Hobsbawm, que hoje beira os 90
anos, escreveu isso sessenta anos depois do ocorrido.
Eu não sei como funciona a mente
dos meus caros leitores – sei que a minha faz associações parecidas.
Nunca esqueço que estava numa lanchonete de um shopping-center,
em Belo Horizonte, em maio de 1991 (ou foi 92? Maio eu garanto!),
quando foi anunciada na televisão a queda da Ministra Zélia Cardoso
de Melo (arrrrgh!!!). Para quem é jovem demais para lembrar dela,
esclareço que Zélia Cardoso de Melo foi a ministra da Fazenda do
governo Collor (ARRRRGHHHH!!!!!!), aquela que prendeu a poupança de
todo o mundo, e deixou ricos e pobres iguaizinhos, com 50.000
cruzados no banco cada um – foi uma coisa engraçada: pobre estava
acostumado a não ter dinheiro, mesmo, mas para os ricos a coisa
pesou: tínhamos uns vizinhos ricos que até comida em casa tiveram
que começar a fazer, legítimo arroz com feijão, já que não tinham
mais o dinheiro para os restaurantes finos. E para a turma que não
sabe, 50.000 cruzados era uma mixaria, não dava para quase nada.
Jamais esqueço aquela lanchonete
de Belo Horizonte, com todos os seus cheiros, suas cores, o som da
televisão, e os sorrisos de satisfação das pessoas que estavam lá,
quando penso que aquela ministra acabou caindo (arrrrgh!!!)..
Eu sou uma pessoa pródiga em
amigos, maravilhosos amigos que povoam e encantam a minha vida, mas
um deles sempre me foi muito especial: o grande poeta Marcos Konder
Reis, que sempre trouxe aninhado no peito como se ele fosse um pombo
num ninho. Fiquei amiga do Marcos quando era uma adolescente; privei
da sua maravilhosa amizade até o ano passado, quando ele partiu para
outras plagas, deixou este mundo. Em todos os verões da minha vida,
desde que eu era uma mocinha, houve noites e noites de papo e poesia
com Marcos Konder Reis em bares de Armação do Itapocoroy.
Lembro que no verão de 1991
tivemos uma única noite juntos, lá no velho Bar do Arão, em Armação,
eu a tomar cuba-libres, ele a tomar conhaque de macieira. Foi uma
noite inesquecível, onde ficamos até de madrugada discutindo poesia
e tentando resolver problemas que escritores têm, como o de não se
repetir. Após uma certa quantidade de cuba-libres e conhaques,
passamos a recitar poesias – foi daquelas noites que nunca acontecem
de novo.
Voltei a Blumenau na madrugada –
e no outro dia fico sabendo que enquanto curtia poesia junto com
Marcos Konder Reis, havia iniciado uma guerra! Era a Guerra do
Golfo, a chamada guerra cirúrgica, que o mundo assistiu pela
televisão como se fosse um videogame, achando bonitas as
bombas explodirem em luzes verdes, incruenta guerra que escondeu os
mortos e feridos e a cor vermelha do sangue. Ela durou pouco,
rapidamente terminou, depois que as bombas de luz verde destroçaram
o que queriam. Na minha cabeça ela ficou para sempre associada,
porém, a uma noite de poesia com aquele terno anjo que se chamava
Marcos Konder Reis. Eu acho que pude resistir à amargura dela porque
tinha aquela lembrança da poesia a atenuá-la.
Como será agora, se a guerra
voltar? Já não tenho o apoio do Marcos para sustentar as minhas
emoções. E eu acho que a guerra está chegando. E hoje sabemos muito
bem que as enganadoras luzes verdes das bombas são bem vermelhas.
Blumenau,
04 de Março de 2003.
Urda Alice Klueger