De Patos, Gansos E Cisnes
Para Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira
Parte da minha infância de antes do
tempo de ir para a escola aconteceu na Praia de Camboriú, que naquele
tempo ainda não se chamava Balneário, nem era município e nem tinha um
prediozinho sequer. Vivíamos num mundo de casas baixas, separadas por
amplos terrenos baldios onde vicejavam florinhas amargas e as demais
plantas que dão na beira do mar, e a Avenida Central, que então já
existia, desembocava direto numa praia de areia sem o menor sonho de
calçamento, e na minha lembrança, a casa da esquina parecia ser um
castelinho, para o qual eu imaginava muitas histórias. Então, depois do
castelinho, a vegetação se afastava da linha da praia e havia mais três
casas, e então era a boca da Lagoa.
Em tempos normais era tudo areia
seca, boa para brincar e fazer castelos e ruas e sonhos, mas se
chovesse, dependendo da quantidade de chuva, a Lagoa transbordava e
podia dar origem a um mero riozinho a escorrer pela praia, ou podia
virar um furacão que escavava intransponível abismo de águas violentas
que desaguavam no mar.
Do outro lado da boca da Lagoa havia
um restaurante chamado “Terraço Boa Vista”, que era onde eu morava, e no
lugar dele, hoje, há grande arranha-céu – e no lugar da boca da Lagoa há
aquele recuo da Avenida Atlântica de Balneário de Camboriú que virou
praça, e ninguém mais não lembra que aquele recuo e a praça existem
porque ali era a boca da Lagoa e nada podia ser construído, e que quando
a especulação imobiliária secou a Lagoa e matou todos os seus
habitantes, de alguma forma já ficara aquele recuo na praia e a criação
de uma praça tornara-se irreversível.
Pois bem, era ali que eu morava antes
do Tempo da Escola, bem do lado da boca da Lagoa, e ela se estendia,
profunda e misteriosa, por detrás da nossa casa, do nosso terreno, dos
terrenos dos vizinhos, e ia até muito longe, muito longe, por trás do
lado norte da praia, e num lugar que já não sei precisar mais hoje, ela
tinha uma outra boca que também virava abismo intransponível nas grandes
chuvas. Vagamente, minha memória me informa que lá na outra boca era um
lugar que a gente chamava de Praia Hotel.
Eu passei aqueles anos da minha
infância brincando na praia, mas brincando muito mais em volta da Lagoa.
A Lagoa era uma constante fonte de surpresas e mistérios, e o seu
entorno era perfurado por muitos milhares de buraquinhos maiorzinhos e
menorzinhos, e em cada um deles morava um pequenino siri ou caranguejo,
e eles faziam umas tampinhas redondas tão bonitinhas para fechar seus
buraquinhos de moradia, que eu podia passar o dia todo a espiar os
sirizinhos levantando as portinhas de suas casinhas e indo lá fora dar
uma volta e tomar um banho na Lagoa – que mundo encantado era aquele!
Os mistérios não paravam aí, no
entanto. Havia também os grandes siris, os peixinhos e peixes de
diversos tipos e tamanhos, uma ilha escondida lá mais para diante, na
Lagoa, onde nunca fui, inesperadas canoas a remo com pessoas estranhas
que podiam aparecer, de repente, vindo de lá muito longe, de outro lugar
da praia, os animais domésticos. Nos fundos da nossa casa, do outro lado
da Lagoa, havia um pasto com um ou dois cavalos baios, que me
impressionavam profundamente porque dormiam de pé e pareciam não se
importarem de ficar dias e dias apanhando chuva. Na nossa casa, havia um
arsenal de animais: a cachorra Diana, que depois seria mãe de Laika e
Rin-tin-tin, alguns vagos gatos dos quais não lembro o nome, um terreiro
cheio de galinhas, um chiqueiro com porcos que gostavam de tomar
cerveja, e que quando ganhavam cerveja depois dormiam profundos sonos
cheios de tremuras e de profundos roncos, uma mansa pata preta e branca
e um altaneiro casal de gansos, barulhentos e agressivos, que cuidavam
ciumentamente do seu território. Os adultos nos contavam histórias de
crianças que tinham sido mordidas por gansos e ficado com marcas das
bicadas para sempre, o que fazia com que respeitássemos muito aqueles
belos bichos brancos!
Tenho certeza que o mistério daquele
mundo se acentuou sobremaneira quando nasceram os cachorrinhos de Diana,
e pelo nome da Laika, dá para precisar o tempo, saber que já era depois
que os soviéticos haviam mandado uma cachorrinha para a órbita
terrestre. Incontáveis foram os acontecimentos e mistérios havidos ali
naquele lugar da minha infância, e um que me excitava sobremodo a
imaginação era a tal ilha, onde nunca me era permitido ir porque os
cuidados da minha mãe impediam a gente até de sonhar em subir numa
canoa. Pois não foi justamente a nossa pata quem acentuou o mistério,
indo até à ilha à nado, todos os dias, e fazendo lá um ninho que encheu
de ovos? Tanto a pata vivia em prol da ilha que a minha mãe criou
coragem de subir numa canoa, e com o Osdida ou o João Jorge Seibert, já
não lembro, que eram empregados do meu pai, foi até à ilha ver o que
estava acontecendo por lá. Voltou com o avental cheio de ovos, e as
histórias do famoso ninho que nunca conheci, que a pata tinha recoberto
de penas branquinhas, uma coisa mais linda na minha imaginação! Não me
conformava: por que é que podiam nascer pintinhos e cachorrinhos, e não
permitiam à pata chocar seus ovos? Ouvi uma explicação meio de
pé-quebrado, que os ovos da pata não descascariam porque ela não tinha
um marido, coisa que absolutamente não entendi, e que continuou me
deixando em plena militância a favor da pata.
Já a gansa e o ganso eram um casal, e
portanto, poderiam gerar gansinhos se se permitisse que a gansa chocasse
seus ovos – mas cada imenso ovo que a gansa punha era devidamente
recolhido para ser usado na Páscoa – e então abria-se só um buraquinho
na extremidade de cada ovo e derramava-se o seu conteúdo num prato
fundo, do que resultava uma grande fritada de ovos que nós, crianças,
comíamos, extasiadas! Quando chegou a Páscoa, meu pai pintou cada ovo
daqueles de tinta à óleo azul claro – e a cada Páscoa eles continuaram
sendo reaproveitados na minha casa, ao longo de toda a minha infância.
Então já falei de patos, de gansos
... cadê os cisnes? Ah! Um dia os cisnes vieram! Estavam num grande e
colorido livro que a minha irmãzinha Margaret ganhou do seu padrinho, e
que minha irmã mais velha leu para nós já logo na primeira noite da sua
chegada. O livro chamava-se “O Patinho Feio”, e eu me emocionei tanto,
mas tanto, com o sofrimento do pobre Patinho que era Cisne, que acabei a
noite aos soluços, dizendo que tinha uma dor indetectável, e com todo o
mundo à minha volta me dando chazinhos para que eu melhorasse. Quanta
vergonha eu tinha, naquele tempo, de deixar entrever a minha
sensibilidade, e o medo que tinha de ser ridicularizada por chorar por
causa de um patinho de livro de história! Parece que o coração me dizia
que na minha vida adulta teria sérios problemas com tais coisas, me
avisava desde criança! Mas foi muito lindo descobrir, naquela noite
misteriosa, que um patinho pode virar cisne, e como me lembro da última
página daquele livro, com o grande cisne de asas abertas a conquistar a
imensidão do espaço, na glória do encontro da sua identidade!
Então pergunto: o que me fez lembrar
de todas estas coisas? Ah! Claro, só podia ser o coração! E como ele
trouxe todas estas lembranças de volta com nitidez numa fração de
segundo, nesta semana, quando encontrei o meu amor parado dentro de um
pátio! Vi-o de supetão, assim sem esperar, e ele era todo cinza e prata,
e assim macio como o ninho coberto de penas que a nossa pata escondera
na ilha, assim altaneiro como os gansos que patrulhavam o terreiro da
nossa casa e a Lagoa de Camboriú, assim imenso, capaz de conquistar o
espaço com suas asas abertas, como um cisne! Ai, a força que tem o
coração! O meu amor estava como numa ilha, naquele pátio, e eu não
possuía uma canoa como aquelas inesperadas que apareciam na minha
infância, e não podia remar pela Lagoa e chegar até ele – mas como o meu
coração se adoçou em ternura porque ele estava lá naquele pátio, cinza e
prata, terno e poderoso – que pena que não havia a canoa, que pena! Mas
que loucura que foi aquele transporte inesperado para as lembranças de
patos, gansos e cisnes que ele me suscitou, e de novo eu fiquei
pensando: o que é que a gente faz com um amor assim? Não há o que se
fazer além de amá-lo!
Blumenau, 24 de Agosto de 2006.
Urda
Alice Klueger
Escritora |