Crônicas

Urda Alice Klueger


Indiferença ao Genocídio

A gente fica vendo o que passa na televisão e talvez fique sem saber o que pensar. Então eu vou falar um pouquinho da minha amiga Magda. Ela é brasileira, e sua mãe é brasileira, mas seu pai é ... Palestino! Magda já esteve na Palestina visitando tios e primos, quando foi a um Congresso Científico em Jerusalém, tumultuada viagem onde quase que não consegue chegar a Israel, porque judeus já a esperavam num aeroporto da Europa, identificada que estava como filha de palestino, e a humilharam e quase tudo fizeram para que ela não conseguisse embarcar no avião para Israel.

                                    Magda traz de lá lembranças atrozes:

                                    - Meus tios me mostravam as boas casas que eram suas no centro de Jerusalém – me conta ela – e de onde foram escorraçados para as casas serem ocupadas por judeus. Hoje eles vivem na periferia daquela cidade, em áreas onde sequer o caminhão passa para pegar o lixo, e onde suas vidas é a vida de um dia: não há a menor garantia de se estar vivo no dia seguinte. A qualquer momento a casa de qualquer palestino pode ser destruída por uma bomba, ou violada por soldados que batem, prendem e matam crianças e adultos, e o mundo assiste imóvel ao genocídio, olhando indiferente para as imagens que a televisão mostra.

                                    Magda conta mais: dos parentes na Faixa de Gaza, pequena sobra de terra onde os judeus acumularam milhões de palestinos, da desesperança diante do futuro, de como as pessoas já consideram morto alguém que fica doente de alguma doença comum, porque se sabe que não haverá tratamento, pois já não há remédios, nem hospitais, nem nenhum socorro. Ela sabe notícias de lá que a imprensa não está veiculando, como, por exemplo, que neste momento os judeus estão a passar pente fino casa por casa, atrás de umas sobras de corpos de judeus explodidos num confronto, faz mais ou menos umas três semanas, e que os palestinos, como uma praticamente última resistência, esconderam para não dar o gostinho ao inimigo de ter seus mortos por inteiro para sepultar. Penso que vocês podem imaginar como a coisa funciona: três da madrugada, e a porta da casa é botada abaixo, e todos são ameaçados com armas, e as crianças devem entrar em desespero, e as pessoas devem ser jogadas no chão para serem examinadas sem a menor dignidade, e decerto os homens irão presos, e sobram algumas violências para todos. Magda conta coisas que dá para escrever um livro.

                                    Nosso espaço é pequeno, no entanto. Então, vamos nos perguntar: por que isso? O que causa tanto ódio, tanta injustiça? Na verdade, quem são os tais de palestinos?

                                    Se olharmos a Bíblia, está lá a História deles: vieram para aquela região há cerca de 6.000 anos, e são tão descendentes de Abraão quanto os judeus. Abraão, entre outros, têm dois filhos: Isaac, que vai gerar os judeus, e Ismael, que vai gerar os palestinos. São pessoas iguais, da mesma origem, primos entre si – e por que tanto ódio a separar um do outro? Poderíamos botar a culpa toda só no Ariel Sharon, o primeiro ministro de Israel, mas andorinha sozinha não faz verão, bem sabemos, e ele tem contra si a opinião pública de quase todo o planeta. Alguém está por detrás dele, no entanto. Quem, quem lhe aquece as costas?

                                    Ah! Você está ficando esperto! Nem mais nem menos que o Cachorro Louco também conhecido por Bush II, e nem é só ele: por detrás dele há a poderosa força chamada Capitalismo em um país chamado Estados Unidos, que impede que qualquer um interfira lá, que deixa o genocídio correr solto e uma cultura de 6.000 anos morrer. “Por que, por que?” – você pergunta. Tá, tem a coisa da reeleição do Doido, já quase chegando, e dos votos que ele precisa dos milhões de judeus que vivem nos Estados Unidos, mas um dia o Louco se vai e o governo de Israel continua sendo apoiado pelos EUA. Por que, por que? Gente, dêem uma olhadinha no mapa: é como ter um confortável navio num mar encalpelado, é o bastião certo dos EUA lá “dentro” da região do petróleo. Agora deu para entender, não deu?

                                    E o genocídio continua, e a gente não diz nada!

                                                Blumenau, 21 de maio de 2004.

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