Crônicas

Urda Alice Klueger


Meu Cachorro Atahualpa 9- Capivaras

(Para Mário Henrique Gieland e Hana Beatriz Gieland – e também para Bruna, quando ela era pequena.)

 

 

                                        A cidade de Blumenau, onde Atahualpa e eu vivemos, tem uma peculiaridade rara: a existência de capivaras. Disseram-me outro dia que há cerca de 5.000 capivaras vivendo às margens do Rio Itajaí, no centro da cidade, e pelas beiras dos seus muitos afluentes. Como seu inimigo natural, a onça, já não habita mais tais espaços, elas se multiplicam vertiginosamente, e mesmo considerando os caçadores clandestinos, há tantas capivaras que falar sobre elas daria um livro inteiro.  Nesses tempos ouvi um douto e sisudo professor de Biologia dizer que talvez o ideal seria soltar umas onças, de novo, pela cidade. Eu, heim? Duvido que alguém concorde!

                                   A verdade é que está cheio de capivaras por aqui: nos fundos do prédio onde moro, e que fica às margens do ribeirão Garcia, há uma família que tinha 13 capivaras na época em que Atahualpa veio para a minha vida. Elas são uns bichões herbívoros; pelo que me lembro, os maiores roedores que existem. Os filhotinhos pesam, imagino, já uns cinco quilos; o chefão de cada família são uns capivarões de muitas arrobas, todos marrons e cobertos de cerdas marrons – a impressão que a sua pele dá é de que é feita de casca de coco maduro.

                                   Pois bem, desde dezembro do ano passado, quando comecei a passear com Atahualpa na área de alimentação das capivaras, o número de membros daquela família já aumentou um bocado – parece-me que agora já são mais de vinte, mesmo considerando, conforme ouvi falar, que um morador de um prédio vizinho andou matando uma grandona e feito o maior churrasco para os amigos dele.

                                   As capivaras costumam vir pastar ao lado do meu prédio assim de tardezinha ou de noitezinha – mas já as vi comendo na maior calma por volta do meio dia, numa ocasião em que estava chovendo. Penso que não gostam muito do sol. Elas se alimentam num gramadão que é cheio de out-doors, uma longa seqüência de terrenos baldios cuidadosamente roçados para destacarem os out-doors, e é lá um dos lugares onde Atahualpa mais gosta de passear.

                                   Quando um bando de capivaras está pastando, o chefão fica de guarda, para avisar à sua família de qualquer perigo – e desde pequenino que Atahualpa implica sem dó com aquele capivarão, e nos dias em que se encontram, ele late no chefão até ficar exausto – e aquele capivarão que deve pesar seus 80 quilos, sempre olhou com desprezo para aquela bolinha preta peluda, mesmo agora, que ele cresceu e ameaça chegar aos 10 quilos, e nunca nem se deu ao trabalho de se mexer do lugar diante daquele cachorrinho barulhento. Afinal, ele é um chefe muito cônscio das suas responsabilidades, e que posa impávido quando algum automóvel pára e fica filmando seu bando por uma hora inteira. Sabe muito bem que aquele cachorrinho não vai ter coragem de enfiar os pequenos dentes no gordo toutiço dele.

                                   Foi então que, na semana que passou, Atahualpa e eu fomos dar uma volta num outro lugar onde ele gosta de correr, e que se chama “Prainha”, bem no centro da cidade, à beira do rio Itajaí. Cheira de cá e corre de lá, num instante Atahualpa deu de cara com outra família de capivaras. Era uma família pequena, só quatro indivíduos, mas que também tinha um chefão que estava de guarda. Acostumado à família da nossa vizinhança, Atahualpa não fez por menos: pôs-se a latir furiosamente naquele outro chefe, fazendo o maior alarido, mas aquilo foi só por um instante. O chefão virou-se para ele e fez um, eu diria, bafido assim:

                                    - Humpfff... – que tinha o maior jeito de quem não estava gostando.

                                   Meu bichinho não se desencorajou, e os latidos e o “humpfff” se repetiram três vezes, e então... o capivarão saiu correndo atrás do meu cachorro!

                                   Que surpresa, heim, Atahualpa? Ele correu o quanto pôde e veio se esconder atrás de mim, o rabo no meio das pernas, a imagem do cachorro que levara o maior susto!

                                   Quanto ao chefão, nem esquentou: chamou as outras três capivaras e num instante elas atravessaram o caudaloso rio, nadando com a destreza de peixes, indo esconder-se na vegetação da outra margem. Tenho certeza de que Atahualpa criou um novo respeito por aqueles animais!

 

                                                           Blumenau, 20 de setembro de 2008.

 

                                                           Urda Alice Klueger

                                                           Escritora

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