54ª Feira do Livro de Porto
Alegre, entre gostos e alguns desgostos. Mil tentações para comprar
dentro dos dias de calor, nas barracas sombreadas por árvores
florescidas de milhões de florinhas azuis, mas sempre a lembrança da
pilha de mais de cem livros esperando leitura, e limitei-me a alguns
presentes de Natal para as minhas crianças.
Não tive
como deixar de comprar, no entanto, um caminho. Havia diversos
deles, diferentes perspectivas daquele mesmo caminho que era o
caminho do pintor João Piosan, gaúcho, e eu estava triste, era o
último dia de estar aqui e eu estava triste. De repente, diversos
ângulos do caminho daqueles quadros como que me abriam uma
perspectiva, faziam com que eu pensasse num caminho possível, lá
adiante, no longínquo horizonte do fim do túnel do tempo, e mesmo
com o dinheiro já curto, não resisti em comprar um quadro daqueles.
Olho-o
agora, no meu colo, na rodoviária, esperando para ir embora. O
caminho que eu comprei é ladeado por duas casinhas brancas, com
jeito de lusas, meros detalhes para um caminho ladeado de exuberante
verde e que tem, diante de uma das casinhas, a sombra de IMENSA
árvore florida de rosa e branco, mas tudo, as casas, as plantas, a
florida árvore, tudo é detalhe: o dono do quadro é ele,o caminho,
que passa diante das casas, e debaixo da sombra das flores, e
decididamente se vai adiante, em direção de um futuro que talvez
seja o meu – senão, por que aquele caminho teria me hipnotizado
assim, me atraído como se fosse um ímã, a ponto de eu não sossegar
enquanto não comprei um daqueles quadros?
Tento,
então, imaginar para onde ele vai. Decerto ele vai para onde eu
gostaria que ele fosse, isto é, para um tempo onde toda a gente do
mundo possa ter saúde, alimento e acesso à educação, e onde cada ser
humano tenha direito a uma casinha branca com árvore de flor na
frente, e tal coisa é fundamental para a minha felicidade, pois dói
tanto em mim a dor do mundo!
Aquele
caminho, porém, vai mais adiante ainda, e dá diversas voltas que eu
posso ver, e quantas dará que eu não vejo?
Penso que
nesse especial caminho que eu não vejo está o meu futuro, e lá
adiante, muito adiante do quadro, bem distante das demais, haverá
uma casinha branca e simples, com duas janelas simples do lado, mas
com tamanho suficiente para abrigar uma felicidade IMENSA, porque lá
no meu futuro, quando as minhas mãos já estarão cheias de dores,
naquele tempo que eu chamo de Tempo da Artrite, precisará haver uma
casinha branca, ou alguma outra, não importa qual, mas precisará um
lugar para viver a felicidade incomensurável de poder cuidar do meu
Passarinho! O que eu não faria para poder viver tal felicidade?
E então
estou aqui a olhar o caminho e a imaginar cada momento, cada detalhe
de um tempo que um dia virá, e de como, mãos encarquilhadas pela
artrite, sentaremos juntos, apoiados um no outro, sob uma árvore
como aquela do quadro, nas tardes de setembro, e a brisa leve do sul
do mundo virá e fará com que algumas flores caiam sobre nós e sobre
a felicidade vislumbrada, e então lembrarei dessa Feira do Livro de
Porto Alegre que já terá ficado para trás no tempo, e de como achei
este quadrinho nela, o todo o longo caminho que o quadro mostra me
acendeu em alegria, pois lá longe, lá bem longe, haverá uma casinha
branca e uma chuva de flores caindo dentre a brisa da tarde, e então
será o tempo de só ser feliz!
Porto
Alegre, 08 de Novembro de 2007.
Urda
Alice Klueger
Escritora