Crônicas

Urda Alice Klueger


Menino Grande - Maio

Fico pensando como era o seu avô, o seu pai, naquele tempo em que você era um menino. Não que você não seja um menino – é o que pode existir de mais telido no mundo em forma de menino – só que é um menino pequeno em período de transformação, e penso que está tomando a forma de um menino grande, como um dia foi seu pai, ou como um dia foi seu avô. É que quando a gente é criança o pai da gente apenas cresceu – eu me lembro do meu pai quando ele tinha 33 anos, e depois quando tinha 43 e jogava futebol de fim de semana no Manezinho Esporte Clube, nome de uma marca de cachaça feita no minúsculo e etílico município de Luiz Alves/SC, com um camisa colorida cuja tinta desbotava a cada lavação e manchava a camisa toda – meu pai, então, era um moço, mas para os filhos os pais sempre são como que seres atemporais e a gente nunca pensa que eles são moços. E quando a gente é criança o avô da gente deve andar ali pelos 50 anos ou um pouco mais, mas pensamos que avô é um ser que já nasceu muito velho, embora eu hoje entenda que 50 anos é um tempo de intensa juventude.

                                   Então, agora ando pensando em como seria seu avô, seu pai, pois, menino grande, você muda um pouco de forma, fica mais doce, mais macio, dum jeito leve de nuvem que flutua em brisa de céu de Primavera, e outro dia o vi tão bonito, mas tão bonito, a explicar sábias coisas de muitos países para uma platéia lotada, e havia um túnel de luz dentro de um espaço mais escuro onde você estava a apontar coisas num mapa luminoso, e aquele túnel dava a nós, que estávamos na platéia, uma sensação de que você se abrigava numa protetora caverna, e aquele seu esboço de uma nova forma tornava-o tão terno como se fosse um macio coelhinho protegido numa toca.

                                   Então me perguntei, e me pergunto agora, como teria sido o seu pai, o seu avô, nesse tempo deles de meninos que cresceram, e se você estará ficando parecido com eles. Ao longo da vida tenho observado muito as manifestações da genética dentro das famílias, e decerto você não está fugindo a leis tão precisas, que fazem com que os genes sejam tantas vezes repetidos ao longo dos tempos em amplas cadeias familiares.

                                   Só que não sei como eram o seu pai, o seu avô, mas começo a fazer uma idéia. Naquele tempo deles que é um tempo que se acerca de você, decerto que, como você, também tiveram eles quem se encantasse com aquela maciez e aquela doçura com que suas imagens foram sendo mudadas, pois a ternura é uma coisa peculiar aos seres vivos, principalmente para com seres macios e cheios de penugem como você, embora se possa sentir ternura também por plantas, ou pedras, ou outros seres que não sejam tão peludos e macios quanto você o é!

                                   E então, naquela noite em que, no túnel de luz dentro da escuridão, você estava tão macio e usando tão macia, aconchegante e tépida roupa branca, eu fiquei pensando tais coisas, e mais que nunca via-o com os olhos da ternura, e para mim era como se você fosse aquele coelhinho de pelúcia que, em criança, protegemos junto ao peito e  abraçamos para dormir – e eu daria a minha vida para continuar a sabê-lo assim, um coelhinho todo macio e peludo protegido numa toca, inacessado pelos males que grassam pelo mundo, tão macio e doce dentro da sua fortaleza moral e do seu fascinante Conhecimento! Na verdade, não é muito importante saber como eram, realmente, seu pai e seu avô – a mim me basta saber que há um menino que cada vez mais cria a maciez de uma nuvem em céu ameno de Primavera e que tem a doçura de um coelhinho protegido dentro de uma toca – é um privilégio poder amar um menino grande assim tão terno quando o meu menino macio!

                                                           Florianópolis, 02 de Junho de 2007.

                                                           Urda Alice Klueger

                                                           Escritora   

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