Até Tu, Glória Maria?
Tá, Glória Maria trabalha como
apresentadora na televisão que mais “cega” nosso povo brasileiro, que
mente descaradamente de conluio com a Revista Veja, quando lhe é
favorável fazer tal coisa – quer dizer, o tempo todo – mas Glória Maria
sempre teve para mim um gostinho especial de alguém especial, que se
elevava acima das baixarias da Globo, alguém que sabia como lidar com o
lúdico e o mágico da vida, e então poderia fazer uma longa lista de
reportagens que ela fez que me levaram a ter tal sentimento. Começaria
por uma quase perdida lá nos tempos do passado, quando, num circo, ela
entrou num canhão que atirava gente de circo a longa distância – e ela,
no seu pouco seguro uniforme de jornalista, também entrou no canhão e
também foi atirada lá numa longínqua rede de proteção – como não
aplaudir tão corajosa repórter que arriscava a própria pele?
Depois é enorme a lista de
reportagens que me levaram a admirá-la, desde entrevista com menininhos
de 8 anos em pleno Tibete, que sabiam quem era Pelé, até andanças pela
Índia, onde se deparou com a cremação de um defunto – e do seu jeito
reservado de ficar assim meio distanciada, cobrindo o nariz com a mão, e
confessando para as câmaras: “Gente, pra falar a verdade, isto aqui tem
cheiro é de churrasco!”
Glória Maria ia a Nova Iorque por uma
semana e voltava com duas dúzias de reportagens fantásticas, enquanto a
Globo mantém observadores lá que mal e mal falam umas duas linhas por
semana sobre a última mentira estadunidense, creio que mais para mostrar
seus belos sobretudos de corte francês. Fiquei toda boba quando cruzei
com ela de verdade, outro dia, no Aeroporto de Congonhas – virei tiete,
até bati fotografia dela.
E agora Glória Maria me dá o maior
chute nas canelas.
Explico: faz dois domingos que, no
Fantástico, anunciou ela que “depois de décadas de difamações, que
fizeram com que o povo achasse que lá só existia narcotráfico e
guerrilhas, ela ia fazer uma série de reportagens que iria mostrar o
quanto a Colômbia era um país lindo e cativante!”
Explico de novo: faz tempo que sei
tal coisa. Em 1996, atravessei a Colômbia por terra desde o extremo sul
até o extremo norte, isto é, entrei nela pela cidade de Ipiales,
fronteira com o Equador, e saí pela cidade de Barranquilla, lá na beira
do Caribe, de avião, em direção a Aruba. Gente, a Colômbia é LINDA! Tem
guerrilha? Tem, sim, senhor, e sobre tal coisa já escrevi por aí até em
livro. Tem assalto? Tem, sim, senhor, um bocado menos que no Rio de
Janeiro ou Joanesburgo, com certeza. Tem pobreza? Tem, sim senhor, a
granel, talvez até um pouco mais que a que tem nos favelões que se
escondem por detrás dos morros da minha cidade, Blumenau/SC, no famoso
milagroso e rico sul do Brasil. Mas a Colômbia é LINDA, sem a menor
sombra de dúvida, e fico em dúvida sobre o que catalogar de mais lindo:
ou as encostas dos Andes, cultivadas até lá nas beiradas das neves
eternas, extremamente férteis e ocupadas por quadrados de todos os tipos
de verdes e amarelos, de acordo com os cereais ali plantados, ou a Praia
Branca de Cartagena, a mais linda praia que já vi na vida, onde o mar
tem ... 17 cores, e não as parcas 7 cores que a Glória Maria mostrou
outro dia. A Colômbia é um dos países mais bonitos que já vi, mas só
vinha de lá notícia de narcotráfico e guerrilhas. Por que será que de
repente botaram Glória Maria a fazer essa nova série de reportagens,
tentando mudar a imagem da Colômbia?
Tenho comigo que Álvaro Uribe Vélez,
o atual presidente, capachão de Bush e candidato à reeleição, quase teve
um troço quando viu o inimigo fidalgal Hugo Chavez Frías, presidente da
Venezuela, ganhar o Carnaval do Rio de Janeiro, botando a sambar na
Marquês de Sapucaí até o herói redivivo Simon Bolívar! Dizem que Hugo
Chavez deu um milhão de reais para a escola vencedora vencer – com
certeza, nem com um bilhão teria conseguido tamanha publicidade!
O capachão, portanto, não podia ficar
atrás, e ligeirinho fechou com a Globo a série sobre as belezas da
Colômbia. Que a Colômbia é bonita, é, vi tal coisa muito bem. Mas tu,
Glória Maria, por que foi que aceitaste fazer o jogo sujo, um jogo que é
tão sujo que até agora nem entendi direito, mas que deve ter a ver com a
reeleição desse vil servidor do Capital chamado Álvaro Uribe? Eu podia
esperar tal coisa de qualquer um – mas de ti, Glória Maria, mulher
corajosa que encantou minha juventude se deixando até atirar de canhão
em pleno circo? A vida tem dessas coisas! Até tu, Glória Maria! O jogo
do poder é muito sujo, mesmo!
Blumenau, 28 de Abril de 2006.
Urda Alice Klueger –
Escritora.
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