(Texto escrito
em 1996. Importante ater-se a este detalhe, pois desde então houve
diversas mudanças no Equador naquele país, como a dolarização da
economia e a instalação da Base estadunidense de Manta.)
Estou voltando de uma viagem pelo
Noroeste da América do Sul, e fiquei pensando sobre o que contaria
primeiro para vocês. Aconteceram mil coisas e situações, vi coisas
interessantíssimas, conheci inúmeras pessoas, de maneira que fica
difícil escolher o que contar primeiro, mas o coração me manda falar
sobre o Equador.
Nada sabemos sobre o Equador, no
Brasil. Viajei para lá com a fotocópia de um texto que dava dados
técnicos sobre esse pequeno país, tipo população, área,
língua, moeda, fuso horário, etc., mas que nada dizia sobre a doçura
que encontraria lá.
País cheio de vulcões e sujeito a
terremotos (imagino que até os terremotos sejam doces por lá), o Equador
é minúsculo, mas possui litoral rico (as Ilhas Galápagos fazem parte do
seu território), está sobre os Andes, e desce, do outro lado, até à
selva Amazônica, onde se situa o seu petróleo. Só conheci a parte
andina, doce e verde parte andina, onde chove toda a tarde e tudo é de
uma grande fertilidade.
A impressão que tive, é de que o
Equador é um país que ainda não perdeu a ingenuidade. Vive-se, lá, à
base de ilimitada confiança, de intensa alegria, de extremada simpatia.
O equatoriano não pode ver uma pessoa indecisa, numa esquina, que logo
se aproxima, para ver se pode ser útil, e uma primeira pessoa puxa a
segunda, e logo tem-se umas dez pessoas querendo ajudar, dez simpáticos
equatorianos cheios de riso e sem nenhuma malícia, imbuídos do mais puro
sentimento de solidariedade que já vi por aí.
Andei muito de ônibus no Equador,
e acho que vale contar para deixar mais claro o que estou dizendo.
Num ônibus, vai o motorista, e ao seu lado,
de costas para o público, o cobrador (ou cobradora: lindas moças de
meias de seda, sapatos de salto e maquilagem caprichada, como andam
quase todas as equatorianas não-índias). A passagem, lá, é por
quilometragem: até o ponto tal custa tantos sucres, até o outro ponto,
um pouco mais caro, e assim por diante (1 dólar = 3.400 sucres). Os
passageiros vão entrando, dizendo para o cobrador que está de costas
até onde irão, entregam o dinheiro a ele, que vai empilhando notas e
moedas à sua frente, e que não confere nada: não há roleta, bilhetes de
controle, nada. A honestidade de toda a população faz com que tudo
funcione perfeitamente, sem o menor controle. No final da linha, o
cobrador entrega ao motorista o dinheiro recebido
-
o motorista o coloca no bolso sem conferir nada, e a vida continua,
cheia de uma doçura que pensei que não mais existisse.
Vi pessoas pobres no Equador, mas não vi
miseráveis, dos quais o Brasil é tão pródigo. Quando saímos de Quito,
em direcão ao Norte, prestei a maior atenção para ver se havia favelas
nos arredores da cidade, mas não consegui ver nenhuma. Disseram-me,
depois, que há favela no lado Sul
-
afinal, nada é absolutamente perfeito.
Sei que aquele povo simples e
honesto é extremamente alegre: impressionou-me a
quantidade e a qualidade do seu riso. Basta estar junta uma família, ou
um grupo de amigos, para que todos estejam rindo, um riso ingênuo, sem
malícia, contagiante na sua alegria pura e doce, como é doce e ingênuo
aquele país!
E o artesanato do Equador, ah! o artesanato
do Equador! Já andei uma porção por este mundo, mas em nenhum lugar vi
artesanato mais lindo do que o do Equador! Reflexo de um povo ingênuo e
feliz, o artesanato equatoriano tem uma leveza, uma pura alegria nas
suas cores e no seu equilíbrio estético, que tira o fôlego de
fascinação. De tudo há: roupas, bordados, crochês, tapetes, quadros,
espelhos, madeira
-
uma loucura para uma brasileira sem grana como eu, que gostaria de ter
comprado tudo, mas que não tinha como fazê-lo, tanto pela falta de grana
quanto pela falta de espaço para carregar tanta coisa linda! E tudo
baratíssimo, por dez dólares compra-se lindíssimos vestidos bordados (é
claro que trouxe um)
-
a minha mágoa foi não ter como trazer um daqueles maravilhosos espelhos
decorados, que me deixavam babando de cada vez que olhava para eles.
Querido e doce Equador, se Deus
quiser, um dia eu volto. Para um mês inteiro, e não apenas para quatro
dias, como foi dessa vez! E muito doce estar ao embalo do teu regaço!
Blumenau, 08 de outubro de 1996.
Urda Alice Klueger