Eu cresci num mundo
povoado de fadas, de histórias de santos e de histórias árabes – as
fadas vieram dos livros e, decerto, da minha avó lituana, e em
histórias de fadas sempre acaba tendo também duendes, e príncipes, e
reis. Já as histórias de santo vieram através da minha mãe,
fervorosa católica. O que nunca entendi foi como me chegaram as
histórias árabes – que só identifiquei como árabes mais tarde,
estudando literatura de Santa Catarina – o fato que na minha
infância se contavam muitas histórias árabes, no meu colono bairro
do Garcia, um bairro de origens alemãs, numa cidade de origens
alemãs, no sul do Brasil. O fato é que eram famosas, lá, histórias
como as da Moura Torta e outras.
Mais tarde cresci e estudei muita
História, e descobri que nem sempre os príncipes eram encantados,
como se dizia nas histórias de fadas, e também descobri a história
de muitos outros príncipes, que nada tinham a ver com trajes de
veludo e de cetim, mas que usavam chompas
de pêlo de lhama ou fascinantes e elaborados cocares de riquíssimas
penas de aves, um dos quais existe em minha casa, herança muito
amada por mim. Os príncipes de verdade, os reis de verdade, aqueles
das chompas e dos cocares não viviam histórias bobinhas de
moça engasgada com pedaço de maçã e coisas assim, pois eles eram tão
formidáveis, que as moças se inclinavam à sua passagem e iam
livremente ao seu encontro – e eles não precisavam de beijinhos
açucarados para acordar moças engasgadas com pedaços de maçã, pois
suas moças eram as rainhas de coisas vitais para grandes
civilizações, como o milho, a batata, o amendoim, o tomate, e tantas
outras. Eram príncipes e reis que viviam em perfeita harmonia com a
natureza, de povos guardiões de sabedorias milenares,
de civilizações únicas, de grandes impérios
- e que tinham, como desvantagem, não conhecerem a pólvora e as
armas de fogo – e quando o europeu invasor chegou a esta Abya Yala
que hoje costumamos chamar de América, possuidor que era das novas
tecnologias da guerra, e adentrou a ela segurando na mão uma espada
e na outra uma cruz (o arcabuz ia a tiracolo), e portando os
mortíferos germes das doenças que tinham adquirido no meio da
sujeira em que vivia, não foi muito difícil o saque, o morticínio, o
sadismo, o horror – e o domínio do novo continente em pouco tempo,
conquistado em nome de um deus que não devia fazer a menor idéia das
barbaridades que se perpetravam em seu nome.
As crueldades do domínio foram
tamanhas que uma poderosa voz acabou se fazendo ouvir a favor da
nossa gente de Abya Yala, a de Frei Bartolomé de las Casas,
religioso que dedicou a sua vida a proteger o que já não poderia
mais ser protegido. Nem vou entrar no capítulos da barbaridades
sexuais e outras que o invasor europeu perpetrou na nossa América –
vou apenas citar um pedacinho do que viu Bartolomé de las Casas:
“Eu vi uma vez quatro ou cinco dos principais senhores torrando-se e
queimando-se sobre esss gradis e penso que havia ainda mais dois ou
três gradis assim aparelhados; e pois que essas almas expirantes
davam grandes gritos que impediam o capitão de dormir, este último
ordenou que os estrangulassem; mas o sargento, que era pior que o
carrasco que os queimava (eu sei seu nome e conheço seus parentes em
Sevilha), não quis que fossem estrangulados e ele mesmo atuchou
pelotas na boca a fim de que não gritassem, e atiçava o fogo em
pessoa até que ficassem torrados inteiramente a seu bel prazer.(...)”
.
Aconselho a todos que leiam tal
autor e possam fazer seus próprios juízos quando a mídia oficial
fala as bobagens que fala.
Pois bem, ultrajada, vilependiada,
humilhada, torturada, dizimada,
a população da minha América, da minha Abya Yala, encolheu-se e foi
obrigada a aceitar o jugo – mas no encolhimento ficou a resistência,
e é só agora, mais de 400 anos depois, é que os povos antigos, as
culturas antigas, estão conseguindo retomar seu lugar, e nossos
“índios”
e seus mestiços voltam a liderar seus povos, e temos gente como Hugo
Chavez, na Venezuela, e Rafael Correa, no Equador, e Evo Morales, na
Bolívia, e sabe-se lá mais quantos estão vindo por aí, e a roda da
História vira, e hoje são eles os que sentam nas cadeiras juntos ao
muy ridículo rei de Espanha em Encontros Internacionais, e têm
liberdade de dizer os seus pensamentos de igual para igual – mas o
reizinho fascista não tem estrutura para a crítica, não tem
paciência para essas pessoas de terceira categoria que foram meros
escravos dos seus antepassados, gente que nem alma tinha antes – que
estão a fazer ali, tendo idéias, pensando – e até melhor que ele! –
e não suportou muito tempo a reunião da semana passada. No último
sábado, deixando de lado tudo o que deveriam ter lhe ensinado,
interrompe uma cimeira íbero-americana aos berros, dizendo a um dos
líderes da nossa gente vilependiada (antes e também agora – porque o
neo-colonialismo europeu é uma verdade das brabas!) que se cale, e
quando diversos líderes das nossas terras caíram de pau em cima dele
(por conta dos dois colonialismos), botou o rabo entre as pernas e
abandonou a reunião.
Que é que tu pensavas, heim, ô
reizinho à toa? Apesar da nova fase do colonialismo (leia-se:
Santander, Telefônica, Banco Real, Banco Mercantil, e muitos etc.),
tu não passas é de um reizinho à toa, que ainda não se conformou que
hoje já não se podem queimar americanos bem torradinhos em fogo
lento, nem mandar despedaçá-los por cães treinados, nem despedaçar
com espadas as barrigas de mulheres grávidas para fatiar o bebê,
entre outras coisas, como nos conta Bartolomé de las Casas.
Vai pra casa, ô bobão, vai beijar
mocinhas engasgadas com pedaços de maçã, que aqui tu só nos incomoda
e só nos faz mal! Nosso tempo de escravidão está passando, e quem
sabe a gente não perde a diplomacia e te solta à frente de um bando
de cachorros treinados, né?
Blumenau,
16 de Novembro de 2007.
Urda
Alice Klueger – Escritora e historiadora.