
Crônicas
Urda Alice Klueger
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Meu cachorro Atahualpa 10 - Fome |
(Para Pietra, Marina, Fernanda e Juliana, as netinhas da minha amiga Vânia Moreira Diniz)
Atahualpa andou doente. Ficou indisposto, vomitou uma vez, vomitou duas... na terceira vez levei-o à veterinária, a tia Juliana.
- Ele comeu alguma coisa diferente? – quis saber a Dra. Juliana.
Se tinha comido? Eu tentei fazer uma lista do que ele costuma comer em qualquer lugar, e fui lembrando: sapos secos (vivemos numa região de muitos sapos e de muitos automóveis – sempre há um ou outro sapo atropelado, que num instantinho vira um couro seco sobre o asfalto, petisco que não escapa do meu cachorrinho!), ossos de galinha, daqueles bem perigosos de formar farpas perfurantes, que ele acha, às vezes, na beira da rua; chicletes grudados na calçada, bolas de cabelo, pedacinhos de plástico...
A Dra. Juliana entendeu logo. Achou por bem tratá-lo com Plasil e ficar esperando para que passasse uma provável intoxicação que não podíamos imaginar de que comida viera.
A injeção de Plasil deixou Atahualpa inteiramente bodeado, e ele dormiu a tarde toda como um morto. Dei-lhe mais Plasil à noite, e mal e mal ele comeu uma coisinha de nada, antes de voltar a dormir. Preocupada, fiquei a espiá-lo, lembrando de outras coisas que ele costumava comer. Acabei passando uma mensagem eletrônica para a veterinária: “Dra. Juliana: dentro da longa lista de coisas inimagináveis que o Atahualpa come (além dos bichos que ele mata e devora, o que vai desde mosquitos, até ratos), estão os cocôs de capivara e de cavalo. Pode?”
Na segunda noite, ele continuava tão indisposto que, quando demonstrou interesse em comer nata, dei-lhe tanta nata quanto quis, montes de nata sobre pedacinhos de pão. É fácil imaginar que na outra manhã ele havia voltado a vomitar, e assim se passou quase uma semana com ele indo e vindo do hospital, tomando Plasil e esperando melhorar, até que era hora de tomar providências mais sérias, e furaram o bracinho curto do meu cachorrinho para tirar sangue para alguns exames. Resultado: o fígado dele não estava produzindo algumas enzimas.
- Tem tratamento? – eu, angustiada.
- Claro, mas ele terá que ficar 15 dias se alimentando só de ração e água. E dez dias tomando um remédio para o fígado. É docinho, os cachorrinhos costumam gostar.
Houve um primeiro dia só a ração e uma guerra para ele tomar o remédio. Dos cinco ml que ele tinha que tomar de cada vez, uns dois ou três acabavam derramando no pêlo. No segundo dia consegui tempo para pegar o meu filhote e ir para a pousadinha onde costumamos ir, para ver se, dentre a natureza, ele se esquecia um pouco de que estava vivendo só de ração. No terceiro dia continuávamos na pousada, e ele já tinha comido galho de árvore, casca de ovo, e mergulhado numa lagoa de peixes para roubar o pão que estava sendo jogado aos peixes (e respirava debaixo d´água! As bolhas de ar subiam das suas narinas como se ele fosse um escafandrista!). De quebra, roubou a comida do gato da pousada com a tigela e tudo!
Quando voltamos para casa, telefonei para a Dra. Juliana e pedi socorro: podia variar um pouquinho o cardápio do meu bicho? Sim, claro que sim, já que ele não estava mais vomitando. Perguntei sobre galinha magra cozida com arroz, quem sabe uma carninha moída, bolacha de maizena. Tudo autorizado. Ele estava com tanta fome (depois li a bula do remédio: ele, entre outras coisas, abria o apetite) que nem se lembrou que não gostava de galinha, e se empanturrou com o primeiro prato de galinha com arroz. Fiquei com medo, era para ele comer só um pouquinho. A bolacha de maisena foi bem na primeira vez – em seguida tive que misturá-la com leite e açúcar. Mais ou menos lá pelo quarto ou quinto dia ele acabou descobrindo que não importava a guerra que fizesse, tinha que tomar o remédio, e então ficou mais dócil a tal respeito, principalmente depois que tive uma longa conversa com ele e dei-lhe muito carinho depois de um dos episódios dramáticos.
Hoje estamos no nono dia do tratamento e a Dra. Juliana autorizou que eu lhe desse o prato preferido dele: bife de fígado cozido em água e sal. Pensei em lhe dar meio bife, para começar, mas três bifes tinham sido congelados todos colados um no outro, e achei melhor cozinhar todos de uma vez, para lhe dar mais pedacinhos nos dias seguintes.
Só de farejar que havia bife de fígado cozinhando, Atahualpa já ficou bem doidão. Ele está com um apetite imenso, e eu queria ver o jornal na televisão e ele queria os bifes que não estavam prontos, e latia para mim e ia latir para o fogão, tão desesperado como nunca o vira! Resultado: assim que os bifes cozinharam, ao invés de meio, acabei por lhe dar um inteirinho, e descobri, hoje, que meu cachorro manja de aritmética: ele sabia perfeitamente que não havia ganho tudo, que havia mais bife sobre o fogão! Então, ao invés de meio bife, acabou comendo dois (um eu consegui esconder), e eu diria que ele ficou como que bêbado de tanto comer! Deitou-se aqui do meu lado, enquanto escrevo, dormindo como um morto, mas com uma certa antena ligada que só os cachorros devem conseguir entender. Há pouco, quando uma amiga me telefonou e perguntou, entre outras coisas, pelo Atahualpa, e eu pronunciei o nome dele alto, dentro daquele sono de morto ele rosnou como quem diz:
- O que é que estás falando de mim?
E ainda sem acordar deu lá uns três ou quatro latidos, acho que para a minha amiga ouvir que ele estava vivo.
Esse é o Atahualpa! Como é que se pode deixar um bichinho destes viver só de ração?
Blumenau, 27 de setembro de 2008.
Urda Alice Klueger
Escritora