Tem coisas que não dá para entender. Outro dia o MST ocupou uma
terra que estava abandonada pelo Exército há 40 anos e a terra
estava toda plantada de soja – então, poucas horas depois da
ocupação, o Exército foi lá com canhões, tanques e ambulâncias, para
expulsar dali as famílias com suas crianças, como se se tratasse de
uma verdadeira invasão estrangeira. Na época, escrevi minucioso
texto sobre o assunto, querendo saber, principalmente, o que fazia
aquela soja ali, pois soja é agricultura de rico, de poderoso – e
por que é que ali não se podiam plantar repolhos e outras coisas
assim, agricultura de pobre? Alguém do Exército estava ganhando
mamadeiras de grandes plantadores, bem cheias de outra coisa que não
leite – como é que os tanques não apareceram naquela terra na hora
em que a soja estava sendo plantada? Eu estava lá, e vi com estes
olhos que a terra há de comer e peguei com as mãos que os bichos
também irão devorar aquela soja que era um mistério, e depois
interpelei as autoridades, e mandei pessoalmente o meu texto com tal
indagação para as caixas postais do Presidente da República e dos
ministros competentes – e ninguém me deu a mínima. Soube, no
entanto, que o Exército abriu inquérito a respeito da ocupação (não
da soja) lá em Curitiba, e mesmo sem ter jurisdição a respeito, está
chamando civil daqui de Blumenau, que nada tinha a ver com a soja,
para ir a Curitiba depor. Eu, heim?
E por aí está cheio de coisa que
a gente não entende. Alguns amigos meus, em Florianópolis, estão
passando o bicho por causa de um certo Bicho que se diz que é neto
de outro Bicho, mas, tanto quanto sei, o Bicho atual sequer consegue
comprovar que é neto do Bicho do passado, e já houve julgamento e
condenação dos meus amigos, e sei que quem julgou nem leu o processo
e nem o livro condenado – o que será que o juiz em questão tem a ver
com o Bicho?
Como a gente está num país (e num
mundo) onde quase tudo está muito controverso (tem gente que
acredita que nos Estados Unidos existe uma democracia, e também tem
gente que acha que a ditadura grega do tempo das ágoras, onde mais
ou menos 10% da população – homens adultos, cidadãos livres –
mandava e os outros 90% - mulheres, escravos, etc. – obedecia, era o
máximo), achei por bem perguntar para o meu advogado se eu podia
escrever sobre os dodóis do Bicho sem que o juiz que pôs curativinho
neles (curitavão, há que se dizer: indenização por danos morais e
livros na fogueira, a própria Santa Inquisição solta por Santa
Catarina!) tivesse motivos para me botar em cana ou me pedir,
também, indenização por danos morais. (Ah! Se a moda pega, começo a
pedir indenizações também!). Sabem o que disse o meu advogado? Que
com a justiça não se mexe, esteja ela certa ou errada. E o Lalau,
como é que fica? Nunca ninguém poderia cobrar do Lalau, só porque
ele é juiz?
Na verdade, estou com uma baita
vontade de vomitar. Para piorar a situação, no domingo, espiando o
Fantástico, acabei vendo reportagem onde aquele programa de tão
diferente naipe se deleitou em malhar a justiça do Paraná, porque se
negara a deixar entrar numa audiência trabalhista sem sapatos um
pobre desempregado que de calçado só possuía o seu chinelo “de dedo”
– não é todo o dia que se pode falar bem do Fantástico, mas naquele
dia ele estava certíssimo – tanto quanto se está procurando apurar
(já vi diversas coisas correndo na Internet, a respeito), não há lei
neste país que obrigue a desempregado ou empregado a possuir
lustrosos sapatos para adentrar a um Fórum. Então pergunto: por que
o Fantástico pode criticar justiça e juiz para todo o país, e eu não
posso escrever uma linhazinha a respeito da (in)justiça que alimenta
Bichos no meu Estado? Será porque o Fantástico pertence a uma grande
cadeia de televisão repleta de acionistas ricos, e eu sou uma pobre
escritora de província, a quem ninguém dá importância, como
aconteceu quando pedi para saber sobre aquela soja na terra do
Exército? Alguém pode me responder? Heim? Heim?
O caso é que o tal Bicho
processou os meus amigos, o escritor Amílcar Neves e o editor Chico
Pereira, gente dileta do meu coração, mas poderia ser estranha que
daria na mesma, pois injustiça é injustiça, e sem conseguir sequer
comprovar que o Bicho do livro era o Bicho seu avô, sentiu-se todo
cheio de dodóis e disse um monte de bobagens, e misturou os textos
do livro (é uma peça de teatro em diversos atos e com diversos
personagens) e disse que a fala tal, que era dirigida a um
personagem, e a outra fala, que era dirigida a outro, que tudinho
tudinho no livro tinha sido dirigido ao vovozinho que ali no livro
era apenas um personagem de teatro, e que acabou quase como ladrão,
pois roubou as falas dos outros personagens – não quero falar do
Bicho antigo, estou falando do Bicho espertalhão de agora, que
conseguiu fazer a salada e botar na boca do seu pretenso avô coisas
que nem no livro não está – ou será que de espertalhão o Bicho não
tem nada, não sabe, mesmo, é ler direito, e foi na conversa de
outros ignorantes e/ou espertalhões, quando bateu às portas da
justiça pedindo curativo pros dodóis que sentia , frisson de
netinho injuriado?
Eu não arriscaria dizer que o
juiz que julgou a causa também não soubesse ler e não tivesse lido o
livro, como seria de justiça, para poder agir salomonicamente, pois
para ser-se juiz é necessário estudar-se um bocado, embora cada um
de nós saiba que, como sempre, em todas as classes de todas
universidades, têm aqueles alunos que fazem o curso na flauta, para
não dizer coisa pior, e mandam fazer fora seus trabalhinhos
universitários, o que também é de conhecimento público, e depois,
das universidades, saem engenheiros que constroem pontes que caem e
médicos que esquecem tesourinhas dentro da barriga dos pacientes.
Não vou dizer que o tal Dr. Juiz
do qual só o Fantástico poderia falar tenha feito tal coisa, mas que
julgou sem ler o livro, lá isso julgou! E então os meus amigos agora
tem que pagar bem saborosa indenização (para quem gosta de dólar: dá
7.500 dólares, um dinheirão, dá para qualquer Bicho fazer a maior
viagem!), além de multas e da incineração do livro – talvez não seja
armada fogueira em praça pública, afinal – enfim, aqui é a Santa e
Bela Catarina, terra de gente desenvolvida, e ia ficar feio ver um
monte de gente fotografando aquele monte de livros queimando, como
numa certa Noite dos Cristais, tão a gosto de certos catarinenses,
quem sabe até do Bicho – sabe-se lá o que aquele sujeito pensa! –
mas vai ter que haver a fogueira, provavelmente no escondidinho,
pois fica feio um monte de gente saber que a Santa Inquisição é
coisa ativa por aqui, e ainda têm os dodóis do Bicho, que, decerto
não há de querer que se saiba que ele confundiu até juiz com os
dodóis que sente quando se fala daquele que teria sido seu avô ... Ô
Bicho, que coisa mais feia! É de desanimar qualquer cidadão de bem,
qualquer escritor que acredita na sua profissão, qualquer
historiador decente! Sempre gostei tanto de bichinhos... nunca
pensei que um dia a vida virasse o Bicho!
Blumenau, 26 de Junho de 2007.
Urda Alice Klueger
Escritora e historiadora