Crônicas

Urda Alice Klueger

Bolívia, 20 meses atrás, quando morreram quase 100 pessoas. A História está se repetindo.
Urda

Bolívia do meu coração

                                    Faz dez anos que eu conheci a Bolívia.Eu conheci a Bolívia como acho que se deve conhecer um país: atravessei-a todinha por terra, de ida e de volta, desde o Mato Grosso do Sul até o Peru, comendo as comidas que as gentes de lá comem, usando os transportes das pessoas humildes, tomando chá de coca como eles tomam (pó pará que chá de coca não dá nenhum barato – é como o cafezinho para nós), parando nas suas cidades e subindo suas montanhas, deixando que ela entrasse no meu coração como efetivamente entrou. Até hoje tenho uma grande saudade daquele país que me seduziu, com seus altiplanos cheios de lhamas, vicunhas e alpacas, com sua grande encosta andina, com seu lago Titicaca, com o vulcão extinto onde está localizada a cidade de La Paz, com a extensa cidade de El Alto, acima das bordas do vulcão onde está La Paz. Poderia falar de outras cidades e outras coisas, mas acho mais importante falar da sua gente.

                                   Não sei direito as estatísticas, mas diria que uns 95% dos bolivianos são índios, com cara de índios e com roupas de índios. Os outros 5% são compostos por uma ou outra pessoa com cara espanhola ou de alguma outra etnia européia. E os bolivianos têm características só deles,  como a de manter no rosto um ar impassível, que faz com que a gente jamais saiba do seu verdadeiro estado de humor. Apesar da impassibilidade, eles são simpáticos e prestativos. E todos eles têm como primeira língua o quíchua ou o aimará, antiqüíssimas línguas faladas muitíssimo antes de Colombo e Pizarro. O espanhol é sua segunda língua.

                                   E então, que está acontecendo lá agora, que deixa todo o mundo curioso? Como historiadora, tenho acompanhado passo a passo o que ocorre na Bolívia nos últimos meses, e tudo começou com uma eleição fraudada, onde os Estados Unidos botou lá no poder um homem que nem fala quíchua nem aimará, e que fala espanhol com sotaque estadunidense, quer dizer, alguém absolutamente não identificado com o país ou o povo. E esse presidente títere deverá fazer tudo o que os Estados Unidos querem, como a história de vender o gás boliviano quase de graça, etc. A lista das coisas que revoltou o povo é grande. E aquele povo de rosto impassível, aquele povo que a gente nunca sabe o que está pensando, ficou a pensar muito seriamente nos 500 anos de espoliação e de massacres (só nas minas de Potosí, montanha de prata que a Bolívia possuía, morreram 8.000.000 de índios, de maus-tratos e de fome), e achou que estava na hora de dar um basta.  E o basta está aí, e a Bolívia está numa verdadeira guerra contra o imperialismo internacional e contra o presidente títere e as suas medidas, e o tal presidente não tem nenhum amor por aquele povo, e manda seus soldados atirarem no povo que não o quer, e a cada manifestação morrem entre 10 e 30 bolivianos. No total, agora já morreram diversas centenas. E cada vez mais eles devem aumentar a impassibilidade do rosto e a revolta, e lembrar de Potosí e de todas as outras humilhações e espoliações, e impassivelmente se unem cada vez mais, e como fortalezas ambulantes descem as montanhas e caminham pelo altiplano, todos em direção a La Paz.E os bolivianos continuam morrendo com os rostos já não impassíveis, mas tomados da grande dignidade da revolta, e cada pessoa que cai é substituída por muitas dezenas, centenas de outras, e tenho comigo que, pela primeira vez na América, um povo vai acabar fazendo valer a sua vontade.

                                   Lá na Casa Branca, eles estão tão mortinhos de medo quanto no Palácio de La Paz, palácio que vi em dias de praça ajardinada e pombos por todos os lados, e que agora vejo na televisão rodeado de tanques e cheio de fumaça. Tá, o Palácio de La Paz estar com medo está certo – mas por que estaria com medo a Casa Branca? É que se o maltratado povo boliviano tomar o poder nas mãos, como parece que irá acontecer mesmo, ele acabará se tornando um aliado precioso de países como o Brasil, a Argentina e a Venezuela, que não estão querendo mais levar a sério o jugo do FMI e que estão querendo ser felizes sem pedir a bênção de um certo padrinho que costuma visitar os afilhados com mísseis e bombas. A vitória do povo boliviano pode ser um grande baque nos projetos  de um certo Mister Cachorro Louco, popularmente conhecido como Bush, de “papar” a América todinha para fazer dela seu quintal de casa.

                                   Eu, cá, sou Bolívia até debaixo d’água!

                                                           Blumenau, 17 de Outubro de 2003.

                                                           Urda Alice Klueger  

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