Centelhas de Vida
Era uma vez, lá no
Paraíso Terrestre, quando Deus criou Adão e Eva e todos os animais,
criou Ele, também, um casal de cachorrinhos. Viviam todos, lá, muito
felizes, e se não fosse a preocupação de Eva e Adão de provarem dos
frutos da Árvore do Bem e do Mal, a festa lá ainda não teria acabado, e
ninguém passaria nenhum tipo de privação neste mundo.
Bem, o fato é que
lá, junto com Adão e Eva, havia um casal de cachorrinhos, e que enquanto
Eva era tentada pela Serpente, os cachorrinhos, muito naturalmente,
tiveram seus primeiros filhotes, que tiveram outros filhotes, que
tiveram outros filhotes, até que um dia, milhares de anos depois,
nasceram os dois cachorrinhos que vivem na rua do lado da minha casa.
Eu comecei a vê-los
no começo deste inverno que está tão frio: dois cachorrinhos amarelos,
dos mais legítimos vira-latas, a saírem para a
entrada da rua,
bem na minha
esquina, para ficarem ao sol que chega antes na esquina do que na casa
deles. Pequenas centelhas de vida explodindo de inteligência e alegria,
eles sabem exatamente a hora em que o sol chega a um pedaço quadrado de
asfalto na saída da rua, e lá
vêm, lépidos e alegres, a balançarem seus rabinhos na efusão gratuita de
viver, para aproveitarem o calor fraco do sol e se aquecerem.
Como se divertem os
dois bichinhos! Eles ainda são cachorrinhos muito novos, mal e mal
deixaram de ser bebês, e a idade adulta deve vir só lá pelo verão. Estão
naquela fase em que os cachorrinhos gostam de roer os chinelos das
pessoas, e onde a alegria é infinita dentro dos corpinhos peludos e
inquietos de tanta vida. Naquele quadrado de sol da esquina da minha
rua, eles se aquecem com os focinhos erguidos, e brincam,
alternadamente, brincam um com o outro tendo a certeza de que a coisa
mais importante deste mundo é brincar. Eles conhecem todas as crianças
da redondeza, e todas as crianças os conhecem – quando elas passam,
cedinho, em direção da escola, eles interrompem suas brincadeiras para
fazerem festa às crianças, e acompanham-nas um bom estirão pelas
calçadas, até lembrarem-se que têm seu quadrado de sol no mundo, e
voltarem à minha esquina.
Conhecem gente
grande também: recentemente, quis saber mais sobre eles. Minha amiga
Margarida contou-me que se chamam Toco e Bilú, e Margarida é uma mulher
séria, tesoureira de um banco, o tipo de pessoa que a gente não pensa
que sabe o nome de dois cachorrinhos de nada, duas centelhazinhas de
vida que surgiram no começo do inverno num quadrado de sol. Depois que
Margarida contou-me até o nome deles é que vi o quanto estão populares
em toda a vizinhança.
Sabedora, agora,
dos seus nomes, ontem de manhã fui lá falar com eles. O dia estava
nublado, e o pedaço de sol não tinha aparecido na esquina. Os
cachorrinhos, porém, sabiam perfeitamente onde ele iria surgir, se
surgisse, estavam lá sentados,com cara de aborrecidos pela falta daquele
amigo Sol que os tem aquecido desde que se lembram, na sua curta vida.
Eles ainda não me conheciam – sempre os observo de longe, de dentro da
garagem – e se mostraram indiferentes até que chamei:
– Toco!
Na hora descobri
quem era Toco, pois ele veio pular em mim arrebentando de alegria, e foi
só chamar “Bilú”, para que Bilú também entrasse num paroxismo de prazer
e de pulos, ambos inteiramente cônscios da sua identidade neste mundo.
Nasceram faz pouco tempo: da vida só conhecem o quadrado de sol e as
crianças que passam, mas sabem muito bem como cada um se chama, e como
ficam gratuitamente felizes quando um adulto se digna dar-lhe o pequeno
nome que é quase tudo o que possuem!
Eles pularam e me
lamberam até que eu tive de ir-me. Pelo retrovisor do carro, fiquei
vendo como, depois da alegria de terem sido reconhecidos por um adulto,
esqueceram-se de que o quadrado de sol não tinha vindo, naquele dia, e
passaram a brincar com a mesma alegria de quando se sentiam aquecidos!
Se Adão e Eva não
tivessem acabado comendo do fruto da Árvore do Bem e do Mal,
cachorrinhos como Toco e Bilú nunca sentiriam frio, e nunca precisariam
ficar brincando num quadrado de sol na esquina de uma rua, e não haveria
na minha vida a luz das suas pequenas centelhas de vida. Até que Adão e
Eva não erraram de todo!
Blumenau, 04 de
agosto de 1996.
Urda Alice Klueger
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