Crônicas

Urda Alice Klueger


Camping II - Agosto

Eu não sabia, mas era um violento ciclone sub-tropical que chegara até ali pela metade do Vale e endoidara os ventos e encrespara o rio, e molhara tudo o que era possível molhar com sua chuva atravessada, horizontal. Ás oito da noite eu desistira de qualquer possibilidade de estudar e me entrincheirara no único ponto seco do enorme camping: a minha barraquinha que era um pouco maior que uma casinha de cachorro, e que agüentou valentemente todo aquele assalto da natureza. Embrulhada em lãs andinas, procurei dormir, embora fosse acordada de tempos em tempos pela violência dos ventos que, tive a certeza, só não carregava minha barraquinha porque ela tinha, dentro dela, os meus sessenta quilos a lhe servir de lastro.

                                   Desacostumada a ir dormir tão cedo, quando acordei, ainda era escuro. Deixei aberta a tela de uma janelinha  para ver quando o dia chegasse, e de novo mergulhei no sono. No novo despertar olhei para o relógio: eram 08:28 horas, parecia um número cabalístico, talvez jogasse no bicho se estivesse na cidade.

                                   E então saí para um dia que parecia todo diferente. O rio translúcido estava escuro, cor de ferrugem velha, e se algum peixe comprido havia sobrado da loucura da noite, era impossível vê-lo. Mais tarde até haveria sol, mas por enquanto as nuvens eram baixas, como se fizessem feias caretas para a gente, e tudo parecia um tanto quanto destroçado: as árvores tinham as folhas como que do avesso; não sobrara sequer um pé de lírio-do-brejo com suas flores cheirosas na beira do rio;  e o rio estava cheio e ameaçador; e lá onde forma um encachoeiramento, tinha a fúria de um exército destruidor. Decerto, mais acima, outros encachoeiramentos havia, invisíveis e longínquos, pois ali chegavam espumas brancas batidas como massas de clara de ovo em neve, e fiquei pensando na moça de 17 anos que a mãe curara, sessenta anos atrás, das queimaduras da bomba de Hiroshima, usando o único recurso que ela tinha naquele horror pós-bomba.: clara de ovo batida. A moça, hoje, é velhinha e mora em Buenos Aires, e li sua história faz uns três dias.

                                   Também a grama linda do camping estava que era pura folha, tanta folha que não se saberia dizer de onde viera tanta – na verdade, cada pedacinho do camping recebera sua quota de folhas arrancadas de todas as árvores possíveis, e só então é que me dei conta que a tempestade fora algo além do normal. Fiquei a observar os passarinhos, com seus pios, chilreios e outras vozes cheias de urgência, diferente dos outros dias: quantos não teriam perdidos seus ninhos, seus ovos, seus filhotes? Eles catavam pelo chão fios de capins e outras coisas para, decerto reorganizar suas casas,e não haviam namoros na manhã de hoje: nem de passarinhos, nem de borboletas azuis que se namoravam no espelho das águas do remanso do rio, nem de ninguém. Acho que a única que namorava, ali naquela desorganização da natureza, era eu própria, pensando em você que estava tão longe, prestando atenção nas coisas para lhe contar depois. O vento secara um certo lugar: coloquei lá minha esteira, minha cadeira, o cesto com as coisas que deveria ler, e fui estudar. Minha concentração andava pouca, depois da noite de sono interrompido, e o aproveitamento do que fazia era pequeno. Às vezes, é a própria vida que não quer que nos enfronhemos demais em determinado assunto, porque há coisas mais importantes para ver – e então, com o pouco proveito do que lia, ficava dando umas olhadas para as coisas da natureza, ali ao meu redor – e houve um momento em que um passarinhozinho todo verde me espiou de um cantinho de uma churrasqueira ainda encharcada, e como que me acordou para a esperança. Foi só um átimo de segundo, mas o passarinhozinho verde me disse coisas: apesar da noite mal dormida, muito havia que esperar – talvez até ele tivesse me avisado que lá muito longe, num outro hemisfério, você tivesse pensando um instante em mim!

                                   Fiquei atenta ao que acontecia, e vi que ali pertinho uma roseira escapara ilesa na sua preparação para a primavera: estava cheia de brotos rosados e translúcidos, e ensaiava tecer pequeninos botões que decerto se abrirão em setembro! Setembro! Será o tempo em que você volta! Que mais a natureza teria para me dizer?

                                   Voltei a estudar, já com maior concentração. Eram dez horas quando veio a nova surpresa: uma borboletinha que não tinha mais que um centímetro da ponta de uma asa até a outra, vestida com o luxo de um tecido dourado como deviam usar as damas da corte de Luiz XIV, pousou no meu texto e ficou me olhando, bem como quem diz:

                                   - Olha, ele lembrou de ti! -  Será que teria lembrado mesmo? Só a sensação de esperança já me encheu de felicidade, e continuei lendo. Mas não tinha acabado.

                                   Ao meio dia, quando fui pegar minha caneca de cerâmica para a água do almoço, quem estava pousado dentro dela? Nada mais nada menos que um grilo verde! Ficamos nos olhando, meio enamorados um do outro, como se ele dissesse:

                                   - Ele lembrou de ti, sim!

                                   Será que lembrara? Seria uma coisa boa demais!

                                   Então, de tardinha, quando voltei para casa, a primeira mensagem que entrou na Internet foi a sua!Ela não falava de amor, claro, mas estava cheia de carinho! Como a natureza sabe!

                                               Blumenau, 10 de Agosto de 2005.

                                               Urda Alice Klueger

                                               Escritora

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