Crônicas

Urda Alice Klueger

 Córrego Grande - O Amor Como As Sementes

                                        Li em algum lugar que foram encontradas sementes de trigo numa pirâmide, no Egito, com a idade estimada de 4.000 anos. Cientistas curiosos, então, colocaram aquelas sementes em boa terra, regaram-nas, e ficaram espiando se aconteceria algo. E o que aconteceu? As sementes germinaram, cresceram, floresceram, reproduziram-se em novos grãos de trigo, exatamente como sementes do ano passado – ninguém diria que elas tinham ficado adormecidas durante quarenta séculos! São dessas coisas insólitas que a gente não espera ver acontecer, mas que fazem parte da nossa realidade e da magia das  nossas vidas.

                                   Hoje, também, conheci um pedacinho desta Ilha de Santa Catarina, onde penso que nunca tinha estado. É o bairro que se chama Córrego Grande, próximo da Universidade Federal, e com certeza aquele lugar, hoje, está absolutamente diferente do que estava no tempo em que os Viajantes[1] estiveram cá nesta ilha e escreveram as descrições que temos dela nos séculos anteriores. Apesar do nome, nem vi se há córrego mesmo, ainda, ou se já mataram algum antigo curso d’água dentro de escuras tubulações daquelas que envergonham a Natureza. O que vi lá foi um região espigada de edifícios de concreto, casas de duro cimento, vistosos postos de gasolina, algumas restaurante e escolas – e uns hiatos no meio dessa ocupação, quase que milagres verdes dentro daquela urbanização que parece ter acontecido a toque de caixa. Entre o concreto dos edifícios, o concreto das calçadas e o asfalto das ruas, de repente, em Córrego Grande, surgem manchas provindas do Passado, pastos com vacas holandesas e cavalos ruços, pequenas plantações de milho, de aveia, pés de silva, goiabeiras, árvores antigas, talvez salvadas das florestas que os Viajantes conheceram, um dia, talvez testemunhas silenciosas dos séculos...

                                   Sei que me embeveci a olhar aqueles pedaços de milagre salvos até agora da especulação imobiliária, mas havia uma dor dentro de mim que me garantia que aqueles milagres eram efêmeros, que estavam por um triz – talvez ainda neste ano, talvez no próximo, não sei bem quando, mas logo logo um corretor de imóveis vai aparecer por ali, e fazer tão tentadora oferta aos donos daqueles pastos e daquelas pequenas plantações que eles não conseguirão recusar e novos condomínios virão espigar aqueles pedacinhos de pleno veludo verde! É possível que algum dono bata o pé, se negue à morte de tanta beleza – mas deve ser algum velhinho apegado ao Passado, e que viverá apenas mais alguns anos, algumas décadas – quando chegar o tempo da partilha dos seus bens, penso que os herdeiros já não conseguirão resistir. E então será o tempo em que se pensará que a Natureza perdeu todas as chances.

                        Há que se lembrar, no entanto, das sementes de trigo de quarenta séculos. Por quatro mil anos elas dormiram seu longo sono, e quando foi o momento certo, germinaram e frutificaram como se o tempo não tivesse acontecido, e se multiplicaram com toda a plenitude que tinham tido um dia, lá no passado. Quando eu me lembrei daquelas sementes de trigo, como que um calor novo correu pelas minhas veias que andam tão geladas, tão geladas! Aquele calor fez com que eu lembrasse que cada planta daquelas, desde as árvores mais antigas até o mais humilde fiapo de capim, todas produzem sementes, e que por baixo do bairro de concreto e asfalto dormem muitos milhões de sementes dos outros pastos e das outras árvores que já foram afogadas anteriormente, e que quando chegar o golpe de misericórdia para os últimos nichos verdes daquele lugar chamado Córrego Grande, cada plantinha daquelas vai saber exatamente o que deve fazer para se perpetuar no Futuro, quando for o Tempo de De Novo. E o concreto espigará por cima de milhões de sementinhas que parecem humildes, parecem não ter expressão, parecem mera poeira sem sentido – mas que carregarão, no seu âmago, todo o código genético de uma coisa chamada Futuro, e não há nada que se possa fazer para evitar que elas, um dia, voltem a ter a pujança que hoje têm – bem como é o Amor.

                                   Não sei quanto tempo as sementinhas terão que esperar até que o concreto e o asfalto de agora se tornem farelo, para que elas possam reviver e trazer de volta à esta Ilha aquela imagem que talvez tenha existido no tempo dos Viajantes. Talvez, como as sementes de trigo do Egito, seja um tempo de quarenta séculos – na verdade, o tempo não importa, mas o segredo que existe dentro das sementes é que é o Grande Mistério. Como o Amor.

                                   Pois como as sementes, tenta-se fazer uma grande terraplanagem por cima do meu eu interior, e tratores vão e vêm, e não importa o quanto eu grite, as camadas de concreto e de asfalto estão sendo derramadas, e há uma grande expectativa de que se possa matar o Trinado de Passarinho que vive intensamente dentro de mim. Bobagem! Como as sementes de Córrego Grande, como as sementes do Egito, talvez o meu Pássaro Canoro que está sendo estrangulado impiedosamente tenha que se transformar em semente para poder esperar em silêncio a passagem do tempo – mas não há como se matar o Amor. Quieto, ressecado, como sementes de trigo dentro de uma ânfora, talvez este Amor que vive em mim tenha que suportar como que uma especulação imobiliária, e se conformar com as camadas de concreto que tentam impedi-lo de ser – mas seu código genético continua perfeito, inteiro e íntegro – e meu Pássaro estará sempre pronto para alçar o vôo da Redenção. Ah! E havia quem pensasse que aquelas sementes, lá no Egito, já não germinariam!

                                                            Lagoa da Conceição, 14 de setembro de 2006.

                                                           Urda Alice Klueger

                                                           Escritora


[1] Ilha de Santa Catarina – Relato dos Viajantes estrangeiros nos séculos XVIII e XIX. Florianópolis: Lunardelli, 1996. 4 ed.

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