A maior parte da gente do mundo
pensa uma coisa errada: que as regiões tropicais são quentes. Há
regiões tropicais quentes, sim, mas há áreas de regiões tropicais
onde o frio grassa como grassa lá sob o céu de Érico Veríssimo, e há
tanto frio e geada que os homens usam roupas que penso que talvez
sejam únicas no mundo, grossos novelos de lã em forma de poncho com
barras de franjas, e folgadas calças enfiadas em botas de cano alto
e protetores chapéus que devem, uma vez ou outra, acho, protegê-los
até de neves
E o céu de Érico Veríssimo é um
céu de passarinhos! Tanto frio, e as árvores por cima da gente são
verdes como se não houvesse inverno, e têm folhas, e têm bagas, e
tem musgos, e devem ter ninhos – pois se o céu é um céu de
passarinhos, como é que não vai haver ninhos? Há ninhos, lá, como
não os há em nenhum lugar, ninhos brancos e azuis, ninhos de frisos,
e de beirados, e de varandas, e de cercas, e de janelas azuis,
ninhos azuis e brancos de gatos nas varandas de ladrilho vermelho,
pois céu como aquele não há outro, nem ninhos assim também não os há
por aí, porque os passarinhos do céu de Érico Veríssimo são
passarinhos encantados, e gostam tanto daquele céu e daqueles ninhos
que ficam gostando de azul com branco para o resto da vida, e nem
poderia ser de outro jeito!
Lá, quando vem a noite, ela não
fica escura como nos outros lugares: a noite do céu de Érico
Veríssimo também é encantada como quase tudo naquele lugar, e a
noite daquele céu é revestida de estrelas enormes, muito próximas,
tão próximas que é possível ver-se o passeio dos satélites e dos
asteróides por dentre elas, e então os passarinhos daquele céu ficam
tão fascinados por terem um céu assim para viver, e ninhos assim
também, que se deitam na grama, braços cruzados atrás da nuca, peito
aberto para poderem ver com o coração, e espiam as estrelas, e os
satélites, e os asteróides, e sabem que de noite é de veludo negro
aquele lugar de pendurar estrelas, aquele que de dia fica daquele
inexplicável azul que é o azul do céu de Érico Veríssimo, tão azul
que talvez só lá mesmo seja assim!
Ah! Como um céu assim só pode ser
um céu de passarinhos! Foi sob aquele céu que Érico Veríssimo nasceu
e viveu um bom tempo, e ali também nasceram passarinhos tão únicos
no universo quanto ele o foi - mas também, sob um céu como aquele,
só poderiam nascer, mesmo, passarinhos únicos!
Eu posso dizer que sou uma pessoa
que tem tido muitos privilégios na vida: um dia, escondidinha na
penumbra de um Vale, bem quando começava a espiar a vida, uma
estrela pulou de dentro de um livro e me iluminou com tamanha
calidez e brilho que aquela luz ficou para toda a vida, e aquela
estrela me fora mandada por Érico Veríssimo – meia vida depois fui,
pessoalmente, lá ver aquele céu! Era o céu de Érico Veríssimo e era
um céu de passarinhos! Senti tudo tão de perto, com tamanha força –
uns e outros me disseram que Érico Veríssimo partiu para sempre, mas
também para sempre aquele lá será o céu dele, e sempre será lá um
céu de passarinhos e de ninhos brancos e azuis como em nenhum outro
céu não há – e há passarinho daquele céu que pulou para dentro do
meu peito, como aquela estrela um dia, e não importa o que faça, nem
aonde vá, que sempre estará aqui dentro de mim o céu de Érico
Veríssimo, que é um céu de Passarinho!
Blumenau, 04 de
setembro de 2007.
Urda Alice Klueger
Escritora