Mudei muita coisa na minha vida – a Tragédia das Águas, no ano
passado, me fez redimensionar muitas e muitas coisas. Então fui
mudando, penso que para melhor – uma das coisas foi ter trocado meu
apartamento naquele lugar onde eu tinha a impressão de que caíra uma
bomba atômica, e ter vindo para esta casinha que fica longe de
qualquer encosta ou ribeirão, num pequeno condomínio horizontal.
Eu
não faço idéia, ainda, de tudo o que possa vir a ser, vir a sentir
aqui neste lugar – só sei que agora é setembro, e nas noites, quando
o trânsito lá da rua principal se acalma, minha casinha fica
mergulhada num oceano com cheiro de flor.
Fazia décadas que não sentia nada parecido, que não vivia nada tão
perfeito: nas manhãs, saio pelas muitas redondezas a passear com meu
cachorro, e em um mês aqui, já consegui mapear, creio, as tantas
laranjeiras que crescem nos mais diversos quintais das mais variadas
casas deste lugar que se desdobra sobre colinas atravessadas por
ruas calmas, onde há placas que dizem: “Atenção! Respeite: Zona
Residencial – velocidade máxima 40 km”, e onde custa a passar um
carro.
Então sei das laranjeiras, e há algumas tão na beiradinha da rua que
paro minha andança para ficar a aspirar seu perfume do qual eu quase
não lembrava mais – só que há tantas, em tantos quintais, e tantas
árvores em tantos jardins e terrenos baldios, e pedaços de mata
virgem, como bem ali detrás da minha cozinha ou lá na ponta da
colina que vejo lá adiante, e como é setembro, tudo está florescido
de alguma forma e tudo que é flor tem algum aroma que chama à
fecundação e atrai insetos e gente – eu, pelo menos, estou altamente
sintonizada com esta floração toda, que vai dos mais tímidos capins
à mais encorpada árvore.
Nos
dias, com o sol quente e as tantas emanações de toxinas pelos
automóveis que passam lá na rua principal, algo de tanto perfume se
perde, apesar de os dias serem lindos, como hoje, que é feriado, e o
vizinho quase da frente pinta de branco a cerquinha do seu terraço,
naquele marasmo de feriado, onde um amigo conversa com ele com uma
cerveja na mão, e a cortina de seda amarela da janela do meu quarto
baila no vento, sobre as primeiras flores coloridas que fiz
florescer no meu minúsculo jardim. É lindo estar aqui, e só falei de
dois ou três detalhes – não posso deixar passar mais um: lá no
horizonte, por detrás das colinas, há uma distância de morros azuis,
bem da cor da nostalgia, como descobri que era aquela cor, ainda na
minha infância.
De
noite, há a lua, que será cheia hoje ou amanhã, e que demora horas
inteiras atravessando meu novo horizonte, novidade para quem veio do
sul deste município, onde o caminho dos astros, no céu, é sempre tão
limitado pelos morros! E se espero para dar a última voltinha com o
meu cachorro lá pelas onze da noite, quando já se acabou o trânsito
da rua principal e parece que tudo se acalmou, então mergulho no
oceano de perfume onde minha casa fica submersa, e é de estontear a
densidade que há em tal mergulho. Saio fruindo o máximo de cada
inspiração, encantada e fascinada demais para tentar entender o que
a natureza está fazendo, como que flutuando num sonho colorido, mas
assim de dia fico pensando nas tantas razões da natureza: no
silêncio da noite, ela cria aquela imensidão de perfumes onde
mergulha minha casa, já montando como que um engodo para os insetos
da manhã não esquecerem das suas tarefas de fecundação enquanto
setembro está aí – e quem sai ganhando sou eu, que agora tenho uma
casa com cheiro de flor – e flor de laranjeira, ainda por
cima!
Blumenau, 02 de setembro de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora