sempre tão especial, puro talento
transformado em cores e pleno daquele sentimento que eu acho que a gente
deve chamar de “saudade do que ainda não aconteceu”, e foi ele,
exatamente ele, o Grande Retratista a transpor para as telas as mais
diversas facetas deste Vale do Itajaí. Uma vez ou outra, ia ele espiar a
desembocadura do Vale no mar, e também essas espiadas ele pintou, e se o
Vale do Itajaí tem hoje uma maravilhosa iconografia, não há como duvidar
a quem a deve: ao Beija-Flor irriquieto, pleno de luminosidade interior,
que soube captar todas as nuances das cores, das formas e da poesia, e
que hoje ... nos deixou.
Eu penso em Hélio como a gente pensa
numa Sinfonia, e era assim que ele era mesmo, pois sinfonias me fazem
ver cores e sensações que talvez não visse ou sentisse se elas não
existissem, e Hélio era assim, fazia com que a gente quisesse ver o que
não deixava claro – havia quadros dele que eu ficava com vontade de
espiar pelo lado de trás, para ver como é que era o pátio traseiro
daquela casa, ou o outro lado daquele ribeirão, quem sabe a parte
interna de um esquecido estábulo do meio de um pasto...
Então saí a andar pela tarde para
tentar entender os porquês dolorosos das partidas, e a Natureza de fim
de Primavera estava toda absolutamente tão linda assim depois da chuva,
que então eu entendi: toda ela se preparara para receber no seu ventre
aquele que lhe fora tão fiel ao longo de toda a vida, e não era como se
uma Sinfonia tivesse terminado – Hélio Hahnemann estará sempre como uma
colorida música bailando de beleza dentro deste meu Vale do Itajaí!
Blumenau,
06 de Dezembro de 2006.
Urda Alice
Klueger - Escritora |