Ah!
Gente, coisas assim só acontecem em tempo de Natal, mesmo – o que
significa que o tempo de Natal é um tempo que pode ser em qualquer dia,
desde que a gente queira com muita força e continue acreditando em Papai
Noel! Pois tem gente que basta crescer um pouquinho, passar dos dez
anos, que já fica achando que Natal e assemelhados não passam de
invenção, e acaba perdendo um monte de coisas mágicas na vida! Eu, cá da
minha parte, jamais deixei de acreditar – e então, as coisas mágicas
sempre continuam acontecendo.
E então
Mara Salla primeiro escreveu para mim, e depois, um dia, veio me
visitar, e que queria ela? Ela era cineasta, e queria usar um texto meu
(que está neste livro),
chamado “Por causa do Papai Noel”, para fazer um filme. Como é que a
gente não vai concordar com uma coisa assim? Fiquei toda faceira, toda
boba com aquela escolha de Papai Noel, e passaram-se tempos, meses,
penso que quase dois anos, e um dia fui a um cartório, em Florianópolis,
para doar a Mara Salla o direito de escrever um roteiro a partir do meu
texto – mas sabe como são estas coisas de Papai Noel, não? São todas
mágicas e misteriosas, e como já faz tempo que eu cresci, acabei ficando
mais paciente, também, e o tempo que passava não tinha importância para
mim – um dia o filme sairia, e decerto seria LINDO!
Outras
coisas, porém, saíram antes do filme: Mara Salla mandou seu roteiro para
o Ministério da Cultura, e ele concorreu lá entre os melhores roteiros
do Brasil, e sabe como é, aquela gente que trabalha com um Ministro com
a sensibilidade de um Gilberto Gil não é boba, não – sacou logo que ali
tinha o dedo de Papai Noel, e o roteiro de “Por causa de Papai Noel”
ganhou o primeiro lugar nacional! Só aquilo já era maravilhoso – mais
maravilhoso ainda foi quando o filme começou a ser rodado de verdade,
tendo como cenário a pequenina cidade de São Pedro de
Alcântara/SC/Brasil, e eu passei quatro dias lá vendo como é que se
fazia um filme, e acabei até fazendo uma ponta nele – coisa de nada, dez
segundos, mas que me deram o maior cansaço! – e saí de lá convicta que a
melhor profissão do mundo era a de escritora, depois de ver o trabalhão
que era fazer cinema!
E de
novo o tempo passou, e havia muitas coisas a serem feitas no filme, como
trilha sonora, animações e essas coisas das quais não manjo nada. Ainda
antes do lançamento oficial, o filme já começou a concorrer em festivais
e a ganhar prêmios – e todo o mundo pensava que estava a dar prêmios
para o filme de uma cineasta chamada Mara Salla, sem nem se tocar que
por detrás de tudo havia a presença e a magia de Papai Noel!
Então,
no dia 18 de Dezembro de 2006, acabou havendo o lançamento oficial do
filme. Foi lá em Florianópolis, e eu fui com a minha amiga Dina, com o
meu afilhado Alexander e com a minha prima Mayde. Pensava que era como
ir ver um filme qualquer, feito por um cineasta qualquer – na hora,
mesmo, não estava me lembrando de que Papai Noel estava por detrás de
tudo! E então foi um choque de grandes emoções dentro de mim, quando fui
vendo a beleza do filme, e a forma como Papai Noel – quer dizer, Mara
Salla – conseguira entender uma coisa que eu achava que só os escritores
sabiam, que só eles entendiam – como era possível viver-se, ao mesmo
tempo, diversas realidades – já falei com outros escritores, inclusive o
Grande Mestre Jorge Amado, que concordaram comigo – de que de repente,
dentro da vida real que a gente está vivendo, surgem personagens
fictícios vivendo outras realidades, e que eles passam a fazer parte da
vida da gente como se gente de verdade fossem. Pois Mara Salla entendera
tal coisa e a transportara para o filme (afinal, Papai Noel tudo pode,
não?), e conforme via o mesmo, assolou-me tal sensibilidade por conta
dele, que já não era possível sobreviver sem chorar – e quando as luzes,
afinal, foram acesas, eu me acabei de soluçar nos braços da minha prima
Mayde, aconchegantes braços acostumados a carregar crianças e a entender
de Natal.
Mara,
minha querida, muito obrigada! Eu sempre fico fazendo de conta que não
sei que você é Papai Noel de verdade! Mas sei, sim!
E o
filme? “Por causa de Papai Noel” continua ganhando prêmios. Sei que
neste mês está concorrendo a dois festivais: um em Portugal, e outro em
Seul, na Coréia, tendo também ganho um festival em Moscou, na Rússia –
sem contar os muitos prêmios que ganhou no Brasil. E alguém ainda vai me
dizer que Papai Noel não existe?
Blumenau, 14 de setembro de 2007.
Urda Alice Klueger
Escritora.