Flor Desfolhada E A Utopia Da Estrela
(Para J.G. B. de O.)
O Príncipe-dos-Campos-de-Verde-Veludo,
em dia de alegria e grande ânimo, chegou para Flor Desfolhada,
Aquela-que-não-era-nada, e prometeu com grande entusiasmo:
-
Olha, dá-me umas horas! Vou
buscar para ti a estrela mais bonita, a mais luminosa de todas, aquela
colhida lá perto do Pólo Norte! É uma estrela que tudo viu e que tudo
sabe sobre o que aconteceu lá, e eu vou buscá-la para ti!
Flor Desfolhada sabia
que aquela estrela era muito especial, a mais especial de todas, e por
um momento, um tempo que foi se emendando no outro, de repente nem se
sentia mais Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, pois se vestiu de
raios de Esperança e sentiu-se maravilhosa, como uma camélia colorida,
quiçá uma rosa em manhã de Primavera - não estava o Príncipe mais
fantástico de todos prometendo-lhe a estrela mais maravilhosa do mundo?
Aos poucos, porém, suas pétalas de
rosa e de camélia foram caindo, quando ela viu que não era verdade, que
o Príncipe-dos-Campos-de-Veludo-Verde, mais uma vez, prometera-lhe coisa
falsa, como já fizera outras vezes. Na verdade, estrelas como aquela que
ele prometera havia em grande número, um enorme baú cheio, quem sabe
5.000, quiçá 10.000 – quer dizer, eram estrelas parecidas,
parecidíssimas – quem não o soubesse poderia até pensar que eram iguais
à estrela do Príncipe, mas Flor Desfolhada sabia que não eram, que a
estrela do Príncipe era única e insubstituível, e não quis nenhuma que
fosse inferior, pois como a estrela do Príncipe não havia nem haveria
nenhuma outra sobre a face da terra. Flor Desfolhada acabou sabendo que
o Príncipe passava por dissabores na sua corte, e foi se conformando –
decerto que esquecera. Era melhor pensar assim, pensar que eram
esquecimentos as promessas falsas, e eram tantas! Ficou a pensar nas
muitas outras promessas não cumpridas, na transparência das águas que um
dia ele ia lhe mostrar e não o fez; e nas mangueiras de Belém, que ele
disse que iria tirar de um alforje para que ela visse, e jogou o alforje
fora; e nas audiências prometidas e depois calcadas sob o tacão de
cristal da sua bota de Príncipe; e no raminho de urze que ele achou
coisa inferior para um Príncipe botar no bolso do casaco para ela ver –
e aí ela se lembrou que passeou pelo veludo verde dos campos dele e não
teve pejo de colher desde as mais tenras flores até os mais espinhudos
espinhos para fazer um arranjo para a sala de sua casa – mas ela era
Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, aquela que não significava
nada, que não tinha direito a coisas como urzes, ou águas transparentes,
ou alforjes contendo relatos – mas como ela queria aquela estrela única,
aquela colhida perto do Pólo Norte, aquela que o Príncipe lhe prometera
um dia, tão cheio de entusiasmo e felicidade!
Flor Desfolhada nada tinha a fazer a
não ser seguir a sua vida sem pétalas, e teve um enorme assombro quando
um dia, só de brincadeirinha, ela lembrou ao Príncipe da estrela única
prometida, pois na verdade já não esperava por ela, pois, como as outras
coisas, a urze, as águas transparentes, os alforjes de histórias, ele
acabara esquecendo – e mesmo sendo ela Aquela-que-não-era-nada, que não
servia para nada, ficou pasma quando o Príncipe desembainhou a sua
espada flamejante e partiu para cima dela com um fardo de não-verdades,
como se mentira ela tivesse dito, e ela tentou se defender, e reuniu
provas como se tentasse se livrar de um inexorável tribunal como o de
Nuremberg, mas ela é apenas Flor Desfolhada, a que não é nada, a que não
vale nada, a que nada vale ... e decerto um Príncipe que reina em campos
de Verde Veludo não irá se importar que uma Flor Desfolhada seja ceifada
de uma vez por todas, para sempre, como se faz com as ervas daninhas:
afinal, ela já nem tem pétalas mesmo, e ele é o Grande Príncipe dos
tacões de cristal – como é que uma Flor Desfolhada, bagaço de um jardim,
pôde um dia pensar de verdade que um Príncipe tão maravilhoso iria mesmo
buscar uma estrela única, nascida lá perto do Pólo Norte, para ela se
sentir um pouco camélia e um pouco rosa da Primavera, outra vez, por um
pouquinho que fosse?
A violência da espada
flamejante do Príncipe não permitiu sequer que ela se finasse
devagarinho, que fosse decaindo, entortando, morrendo aos poucos, como
compete a uma flor que já nada vale, que já não tem pétalas, que já para
nada serve... A espada do Príncipe despedaçou sua corola desprovida de
pétalas, seu caule que já começava sua degenerescência, picou em pedaços
as raízes que, quem sabe, um dia poderiam, ainda, vir a brotar de
novo... Não houve sequer a clemência que poderia ter havido num tribunal
como o de Nuremberg, caso se analisassem bem as provas – Flor Desfolhada
não teve sequer o benefício da dúvida.
Nunca mais haverá Primavera
para Flor Desfolhada. A estrela mais bonita e luminosa de todas ficou
perdida no espaço, talvez tenha sido engolida por um buraco negro. Pelos
caminhos da magia, os tacões de cristal das botas do
Príncipe-dos-Campos-de-Verde-Veludo soltam chispas como se fosse dia de
trovoada.
Blumenau, 17 de Agosto de 2007.
Urda
Alice Klueger
Escritora |