Crônicas

Urda Alice Klueger


Bençãos De Ano Novo

                                         Há pouco a minha janela e a minha vida foram inundadas de jorros de luz: quando imaginava a cidade cinzenta, apagada, com pouco sentido, uma enorme sinfonia de coloridas luzes se fez acontecer e acendeu minha vida para todo um sentido novo, e de repente voltei a ter brilho nos olhos, vigas mestras na existência, caminhos abertos e iluminados para seguir!

                                   Fica até difícil contar como tal coisa aconteceu: estamos nos feriados de fim de ano, e a minha cidade está cheia de calor e vazia de gente, e pelas minhas contas, aquele meu Passarinho mais especial do mundo saíra voando fazia tempo, tomara o rumo do sul, onde é o tempo de estarem as aves do norte nesta estação, pois por lá já nidificaram, já nasceram filhotes que se emplumam, e só daqui a um bom tempo sentirão elas um frêmito perpassá-las e quererão voar de volta, algumas para os campos de primavera de países distantes; outras, para seus ninhos do dia a dia em lugares como este onde vivo.

                                   Consolo-me, nestes tempos de distâncias, com coisas que outros achariam de pouca valia: há um telefone, no ninho do Passarinho mais especial de todos, e então ligo para lá, sabendo que ninguém atenderá, apenas para ouvir o timbre do telefone soar naquele ninho deserto, pois um dia o Passarinho voltará, e então é aquele o telefone onde atenderá, e que me trará o mavioso do seu gorjeio de rouxinol... Também penso outras coisas, filigranas que sei que ficam difíceis de entender, como o poder ouvir o timbre daquele telefone incógnita e anônima, poder ouvir tal timbre até a saciedade, sem medo de desgostar o Passarinho...

                                   Era nisto que pensava, há pouco, quando, quando arrisquei aquele telefonema para um ninho vazio. Surpresa, fui atendida por uma voz desconhecida. Duvidei – decerto ligara para número errado, criei coragem e perguntei. Sim, sim, era ali o ninho do Passarinho, não me equivocara, e ele estava ali, a secretária poderia chamá-lo...

                                   Os jorros de luzes de alegria e de plenitude foram tão grandes, no entanto, no mesmo instante, que quedei paralisada, e só tive forças para pôr o telefone no gancho. Uma sinfonia tomara conta de mim e eu queria sair bailando naquela luz colorida, e tudo no mundo passara a ter outro significado e eu me tornara, de novo, uma pessoa forte e com muitos caminhos abertos a seguir, uma pessoa cheia de planos e projetos - já ficara para trás o Ser amorfo e sem sentido que me habitara por tantos dias! Pensar que respiro o ar da mesma cidade onde nidifica o mais especial dos passarinhos, pensar que há moléculas de ar indo de cá para lá e de lá para cá, carregadas pelo calor e pelo vento, e que talvez neste momento eu respire uma molécula de oxigênio que aquele Passarinho já respirou...       

                                   Ah! As bênçãos que o Ano Novo parece estar a trazer! Bem-vindo, Ano Novo, chegue com toda a beleza e força que sinto neste momento, e me diga se há outra coisa a fazer com um Passarinho assim além de amá-lo muito!

 

                                                           Blumenau, 29 de Dezembro de 2009.

 

                                                           Urda Alice Klueger - Escritora

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