A verdade é que está cheio de
capivaras por aqui: nos fundos do prédio onde moro, e que fica às
margens do ribeirão Garcia, há uma família que tinha 13 capivaras na
época em que Atahualpa veio para a minha vida. Elas são uns bichões
herbívoros; pelo que me lembro, os maiores roedores que existem. Os
filhotinhos pesam, imagino, já uns cinco quilos; o chefão de cada
família são uns capivarões de muitas arrobas, todos marrons e
cobertos de cerdas marrons – a impressão que a sua pele dá é de que
é feita de casca de coco maduro.
Pois bem, desde dezembro do ano
passado, quando comecei a passear com Atahualpa na área de
alimentação das capivaras, o número de membros daquela família já
aumentou um bocado – parece-me que agora já são mais de vinte, mesmo
considerando, conforme ouvi falar, que um morador de um prédio
vizinho andou matando uma grandona e feito o maior churrasco para os
amigos dele.
As capivaras costumam vir pastar
ao lado do meu prédio assim de tardezinha ou de noitezinha – mas já
as vi comendo na maior calma por volta do meio dia, numa ocasião em
que estava chovendo. Penso que não gostam muito do sol. Elas se
alimentam num gramadão que é cheio de out-doors, uma longa
seqüência de terrenos baldios cuidadosamente roçados para destacarem
os out-doors, e é lá um dos lugares onde Atahualpa mais gosta
de passear.
Quando um bando de capivaras está
pastando, o chefão fica de guarda, para avisar à sua família de
qualquer perigo – e desde pequenino que Atahualpa implica sem dó com
aquele capivarão, e nos dias em que se encontram, ele late no chefão
até ficar exausto – e aquele capivarão que deve pesar seus 80
quilos, sempre olhou com desprezo para aquela bolinha preta peluda,
mesmo agora, que ele cresceu e ameaça chegar aos 10 quilos, e nunca
nem se deu ao trabalho de se mexer do lugar diante daquele
cachorrinho barulhento. Afinal, ele é um chefe muito cônscio das
suas responsabilidades, e que posa impávido quando algum automóvel
pára e fica filmando seu bando por uma hora inteira. Sabe muito bem
que aquele cachorrinho não vai ter coragem de enfiar os pequenos
dentes no gordo toutiço dele.
Foi então que, na semana que
passou, Atahualpa e eu fomos dar uma volta num outro lugar onde ele
gosta de correr, e que se chama “Prainha”, bem no centro da cidade,
à beira do rio Itajaí. Cheira de cá e corre de lá, num instante
Atahualpa deu de cara com outra família de capivaras. Era uma
família pequena, só quatro indivíduos, mas que também tinha um
chefão que estava de guarda. Acostumado à família da nossa
vizinhança, Atahualpa não fez por menos: pôs-se a latir furiosamente
naquele outro chefe, fazendo o maior alarido, mas aquilo foi só por
um instante. O chefão virou-se para ele e fez um, eu diria, bafido
assim:
- Humpfff... – que tinha o maior jeito de quem não
estava gostando.
Meu bichinho não se desencorajou,
e os latidos e o “humpfff” se repetiram três vezes, e então... o
capivarão saiu correndo atrás do meu cachorro!
Que surpresa, heim, Atahualpa?
Ele correu o quanto pôde e veio se esconder atrás de mim, o rabo no
meio das pernas, a imagem do cachorro que levara o maior susto!
Quanto ao chefão, nem esquentou:
chamou as outras três capivaras e num instante elas atravessaram o
caudaloso rio, nadando com a destreza de peixes, indo esconder-se na
vegetação da outra margem. Tenho certeza de que Atahualpa criou um
novo respeito por aqueles animais!
Blumenau, 20 de setembro de
2008.
Urda
Alice Klueger
Escritora