Neste Ano Os Ipês São Apenas Amarelos
Para J. G. B. de O.
É quase metade de agosto, e contrariamente a tantos outros anos, eu não
estava sequer a lembrar que já era tempo de esperar pela florescência
dos ipês.
Em outros anos, este tempo de agora,
tempo de agosto, era o Tempo da Esperança, e a chegada das flores dos
ipês era como uma alegoria, como algo altamente suntuoso que pusesse em
movimento o mais fascinante dos maestros que, em traje de gala, passava
a reger a mais suntuosa das orquestras, cheia de loucuras de corais e
solistas, e esse maestro e essa orquestra de sonho traziam até meus
ouvidos e meu coração o movimento final da Nona Sinfonia de Beethoven,
que gosto tanto porque é a mais bonita de todas mesmo, pelo menos para
mim, e a Esperança me envolvia com seus acordes e trazia no seu bojo os
ipês florescidos de ouro, e então eu ficava a esperar um vôo de
Passarinho que já não demoraria a voltar ao meu Hemisfério!
Ah! Como é doce, boa e gratificante a
Felicidade! Quando era o Tempo da Esperança, a Felicidade vinha e me
envolvia como um manto de arminho pode envolver em dia de neve, e a vida
ficava perfeita, e cada fibra do meu corpo e da minha alma vibravam em
uníssimo, e me permitiam sentir cada nuance dos rosas e azuis dos céus
das tardes, e as finas fatias de lua nos anoiteceres, e a fragrância das
primeiras flores de laranjeira que prenunciavam a Primavera... e a
loucura do ouro com que os ipês passavam a se vestir! Ver o primeiro ipê
florido era receber de roldão, de uma vez só, o somatório de todas essas
coisas boas, e então ficava a indagar os sonhos das noites e o céu das
tardes, contando os dias, as horas e os minutos para saber quando seria
a infinita alegria do pouso do meu Passarinho!
Naqueles tempos de ipês de ouro, meu
Passarinho não precisava fazer nada além de me acenar de leve com uma
asa para que a Felicidade se tornasse uma coisa perfeita! Eu nada
esperava desse rasante vôo de chegada além do aceno leve da sua asa de
pássaro, e ficava a espiá-lo de longe inteiramente vibrante, bem como a
Sinfonia de Beethoven que havia dentro da minha alma!
Agora se foi o Tempo da Alegria
Infinita, o Tempo da Felicidade, o tempo das Sinfonias e dos azuis e
rosas das tardes, e das fatias de lua e do aroma das primeiras flores de
laranjeira sob o sol, e o tempo de esperar a chegada das flores de ipê e
o vôo de retorno do meu Passarinho! Meu Passarinho, agora, depenou as
asas, prefere usar uma máscara de Bicho-Papão e brincar de verdade de
Marcha-Soldado, ao invés da leveza de seus vôos que traziam no seu bojo
a magia da Felicidade e da Primavera.
E hoje à tarde, caminhando na
desolação da minha desesperança, de repente vi-me frente à frente com um
primeiro ipê florido. Por um momento, como que se acendeu dentro de mim
um calor do Passado, e uma fugidia ilusão quis me fazer crer que a
Felicidade estava de volta. Como disse, era ilusão. Neste ano, as
árvores já não terão flores de ouro, e na primeira olhada já me dei
conta que os ipês deste ano são apenas amarelos. Neste ano, não haverá
Primavera.
Blumenau, 12
de Agosto de 2006.
Urda Alice
Klueger
Escritora |