No segundo semestre de 2003 eu passei a ir, todas as semanas,
estudar na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis.
Como meu grande amigo o historiador Viegas passou a fazer a mesma
coisa, passamos a ir juntos.
Eu
me criei num Vale do Itajaí amplamente plantado de cana-de-açúcar,
principalmente na região que existe entre Blumenau e Itajaí . De
repente, por algum motivo, já não se planta mais cana naquela região
– planta-se arroz. E em agosto, quando começamos a ir, o arroz
estava nascendo, e se tem uma coisa no mundo que eu sempre achei
absolutamente maravilhosa, é a cor do arroz nascente, do arroz
crescente, enfim, as diversas gradações de verdes maravilhosos com
os quais o arroz se engalana antes de ficar verde bem escuro e
começar a amadurecer.
Então, ir para Florianópolis, era uma festa para os meus olhos, com
todos aqueles tons de verdes infinitamente maravilhosos pelas beiras
das estradas, e na primeira vez, quando me deparei com a primeira
arrozeira nascente, entrei em êxtase:
-
Viegas, olha que coisa mais LIIIIIIIIIIINDA!
Entediado, Viegas olhou para fora do carro. Seu comentário:
-Isto aí deve estar cheio de mosquitos!
Eu
jamais pensara em mosquitos quando pensara na beleza do arroz, e
aquilo foi um choque para mim. Pela lógica, com tanta água sob o
arroz que nascia, era bem possível que houvesse mosquitos, mas uma
coisa não tinha nada a ver com a outra. Como é que alguém conseguia
pensar em mosquitos diante daqueles verdes translúcidos, daqueles
tons em esmeralda, daqueles nuances que pareciam feitos pela varinha
de condão de uma fada que viera de um planeta distante para encantar
este mundo onde eu vivo?
-
Viegas, como é que tu podes pensar em mosquitos?
-
Mas há outra coisa para se pensar? Olha a barbaridade de água!
Eu
sei que Viegas é alguém muito sensível, e jamais esperara aquela
reação dele, assim como nunca pudera imaginar a dor que tomou conta
do meu peito por causa daquela história de mosquitos, que quebrava a
magia das minhas cores do arroz. Penso que brigamos, naquele
primeiro dia. E depois, semana após semana, tínhamos uma pequena
briga por causa dos mosquitos do Viegas e da minha magia que se
perdia, levada pelos mosquitos. Como doía aquilo!
Doeu
tanto, que um dia aflorou o real motivo de eu gostar tanto das cores
do arroz novo, e de estar tão revoltada por alguém estar quebrando
aquela magia. Passaram-se meses; penso que foi lá por novembro que a
imagem aflorou. E então foi emocionante demais descobrir, e eu era
de novo uma menininha de uns três ou quatro anos, completamente
segura nos braços do meu pai, com o rosto encostado no dele, não sei
se numa parada de trem ou de ônibus, mas ambos ali na região de
Ascurra/SC, a olhar a cor maravilhosa do arroz novo, ele tão
encantado quanto eu, a me guiar os olhos para que eu visse. Junto ao
peito do meu pai, na segurança que ele me dava, eu recebia, também,
a dádiva daquelas cores indizíveis. E com os anos a imagem se
apagou, mas ficou a cor do arroz novo a me dizer que havia uma
delícia também indizível lá no fundo, lá por detrás daqueles cores
que me encantavam, que tudo começara com uma menininha no colo do
seu pai que também gostava de ver as cores do arroz.
Quando entendi, eu contei para o Viegas. Eu já disse que ele é muito
sensível: ficou todo chateado, todo cheio de culpa por ter quebrado
a minha magia, pediu desculpas uma porção de vezes, ainda pede, de
vez em quando. Que fazer? Eu o desculpo, claro, mas foi como quando
a gente parte um cristal – nunca mais as coisas ficam iguais.
Voltaram lembranças que eu tinha esquecido, que estavam lá no mais
recôndito do meu cérebro – mas agora elas estão misturadas com
mosquitos, irremediáveis mosquitos que o Viegas trouxe para as
minhas arrozeiras. Como eu também gosto muito do Viegas, assumi seus
mosquitos na maravilha das cores do arroz novo. Será que algum dia
voltará a ser como era antes?
Blumenau, 19
de Fevereiro de 2004.
Urda
Alice Klueger