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Nossos irmãos, os argentinos
Pequenos
textos do livro “Viagem ao Umbigo do Mundo”, neste momento no prelo,
escrito por Urda Alice Klueger em 2005/2006. (Publicação prevista
ainda para agosto/ 2006.)
Já para o final da tarde, chegamos, afinal, à simpaticíssima cidade de
Presidente Roque Saens Peña. Em outros lugares da Argentina, em outras
ocasiões, eu já pudera observar como a população vai toda para as ruas
nos domingos, inclusive nos domingos à noite, coisa bastante estranha
para um morador do Vale do Itajaí, como eu, que nos domingos à noite
quer mais é se encorujar o mais cedo possível para estar bem descansada
na segunda de manhã, para recomeçar a semana de trabalho. Presidente
Roque Saens Peña não fugia à regra: era domingo, boca da noite, e a
população inteira estava pelas ruas e abria espaço para aquele bando de
marcianos que, de repente, invadia a simpática cidade.
Deveríamos ir
para determinado hotel, onde tínhamos um encontro, e parávamos para
perguntar a direção do hotel, e os moradores queriam morrer de
gentileza, penso que fariam qualquer coisa por nós. Perguntavam-nos de
onde éramos, e quando nos sabiam brasileiros, desmanchavam-se em francos
e prazerosos sorrisos:
- Que lindo!
Obrigada, obrigada por terem escolhido a nossa cidade para dormir! – e
queriam nos apertar as mãos, e não sabiam mais o que fazer para serem
gentis. Emocionava-me com aquela gente que se encantava com o fato de
sermos brasileiros, e pensava que um dia haveria de contar aqui aquele
fato, pois há tanta gente, no Brasil, que fala mal do povo argentino
sem, às vezes, sequer conhecer alguém de lá! É claro que temos nossa
rivalidade no futebol – mas daí a chegarmos a uma quase xenofobia, como
às vezes vejo por aí, vai uma grande distância. Vale lembrar, aqui, um
fato que vivi no curto espaço de tempo em que fui professora de
História, em 2001/2002. Na ocasião, um dia perguntei aos meus alunos:
-
O que vocês acham do povo argentino?
100% deles foram taxativos: eles odiavam o povo argentino. Eu engoli.
Perguntei quem deles conhecia um argentino. 100% deles não conhecia.
Aprofundei a pergunta: quem deles tinha um pai, ou um tio, ou um
padrinho, ou alguém que conhecesse um argentino. A resposta foi na mesma
proporção: ninguém tinha. Daí quis saber por que eles odiavam o povo
argentino. Eles não sabiam. Perguntei se era por causa do futebol. Houve
opiniões variadas, que incluíam ou não o futebol. Havia quem
respondesse que era porque os argentinos eram mal-educados, prepotentes,
etc.
-
E como é que vocês sabem tal coisa se não os conhecem?
Meus alunos ficaram sem resposta e eu
fiquei com uma grande preocupação. Meus alunos eram crianças de sexta
série e estavam representando os pensamentos dos pais - o que estava
acontecendo, mesmo, no sul do Brasil, para que as crianças estivessem se
criando quase que dentro de uma xenofobia? Tenho certeza de que alguma
coisa muito perigosa está se formando entre nós, brasileiros, para
vermos criancinhas de sexta série odiando argentinos que não conhecem.
Não sei como isso é promovido, mas o fato é que existe. Conto, então da
alegria da gente de Presidente Roque Saens Peña ao nos receber, para dar
um exemplo da diferença, de como os argentinos nos querem bem. Talvez,
em algum momento, este meu pequeno relato possa servir para levar alguém
à reflexão. As conseqüências de uma xenofobia são imprevisíveis, e podem
ser muito más.
Há que registrar, também, que diante da temperatura quente, naquele dia
viajávamos de camisetas, e em homenagem ao povo argentino, já que ele
nascera naquele país, eu usava uma camiseta com a fotografia de Che
Guevara. Pela manhã, meus amigos motociclistas tinham ficado um tanto
quanto desconcertados ao me verem com aquela camiseta – há que se
lembrar que eram amigos criados pela cartilha do Capital.
Respeitaram-me, no entanto, embora tivesse havido um ou outro comentário
assim de “quem seria o argentino que prestaria atenção àquilo?” Eu lhes
disse que aquilo tinha importância, sim, e de tarde, quando já
começávamos a sair do Chaco e paramos num posto de gasolina, de repente
vi-me rodeada por um pequeno grupo de jovens que estavam por ali, e que
vieram até mim atraídos pela minha camiseta. Disse-lhes que estava a
homenagear o povo argentino, e eles entenderam perfeitamente, e me deram
seus mais bonitos sorrisos, e apertaram a minha mão daquela forma que a
ternura faz apertar. Quase 37 anos depois da sua morte, Che me unia a um
grupo de jovens argentinos como irmãos que éramos. Há coisas e energias
que não têm preço, no mundo. Um dia muito mais gente vai entender.
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Chegamos, afinal, à fronteira da
Argentina. Estava-se há 4.200 metros, mas agora havia um bom sol que
aquecia. Havia a Aduana e mais umas outras poucas construções no meio do
nada, quase tudo coisa pequena, quase tudo pequenas casinhas de adobe.
Os guardas da fronteira eram muito simpáticos, e eu morria de fome –
perguntei a eles se em algum lugar poderia comprar algo para comer.
Indicaram-me distante casinha de adobe, onde uma índia tinha um pequeno
comércio. Enterrando na areia solta as botas de D. Rose, fui até lá, e
consegui bolachas, água e um potinho de doce-de-leite. Depois que comi
alguma coisa senti-me melhor, e pude conversar um pouquinho com os
simpáticos guardas, que me contaram que ficavam ali naquela distância
perdida 30 dias de cada vez, que estavam acostumados àquilo, etc. Na
verdade, eu estava com uma pena danada de estar indo embora da
Argentina, daquele país de gente tão parecida com a nossa, com a qual eu
me identifico tanto! Disse isto aos guardas, e eles demonstraram
contentamento, e até quero falar mais um pouquinho no assunto.
Eu sou uma
brasileira com uma grande paixão pelo Brasil – considero que a melhor
parte de uma viagem, por melhor que ela seja, é o momento de chegar de
volta ao Brasil. Sempre sinto um grande prazer ao encontrar os
americanos dito latinos, e este prazer aumenta quando estou longe, muito
longe, principalmente em outros continentes, por exemplo. Encontrar um
americano dito latino é sempre bom demais, não importa muito a sua
nacionalidade: mexicanos, guatemaltecos, cubanos, venezuelanos,
colombianos, equatorianos, bolivianos, e por aí vai. Encontrar um
argentino, no entanto, é encontrar um irmão – ninguém no mundo pensa tão
parecido com nosostros, brasileños, quanto os argentinos. Eu
acho que um argentino é mais parecido conosco que os próprios
portugueses, que falam a mesma língua que nós. Os portugueses, apesar da
língua, pensam como europeus. Nós somos americanos, não temos a mesma
identidade, a mesma forma de encarar o mundo que os portugueses – mas
nossos vizinhos argentinos têm. Não somos iguais, claro – mas somos
muito próximos! Aqueles dias de viagem pela Argentina, apesar de ter
constatado algumas diferenças das quais ainda não sabia, mais me fez ver
as semelhanças – viajar pela Argentina é muito parecido a viajar pelo
Brasil: usam-se os mesmos cartões de crédito, as mesmas formas de postos
de gasolina, de lanchonetes e restaurantes, tipos parecidos de
telefones, de hotéis, enfim, temos muita semelhança mesmo,
principalmente quando a gente se dá conta que somos mais ou menos
comprados/vendidos pelo Capitalismo Internacional, de formas muito
parecidas, o que se reflete muito na economia. E se tirarmos o futebol,
os dois povos são muito parecidos na comunicação, na simpatia, etc. E
se pensarmos mais ainda, vamos ver que somos muito parecidos, inclusive,
no futebol – mas isto é outra discussão – melhor nem começa-la aqui,
pois ela acirra os ânimos!
Então, estava eu com pena de deixar aquele país tão querido, e os
guardas da fronteira entenderam e gostaram disso, e como foram amáveis!
Eram meninos com carinhas de índios, e tão simpáticos! Como disse atrás,
a temperatura subira e eu me sentia melhor – abandonei o carro de apoio,
voltei à garupa do seu Chico, e foi assim que deixei a Argentina, lá
naquela fronteira que se chama Passo de Jama.
Urda Alice Klueger
Escritora |