E os anjos vieram buscá-lo
Minha mãe teve a
sorte de, no interior do Brasil de 1920/1930, criar-se sob os
ensinamentos de um Doutor em Filosofia, o holandês Padre Jacob
Hudleston Slatter, que lhe deixou de herança sábios ensinamentos e uma
fervorosa fé católica, que ela mantém até hoje. Atualmente ela tem
83 anos e, plenamente lúcida, tira suas conclusões do que vê ou
acontece. Assim, ela tem ouvido muita coisa na vida sobre um certo
homem, e como nos últimos dias ele estava em total evidência, morrendo
num hospital de Paris, ela me perguntou:
- Afinal, ele era um homem bom ou mau? – Há que se lembrar que
ela viveu muitos tempos diferentes de Brasil, inclusive aqueles tempos
em que a Igreja Católica, em quem ela tem tanta fé, pregava que
comunista comia criancinha e otras
cositas más. Assim, nesta semana, eu lhe respondi dentro da sua
filosofia vinda lá daquele padre que foi tão importante na vida dela:
- Mãe, se aquele homem fosse de religião católica, decerto
seria agora canonizado como Santo.
A discípula do Padre Jacob aproveitou para me dar uma profunda
lição de Teologia:
- Olha, todos os seres humanos, não importa qual a sua religião,
nascem destinados ao Céu.
Tá certo, mãe, tá certo! Posso não ter a mesma inquestionável
fé, mas concordo com a sua afirmação. Dentro dela, o sofrido homem
que agonizava em Paris, com certeza, estava com uma escada toda
iluminada a esperá-lo, para, acompanhado de anjos, ser levado ao céu!
E hoje ele partiu para lá. Yasser Arafat foi um dos grandes heróis
da minha vida. Herdeiro do cetro dos reis dos antigos filisteus, aqueles
mesmos que a gente encontra no Antigo Testamento, mais que nenhum outro
Rei ele defendeu e carregou nos ombros o seu povo, aquele sofrido povo
que hoje chamamos de palestino, e o defendeu com sua inteligência e
suas unhas, e o teria defendido com garras, caso as tivesse, até esta
semana, quando os anjos combinaram de vir buscá-lo. Ele tinha um povo
sem território, um povo que passara 6.300 anos morando no mesmo lugar,
um dos mais antigos povos do mundo, e que, de repente, por decisão de
estranhos, passa a ser considerado estrangeiro em sua própria terra.
Vou tentar resumir um pouquinho o que aconteceu: um outro povo, primo do
povo palestino, chamado de povo judeu, acabava de ser vítima de um terrível
Holocausto em terras européias, e o mundo estava muito condoído do que
acontecera. Então a Organização das Nações Unidas votou uma resolução
que permitia ao povo judeu voltar para a sua terra ancestral, a mesma
Palestina onde morava o povo que Yasser Arafat passaria a liderar, e que
as terras lá fossem divididas assim: metade para os palestinos, metade
para o povo judeu. Seriam dois novos países e tudo deveria dar certo, já
que os dois povos eram primos entre si, descendentes do
Abrahão da Bíblia todos dois – o que os impediriam de serem
amigos? Então criou-se o Estado de Israel para o povo judeu, mas nunca
foi permitido criar-se o Estado Palestino para o povo de Yasser Arafat
– e nas últimas décadas, amargou ele a Diáspora do seu povo, sem
contar as guerras, as duas Intifadas ocorridas, uma das quais está em
pleno vigor, onde o governo de Israel, apoiado pelas forças do
Capitalismo Internacional, hoje representadas por um demente chamado
Bush II, financia a fundo perdido seu títere Ariel Sharon para que
mantenha em andamento um novo Holocausto que deixaria vermelhos de
vergonha, lá no outro mundo, os seus avós que foram vítimas do
Holocausto judeu. Eu sei muito bem que não se trata de iniciativa do
povo judeu, do povo primo – o novo Holocausto é coisa de um grupo
ansioso por poder e dinheiro, e está acontecendo, e nós, cidadãos do
mundo, quase todos permanecemos quietos e nem olhamos direito as notícias:
por que, o que é que temos com isto? Temos que fazemos parte da mesma
Humanidade, e fomos deixando todo o peso de um povo inteiro nos ombros
daquele homem que chegou a receber o Prêmio Nobel da Paz pela sua luta
incessante e incansável pela sua gente, e mal e mal prestamos atenção
no que ele fazia.
E ele foi vendo seu povo se indo, se desmantelando, sendo
obrigado a perder sua cultura, seus bens, suas vidas, mas que nunca
perdeu sua dignidade. Pelo mundo, onde achava abrigo, as crianças do
povo de Yasser Arafat cantavam cantigas com as suas falas:
“Lutaremos
até que todos os homens morram,
quando
todos os homens morrerem as mulheres lutarão,
quando
todas as mulheres morrerem as crianças lutarão,
quando
todas as crianças morrerem nossos mortos se erguerão e lutarão ...”
E o homem que era a alma de um povo hoje teve que ir embora: deu
a mão aos anjos que o esperavam e subiu pela escada iluminada, e vamos
torcer para que ele nunca tenha que levantar da morte para voltar a
lutar – vamos torcer para que os que ficaram consigam dialogar e
entrar num processo de paz, e, acima de tudo, que a Justiça aconteça,
e o Estado Palestino que a ONU votou já em 1947 saia de uma vez do
papel e passe a existir, apesar de todos os vetos que o Grande Irmão do
Norte faz à qualquer decisão tomada pelos demais países, impedindo
que ele aconteça. Vamos torcer para que os irmãos palestinos possam
voltar à sua terra, às suas casas, aos seus olivais, às suas
universidades, e que já não se tenham que ver, como a cada dia
acontece, as crianças palestinas estraçalhadas, sem barrigas, sem
pernas, sem rostos, por tiros que soldados-primos lhes dão apenas como brincadeirinha, como se fosse dia de
praticar tiro-ao-alvo em bonecos. Mártires a Palestina já tem aos
milhares – passa agora a ter a proteção de um Santo. Yasser Arafat não
pode ter vivido sua vida de lutas em vão. Eu estou aqui chorando porque
ele se foi – mas também estou aqui emocionada porque ele vai dar um
jeito, vai mexer com o que necessário for para trazer seu povo de volta
e lhe dar a paz. Só ele tem capacidade para tanto. E ele não foi
embora de graça.
Blumenau, 11 de Novembro de 2004.
|