Então, vi a reportagem e fiquei de
queixo caído: as crianças de hoje já não temem o Bicho Papão e seus
correlatos – as crianças de hoje têm medo é da polícia. O repórter
trabalhou com crianças do Rio de Janeiro, cidade muito grande, e tanto
as crianças dos bairros ricos quanto as crianças da favela tinham medo
da polícia, sendo que essas últimas tinham medo, além do mais, de um
personagem que eu não conhecia até então: o Caveirão, que é um
blindado que adentra nas favelas e, sem nenhuma dúvida, deixa as
crianças aterrorizadas. Lembro da vozinha trêmula de uma menininha de
uns três anos, dizendo, assustada, do seu medo:
- O Caveirããão...
Bem, isso era lá no Rio de Janeiro,
cidade enorme, onde os filhos dos ricos consomem tanta droga que
permitem que haja um tráfico dela, sobre a qual se jogam todas as
culpas dos problemas sociais não resolvidos. Eu vivia em outro mundo,
na cidade de Blumenau/SC, também alcunhada de “a loira Blumenau”, ou
vulga “Europa Brasileira”, lugar onde a polícia decerto era bem como
me tinham ensinado na infância (excetuando a Dona Honória), onde
jamais haveria violência ou Caveirão, onde as crianças podiam
continuar acreditando nas malvadezas da Bruxa Malvada sem se preocupar
com as maldades humanas. Pelo menos é esta a imagem que o poder
público fica vendendo para turistas incautos, que não fazem a menor
idéia que só falta se soltar caveirões até pelas ruas centrais da
cidade.
A vida tem me ensinado que não é
bem assim, no entanto. Tenho presenciado tantas e tais barbaridades da
parte da polícia da Europa Brasileira, que já não há como continuar
acreditando nas verdades da minha infância. Poderia me estender sobre
diversos acontecimentos vistos no coletivo, mas vou me ater a dois
fatos da minha insignificante vida pessoal, mas que dão bem a medida
de como andam as coisas.
Eu tenho um cachorro, e tomo o
maior cuidado para mantê-lo bem, com saúde, bem alimentado, feliz da
vida. Jamais o deixaria preso dentro do meu carro ao sol, sofrendo
calor e angústia, mas naquele dia caía uma chuvinha fina, estava
fresco, e achei que ele poderia me esperar uns dez minutos no
estacionamento de um restaurante, enquanto eu deglutia rapidamente
algo a guisa de almoço, acostumada que fui pela vida a comer muito
depressa. Achei uma vaga para estacionar bem ao lado de um carro da
polícia militar, e fiquei contente com tal coisa. Mas foi eu sair do
meu carro e um jovem policial militar veio buscar o carro dele.
Educadamente, falei com ele:
- Pôxa, que pena! Estava feliz
porque meu cachorro ia ficar protegido perto do seu carro – sabe,
sempre temo que roubem meu cachorro, pois deixo as janelas abertas
pela metade... Que pena que você vai embora!
Meu, ao invés da deferência que eu
estava dando ao garoto, parecia que eu era uma abelha que o picara!
Saiu para cima de mim sem nenhum respeito sequer pela minha idade,
esbravejando por ser ele uma autoridade e eu estar querendo mandar
nele, essas baixarias que o poder da força ensinam rapidamente às
pessoas que não sabem o que é poder real – e acrescentou:
- E a senhora trate de cuidar bem
do seu cachorro, senão eu ainda vou é levá-la presa por maus-tratos
aos animais!
Europa Brasileira, sem mais nem
menos! Fascismo declarado, nas minhas contas. O garoto era ainda
bastante jovem – decerto repetia o que tinham lhe ensinado nos cursos
que fizera para ser policial. Tratei de botar o rabo no meio das
pernas e ir almoçar às pressas, como pretendia, cuidando para não
amargar uma cana caída do céu, sem motivo nenhum.
Daí vou contar o episódio 2,
acontecido hoje de manhã. Dei-me conta, ontem, que sumira minha
carteira de motorista. Hoje cedo fui à delegacia da polícia civil mais
próxima registrar tal fato. Enquanto esperava, ouvia algo que o
comissário que estava fazendo registros falava com outro homem que
registrava alguma coisa. Não sei bem do que se tratava, mas uma das
queixas daquele cidadão era de que tinham quebrado a janela dele.
Houvera uma festa ou reunião na casa do vizinho e tinham quebrado a
janela dele, ele não sabia bem quem fora. Isso deixava o comissário
espumando de raiva:
- Como é que quebram a sua janela e
o senhor não sabe quem foi? Quem estava lá? Isto aqui é uma delegacia
e são necessários dados precisos, não estamos aqui para brincadeiras,
etc. etc. etc.
Não adiantava o homem dizer que
havia no local diversas pessoas pois o policial queria o nome do
responsável. Pegou um nome qualquer dentre meia dúzia que o homem
falou das pessoas que participavam da festa, e fico pensando que, caso
haja investigação, aquele sujeito vai ser culpabilizado por ter
quebrado uma janela, mesmo que seja inocente. Está cheio de casos
assim por aí tudo – inclusive lá naquele país chamado Estados Unidos,
onde há muita gente que pensa que só há ricos, felizes e justos.
Então chegou a minha vez. Era coisa
pouca, só dizer que havia extraviado minha carteira de motorista – mas
levei uma bronca! Se eu que era uma mera extraviadora de meu próprio
documento estava sendo tratada assim, aos berros e na ofensa, como
será que são tratados os bandidos de verdade? E olhem que sou loira,
de olhos azuis, bem o biotipo do que se espera ver na Europa
Brasileira – como tratarão a outros biotipos, como será tratado um
negro que ali adentrar? E dessa vez não se tratava de um novato – o
comissário era bem veterano!
Qual era a argumentação do suj... (ôps,
posso ser presa por desacato à autoridade – é melhor usar comissário)
para ficar me berrando? Que havia que cumprir a lei, que havia que ir
para casa e largar o carro e só andar de ônibus a partir daquele
momento, pois do contrário seria multada, presa, teria o carro preso,
responderia a processos, etc. etc. etc. – pois havia que cumprir a
lei, a lei existia para ser obedecida, etc. etc. etc. – bem como se eu
fosse uma criminosa legítima, e berro de lá e berro de cá, e eu bem
quieta, ouvindo com humildade, como convêm a quem não quer amargar uma
cadeia sem motivo. Numa brecha do berreiro, arrisquei, voz suave:
- Mas não cometi nenhum crime... e
o síndico do meu prédio, que botou abaixo a mata ciliar por detrás do
condomínio, a coisa fica assim mesmo?
O suj.. (quer dizer, comissário)
tinha outro tanto de berros para o meu síndico, mas continuava me
ameaçando, e então aproveitei outra brecha:
- E o Jader Barbalho, que roubou
todos aqueles milhões?
O homem engasgou. Disse que uma
coisa não tinha nada a ver com a outra, mas bem humildemente eu disse
que tinha, pois lá se iam quase dez anos e nada acontecia ao ladraozão...
Sei que foi horrível ter ido à
polícia comunicar um extravio de documento. Se não tivesse consciência
bem firme da minha própria integridade, acho que nada mais me
convenceria de que eu não era uma criminosa de primeira marca.
É assim a famosa Europa Brasileira
onde vivo. Qualquer dia começam a passar aí pela rua os Caveirões, e
nenhuma criança mais vai temer Bicho Papão nenhum! Se Jader Barbalho
merece mais consideração que uma humilde perdedora de uma carteira de
motorista, se com Jader Barbalho comissários engasgam por não ter
poder sobre, o que resta a nós, pobres humanos comuns?
Blumenau, 29 de outubro
de 2008.
Urda Alice Klueger
Escritora e historiador