Crônicas

Urda Alice Klueger


Árvore De Pombos

                                    Não longe da minha casa, antes de um ribeirozinho que corre, onde há um certo vazio no alinhamento da rua, alguém, algum dia, plantou algumas árvores.  Penso em quem as plantou e quando foi isso, pois as árvores já são adultas, antigas, decerto que mais velhas que eu, pois desde que me lembro elas estão ali e são assim. Uma vez ouvi falar de um estranho marinheiro de cabelos vermelhos que plantou aquelas mudinhas ali, em outros tempos; noutra vez, me disseram que era um alemão, um estudioso de plantas, que passou por aqui e aqui deixou aquela lembrança.

                                   O fato é que aquelas árvores são únicas – em nenhum morro nem em nenhuma vargem de todas as redondezas há algo parecido. São árvores grandes e galhudas, que ficam desprovidas de folhas conforme o outono se adianta, e que explodem em flores lá pelo final do inverno. E as flores, ah! as flores! São diferentes de todas as flores que a gente conhece, abrem-se em fascinantes corolas brancas, cor-de-rosa, lilás, e nem parecem ser de verdade, de tão lindas! Cada árvore tem as flores de uma cor diferente, e elas não parecem reais, mas feitas de cera por habilidosa mão, como há flores de cera na igrejinha, frente à imagem do Menino Jesus.

                                   Eu gosto muito de pensar que no dia em que o meu Marinheiro voltar será primavera, e que nos casaremos tendo eu na cabeça uma coroa feita com as flores daquelas árvores. Mesmo o tempo tendo passado e a minha primavera já ter fugido há muito, serão lindas aquelas flores numa coroa de noiva, e talvez só elas consigam expressar o que me vai no coração.

                                   Já pensei tantas vezes tal coisa que aquele lugar ali nas proximidades daquelas árvores se tornou um dos meus favoritos para pensar no meu Marinheiro que está tão longe! Gosto de, nos finais de tarde, sentar-me um pouquinho longe delas, sobre uma pedra branca que há por ali, e olhá-las com os olhos do amor, tão lindas e coloridas contra a cor baça que os morros têm, mais adiante, quando chega esse tempo em que as árvores florescem. Fica lindo, aquele branco, rosa e lilás contra a cor de nostalgia de uma certa névoa que recobre os morros e o mundo, nesse tempo misterioso em que a primavera se faz anunciar.

                                   Não é hora, porém, ainda, das misteriosas árvores florescerem – o frio do inverno enregela os nossos pés e deixa azuis as nossas mãos não protegidas, e os homens que pescam de arrasto usam seus gibões de lã de carneiro sobre as outras roupas, enquanto afrontam as ondas frias com as pernas desnudas, na sua faina anual da safra de tainhas. Não é tempo de se esperar pelas flores, agora – é tempo mais certo para se acocorar nos ranchos de espera e vigiar as mantas de tainha ao largo.

                                   Então, ontem, no diáfano mistério azulado da tarde, depois de ter ajudado a escalar cestos e cestos com a tainha do arrasto, saí a caminhar pela praia sem outra pretensão além de sentir no peito a grandiosidade deste meu amor que tem atravessado os anos e o espaço, deste meu amor que tudo faria para voar pelos céus e ir ver, por um segundo que fosse, a face do meu amor que deve estar envelhecendo como a minha – deste amor que dá o sentido para a minha vida.

                                   Banhara-me após escalar os peixes, e vestira o meu engomado vestido cor de cinza, aquele mesmo que usava no dia em que o meu amor partiu, e vinha pela praia quase sem sentir os meus pés, ou o ato de caminhar... quando vi coisas tremeluzindo e se mexendo naquelas árvores que deveriam estar nuas, naquelas misteriosas árvores que um homem misterioso, um dia, trouxe de algum lugar do outro lado do mar.

                                   Já estariam a florescer, aquelas árvores, e então já teria se cumprido mais um ano da minha espera, ou estava eu enganada? Apressei o passo, curiosa e ansiosa: se já fossem as flores, quiçá estivessem elas a anunciar que era tempo de entrar na baía aquele navio que eu imaginava tão distante, e talvez eu viesse, mesmo, a me casar com uma coroa como aquela que sonhava?

                                   Não eram as flores, no entanto. Em poucos passos as imagens clarearam, e então pude ver que o que estava causando a ilusão era um grande bando de pombos pousado ali!

                                   Se o meu Marinheiro chegar agora, irei casar-me com uma coroa feita de pombos brancos, cinzentos e pretos. Não fará muita diferença, no entanto. Ele há de entender que o que conta é o que existe dentro do coração.

                                               Blumenau, 01 de agosto de 2008.

                                               Urda Alice Klueger

                                               Escritora

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