Hoje encontrei o Natal. Meu
cachorro me acordou antes da hora costumeira, seis e pouco no relógio, e
saí com ele para dar a volta matinal. No portão aqui do nosso abrigo de
flagelados passava um homem empurrando uma bicicleta e levando uma
cachorrinha presa por uma corrente.
No primeiro momento, só vi a
cachorrinha, amizade certa para o meu cachorro, e os dois pularam um no
outro e se lamberam, e o dia começava prometendo ser bom. O homem
perguntou:
- A senhora sabe qual é o caminho que
se deve tomar para se chegar à BR 470?
Eu disse que ele estava certo, que
era seguir sempre em frente aquela rua, que ele acabaria chegando à BR
470.
- E lá vai dar em Guaramirim, não é
mesmo?
Não, não era mesmo. Para Guaramirim
havia que se tomar a rodovia Guilherme Jensen, e lhe expliquei como
fazer, onde entrar.
- Mas não dá para ir pela BR 470?
Para Guaramirim não dava. Prestei
mais atenção no homem, um dos tantos andarilhos que circulam por nossas
estradas nestes tempos estragados pelo neoliberalismo, apesar de agora
já estar mais que comprovado, lá nos centros de poder, que o
neoliberalismo não passava de uma falácia das piores, simples
estrangulador de pobres para encher cofres já abarrotados de ricos.
O homem da manhã estava incrivelmente
sujo e coberto de feridas, com dois abcessos abertos nas bochechas.
Havia muita crosta e muito pus em muitos lugares, e cobrindo tudo, a
grande crosta de pó que é vestida, atualmente, quando a gente se
locomove pelas ruas ou estradas da minha região, depois que secaram os
mares de lama oriundos do derretimentos dos morros. Um executivo que
saísse a andar por aí de bicicleta acabaria com a mesma crosta de pó –
só não teria as feridas e os abcessos. Fiquei pensando: seria uma
doença, ou seria falta de determinadas vitaminas? Talvez fossem as duas
coisas; talvez fossem algumas doenças; quem garante que os abcessos nas
bochechas não proviessem de terríveis dores de dentes que aquele homem
sorridente com sua cachorrinha tivesse tido só e desamparado, nos
escondidos de passar a noite que ele devia conhecer? Aí ele me disse:
- Mais para frente há acostamento? É
que meu braço está quebrado em dois lugares, e está difícil tocar a
bicicleta. Com acostamento fica mais fácil...
Só então reparei no gesso do braço
esquerdo, tão coberto de pó e sujeira que a gente nem prestava atenção.
Sim, haveria acostamento mais para a
frente, e fomos conversando, e os cachorros foram correndo, e eu lhe
mostrava as muitas feridas nos morros, de onde a minha cidade sangrara
como nunca havia sangrado antes, e as casas que já não existiam, e
outras casas que haviam ficado enterradas na lama até a altura da metade
das janelas...
- Quantos quilômetros o senhor faz
por dia, com essa bicicleta?
- Dá para fazer uns 80...
- E a cachorrinha anda isso tudo?
- Não, ela vai aqui no engradado...
Havia um engradado de plástico
amarrado no bagageiro da bicicleta, onde o homem carregava seus bens.
Não olhei muito, só reparei que havia uma garrafa de dois litros quase
cheia de água.
A cachorrinha tinha se animado
demais, andava fazendo umas incursões para o meio da rua, e ele temeu
por ela. Puxou-a pela correntinha, colocou-a no engradado, onde ela
ficou, toda faceira e feliz, sem nem se importar com a interrupção das
brincadeiras que fazia com meu cachorro. Ela amava profundamente aquele
homem, morreria por ele. E ele me contou:
- Era uma filhotinha jogada fora.
Encontrei-a perdida numa rua de Navegantes. Está com quatro meses.
Conversamos rua afora, e fui
descobrindo que aquele homem entendia de todas as estradas e cidades do
sul do Brasil.
- Em Barra Velha – contou-me – há uma
mulher que tem doze cachorros. Todos grandes. Ela os acha na rua e leva
para casa. É uma mulher de coração muito bom. Gasta mil reais por mês,
só de ração.
Eu me admirava.
- Lá em Itajaí a enchente foi
terrível. Eu vi como as casas de madeira ficaram imprestáveis. Mas a
senhora tem certeza de que para ir a Guaramirim não tem que pegar a BR
470?
Eu tinha. Perguntei-lhe o nome. Era
José Aparecido e já não lembro o sobrenome, que ele tinha um singelo
orgulho de ostentar, como quem tem um último bem que não pode ser
roubado por nenhum neoliberal.
- Em Guaramirim eu tenho amigos! –
ele me contou, como um segredo de enorme valor, e me fez lembrar de
Saint-Exupéry. Eu estava mesmo bem curiosa para saber o que ele ia
fazer numa cidade pequenininha. – Já trabalhei seis meses em Guaramirim
catando papel, tenho amigos lá. Os meus amigos de lá fazem festa de
Natal! No ano passado teve até chope!
Pronto, estava explicado! Fiquei com
um bocado de vergonha desta dor que há dentro de mim, que está me
impedindo até de ouvir música de Natal, quando ela aparece sem querer.
Ele contou-me outras coisas, sobre os
três carrinhos de catador que já tivera; sobre as diferenças de preços
de latinhas vazias que existia em Blumenau e em Curitiba – agora só
tinha a bicicleta e a cachorrinha, que ia que ia montada na garrafa de
água do engradado.
- Mas a senhora tem certeza de que
para Guaramirim mão tem que passar pela BR 470?
Garanti-lhe de novo, dei mais
indicações do caminho. Perguntei:
- Como é a festa de Natal em
Guaramirim? Tem galinha assada?
- Tem de tudo, dona. Tem carne, tem
maionésia, tem chope! Tem até as mulheres que trabalham lá! – ele não
disse da fraternidade que deveria ter, do consolo dos braços amigos, que
sabe do reencontro com alguma antiga namorada, mas tudo estava implícito
na intensidade da emoção dele.
Eu deveria voltar, já fora longe
demais pela empoeirada Rua das Missões, onde íamos caminhando, e via meu
cachorro de língua de fora. Disse-lhe:
- Tenho que ir. Meu cachorro já está
com sede.
Então, a galanteza maior de todas que
ele poderia ter feito:
- Mas tem água aqui na garrafa, dona.
Pode dar para o cachorro.
Sei bastante da vida dos andarilhos
deste mundo para saber que não conseguem água com facilidade, que muitas
vezes são apedrejados quando se aproximam de alguma casa para pedir
água, pois as famílias pensam que eles vêm para lhes roubar as crianças.
Aquele homem de abcessos nas bochechas e esmagado pelo poder do Capital
dividia sua última riqueza sem nem pensar. Então me senti pequena e
mesquinha diante da grandeza dele, e fiquei com vontade de chorar. Antes
que o fizesse, despedi-me, e ele me apertou a mão sem nenhum
constrangimento pelas feridas supuradas, com a galhardia de um rei.
- Boa viagem para o senhor! Não
esqueça de virar à direita onde lhe ensinei!
- Feliz Natal, dona! É uma pena que a
conversa já está acabando tão cedo! É muito bom viajar quando a gente
pode ir conversando!
Em Guaramirim, vai haver uma grande
Natal! É uma notícia muito boa. Será que aquele homem não era um dos
reis magos e não estava encardido assim por ter atravessado os desertos
bíblicos?
Feliz Natal, José Aparecido! Aqui,
choro de emoção por ter encontrado assim o Natal!