Um dia, acabei
ficando amiga da bruxa (ou fada?) Elaine, e ela me convidou para
algum dia ficar na sua casa. Meu, eu teria a oportunidade de
conhecer uma casinha do sul do mundo onde viviam corujas de verdade,
sob o mesmo teto onde uma fada (ou bruxa?) também vivia de verdade!
Não deu outra, ontem estava em Florianópolis e aproveitei a
oportunidade.
De alguma forma, eu
não imaginara da casa além dos pios e ruídos das corujas, e chegar
lá, ontem à noite, foi uma coisa espantosa! Elaine Tavares mora numa
casinha que parece de brinquedo, nem de fada e nem de bruxa, mas de
Branca de Neve, embora seu poder de encantamentos tenha transformado
os Sete Anões num anãozão só, maridão daqueles de impor respeito, e
tão harmonioso que consegue viver tão bem com aquela Branca de Neve
numa casa do sul do mundo onde há corujas no telhado!
Casas assim são
mágicas, e dormi tão bem no pequeno sótão da casinha dos Sete Anões
que sequer consegui ouvir o pio das corujas, numa felicidade extrema
por, pela primeira vez na vida, estar dormindo, de verdade, numa
casa de boneca! O sono foi tão bom que o meu amor até deve ter se
lembrado de mim, abandonado a sua forma de passarinho, e vindo me
visitar oniricamente sob o teto onde vivem as corujas, dormindo
comigo estreitamente abrigada junto à amplidão macia do seu peito!
Ali dormi até que o Sol me acordou e, misteriosamente, levou embora
o meu amor, que me fizera sentir tão segura que sequer conseguira
ouvir as corujas que tanta curiosidade tinham despertado em mim
desde a primeira vez em que delas havia ouvido falar! Era como um
sonho acordar ali, e descobrir que a casinha de brinquedo existia
mesmo, e que casinhas de brinquedo são extremamente mágicas! A
bruxólica-fada Elaine e seu Anãozão já se tinham ido porque
trabalhavam cedo, mas havia seu bilhete de boas vindas, sua
hospitalidade inteira escrita naquele bilhete que parecia só um
pedaço de papel. Comi alguma coisa e era tempo de me ir daquele
lugar encantado – foi só ao tirar o carro de sobre um gramado que
deve ser igual a outros gramados que um dia os meus Sambaquianos
pisaram por ali, milênios atrás, que foi que me dei conta que, além
da casinha de boneca e das corujas no telhado, na doçura do jardim
havia, também, uma casinha de passarinho sobre uma estaca, lugar
certo para o meu amor aportar enquanto eu não durmo, se um dia eu
por lá dormir de novo. Decerto, ontem, ele ficou por ali bem
quietinho esperando a vez de me apertar ao peito amplo tão logo eu
dormisse, para que pudesse dormir tão bem naquele lugar mágico!
Tenho uma amiga bruxa
e fada que tem uma casinha de brinquedo com corujas de verdade, e
que até fez uma casinha de passarinho no jardim para o aporte do meu
amor-beija-flor... O que mais que a vida vai me dar ainda?
Blumeau, 28 de Abril
de 2006.
Urda Alice Klueger
Escritora