Fica até difícil contar como tal
coisa aconteceu: estamos nos feriados de fim de ano, e a minha
cidade está cheia de calor e vazia de gente, e pelas minhas contas,
aquele meu Passarinho mais especial do mundo saíra voando fazia
tempo, tomara o rumo do sul, onde é o tempo de estarem as aves do
norte nesta estação, pois por lá já nidificaram, já nasceram
filhotes que se emplumam, e só daqui a um bom tempo sentirão elas um
frêmito perpassá-las e quererão voar de volta, algumas para os
campos de primavera de países distantes; outras, para seus ninhos do
dia a dia em lugares como este onde vivo.
Consolo-me, nestes tempos de
distâncias, com coisas que outros achariam de pouca valia: há um
telefone, no ninho do Passarinho mais especial de todos, e então
ligo para lá, sabendo que ninguém atenderá, apenas para ouvir o
timbre do telefone soar naquele ninho deserto, pois um dia o
Passarinho voltará, e então é aquele o telefone onde atenderá, e que
me trará o mavioso do seu gorjeio de rouxinol... Também penso outras
coisas, filigranas que sei que ficam difíceis de entender, como o
poder ouvir o timbre daquele telefone incógnita e anônima, poder
ouvir tal timbre até a saciedade, sem medo de desgostar o
Passarinho...
Era nisto que pensava, há pouco,
quando, quando arrisquei aquele telefonema para um ninho vazio.
Surpresa, fui atendida por uma voz desconhecida. Duvidei – decerto
ligara para número errado, criei coragem e perguntei. Sim, sim, era
ali o ninho do Passarinho, não me equivocara, e ele estava ali, a
secretária poderia chamá-lo...
Os jorros de luzes de alegria e
de plenitude foram tão grandes, no entanto, no mesmo instante, que
quedei paralisada, e só tive forças para pôr o telefone no gancho.
Uma sinfonia tomara conta de mim e eu queria sair bailando naquela
luz colorida, e tudo no mundo passara a ter outro significado e eu
me tornara, de novo, uma pessoa forte e com muitos caminhos abertos
a seguir, uma pessoa cheia de planos e projetos - já ficara para
trás o Ser amorfo e sem sentido que me habitara por tantos dias!
Pensar que respiro o ar da mesma cidade onde nidifica o mais
especial dos passarinhos, pensar que há moléculas de ar indo de cá
para lá e de lá para cá, carregadas pelo calor e pelo vento, e que
talvez neste momento eu respire uma molécula de oxigênio que aquele
Passarinho já respirou...
Ah! As bênçãos que o Ano Novo
parece estar a trazer! Bem-vindo, Ano Novo, chegue com toda a beleza
e força que sinto neste momento, e me diga se há outra coisa a fazer
com um Passarinho assim além de amá-lo muito!
Blumenau,
29 de Dezembro de 2009.
Urda
Alice Klueger - Escritora