Crônicas

Urda Alice Klueger


Meu Cachorro Atahualpa 12 - São Nicolau

(Para todas as crianças de Santa Catarina que estão nos abrigos nascidos da catástrofe recente.)        

Hoje é dia de São Nicolau, 06 de Dezembro de 2008, e a região onde Atahualpa e eu vivemos ainda está bastante mal depois de uma tragédia que aconteceu aqui começando já faz duas semanas, e que está ainda bem longe de acabar. Houve uma enchente e uma quantidade incrível de quedas de barreiras, desmoronamentos, casas despencando de morros, enxurradas. Dia de São Nicolau é dia de botar o sapato na janela para ganhar balas e chocolates, mas penso que não serão muitas as crianças que farão tal coisa hoje – há muita gente tão triste, tanta gente sem casa, tantas crianças que partiram para sempre, voando com suas asinhas de anjos... Quase 5.000 pessoas estão abrigadas em escolas e igrejas só na nossa cidade, tanta gente ainda tem as casas cheias de lama, há ainda barreiras e casas despencando...   

Eu também estou triste, muito triste, mas há uma gloriosa coisa que me deixa alegre: hoje faz um ano que Atahualpa veio para a minha vida. Eram dez para as seis da tarde do dia de São Nicolau do ano passado quando passei naquela agropecuária e ainda estava lá, para doação, o cachorrinho preto de olhinho esperto que eu já vira pela manhã, e eu o peguei no colo, embrulhei-o num pano africano vermelho que tinha no carro, para ele ficar bem bonito, e saí da loja conversando com ele:

                                   - Vês? Olha só como o mundo é grande! – e dali o levei para mostrá-lo para a minha amiga Dina, a dona do Bar Farol.

Ele era uma coisinha de nada, com menos de 900 gramas, assustadinho e magrinho, e depois descobriria que estava um bocado doente. Lembro daquela primeira noite, quando o coloquei para dormir numa caixa de papelão na área de serviço, encostadinho a um rádio embrulhado num pano, ligado bem baixinho, para que ele não se sentisse só... E das tantas e tantas e tantas outras vezes em que o coloquei para dormir, desde aquele dia até ontem à noite, tirando umas poucas vezes em que ele dormiu na casa da minha prima Rosiani, quando tenho que viajar, ou de umas mais poucas vezes ainda em que ele dormiu num hotelzinho para cachorros – e que um dia o perdeu e sequer me avisou ou o procurou. A perda dele, para mim, foi uma coisa tão dolorida, que até hoje não gosto de lembrar. Um dia eu conto.

Hoje Atahualpa está um grandão, sempre ali por perto dos dez quilos, embora na outra semana, quando, flagelados pela catástrofe natural (mas provocada pela mão do homem), nos abrigamos na casa da minha sobrinha Anna Paula, ele ficou tão tenso com a tensão que reinava aqui na nossa cidade, que perdeu dois quilos. Foi mais ou menos a quinta parte do peso dele, o que é muito para qualquer ser vivo, e eu fiquei na maior angústia, enchendo-o de carinho para que ele readquirisse a vontade de viver. Viemos morar, então, no cantinho onde estamos neste novo dia de São Nicolau, que é o depósito de livros de uma editora, pois, pelo menos por enquanto, não podemos voltar para casa. E temos feito passeios pela redondeza nas manhãs e nos finais das tarde, e o restaurante próximo está me dando sobras de suculentas carnes para o meu bichinho, e dormimos os dois no chão, um perto do outro, e ao menor ruído de gente passando pela calçada ele se põe de pé e late atroadoramente, com o barulho do disparo de um canhão, cão de guarda que se tornou, e ele readquiriu o peso perdido, já conseguiu até tomar um banho lá no hospital da Dra. Juliana (pois faltou água potável na nossa cidade por cerca de 10 dias) – mas continua o bichinho mais querido no mundo, a quem boto na cama deitadinho, e digo coisas assim:

                                   “- Boa noite, Atahualpa! Durma bem, sim?” – e mesmo que ele esteja com o maior calor e vontade de dormir no chão fresco do banheiro, permite sempre tal ritual e acho que até espera por ele, como quem diz: “Será que ela hoje não vai me desejar boa noite? Será que já não gosta mais de mim?”

Então, só depois que lhe desejo boa noite na caminha quente e vou me deitar, é que ele se levanta e vai dormir de barriga no piso fresco do banheiro, todo feliz, e acho que ele pensa alguma coisa tipo: “Ufa, ainda bem que ela não me esqueceu!”.

Faz um ano, hoje, que estamos juntos, e Atahualpa nunca recebeu um tapa ou uma bronca de verdade. Tudo o que ele aprendeu na vida foi através de conversas feitas com muito amor. Até injeção ele toma sem chorar, depois que converso com ele sobre a necessidade de tomar um pics quando ele passa mal depois de comer seus sapos secos ou os cocôs de capivara. Atahualpa é o maior exemplo de que a pedagogia da não-violência funciona de verdade.

Feliz aniversário para nós dois, meu cachorrinho querido!

                                                           Blumenau, 06 de Dezembro de 2008.

                                                           Urda Alice Klueger

                                                           Escritora  

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