O pôr-do-sol no Chaco Paraguaio é
uma das coisas mais bonitas de se ver no mundo – bem como a lua
cheia, quando nasce lá, toda alaranjada, como já a vira no passado.
Mas aquela que estava chegando era noite de Ano Novo, e não noite de
lua, e então havia que apreciar até o último momento o mergulho
daquele último sol do ano por detrás do deserto verde que é o Chaco,
aquela enorme planície que um dia já fora mar e que ainda é salgada,
mas onde incontáveis plantas se adaptaram ao sal e formam um sistema
único no mundo, que vai desde o mais fino capim até às grandes
árvores barrigudas, que armazenam grande quantidade de água nas suas
barrigas para os tempos de grandes secas... Em nenhum outro lugar do
mundo existe uma vegetação assim, e era bem lá dentro do Chaco,
naquela incipiente noite de Ano Novo que viajávamos, e em nenhum
momento me passou pela cabeça que aquele seria o último Ano Novo
para ti, meu amigo dileto, e que teus olhinhos de estrelas já não se
acenderiam contra a luz do pôr-do-sol em outra virada de ano!
Parece mentira pensar nisto, mas
aquele era o último Ano Novo do meu amigo Adenilson Teles, e eu
estava tendo o privilégio de estar ali, junto, enquanto o sol se
punha e ele ficava de pé no ônibus, a pequena máquina fotográfica
junto ao rosto, o curto cabelo de seda voando ao vento, aquela
postura de rapaz comportado que o caracterizava se escorando nos
encostos dos bancos antigos daquele ônibus antigo, a perseguir o
último sol de 2006 para conseguir as melhores fotos possíveis.
Choro, choro muito, agora, quando
lembro, mas é assim que quero lembrá-lo, solto e livre dentro do
vento, a máquina fotográfica sendo erguida em outros ângulos
enquanto o sol teimava em se ir e incendiava todo o horizonte, a
franjinha de seda voando, seu rostinho tão bonito todo franzido no
esforço do jornalista profissional que não podia perder de registrar
a beleza incomensurável daquele pôr-do-sol – só agora, que já faz
uma semana que tu te foste, é que volto a pensar de novo, e faço as
contas de como a minha vida estava entrelaçada com a tua! E não só a
minha: ontem, depois da missa de sétimo dia, fomos, muitos amigos, a
um bar, e quando eu disse tal coisa, todos os outros também a
disseram: como as nossas vidas estavam entrelaçadas com a tua, meu
querido Teles, como cada um de nós precisava tanto de ti, dependia
tanto de ti!
Apesar de querer sempre te
lembrar na liberdade do vento dentro do Chaco Paraguaio, outras
lembranças também vêm, e não há como não te lembrar como alguém
onipresente nas nossas vidas, sempre com aquele jeito de bom moço, o
porte empertigado atrás de todas as notícias e todos os ângulos, o
passinho ágil que não o deixava perder nada, trilhando os caminhos
da dignidade e da cidadania, sempre pronto para ajudar a todos,
sempre cordial, atencioso e brincalhão ao telefone, sempre pronto a
escrever o texto que era necessário naquele momento, sempre pronto a
fotografar o evento que aparecesse, sempre do lado do mais pobre, do
mais desprotegido, do mais necessitado - ah! meu querido amigo que
não faltava em nada do que houvesse em cada vila, em cada
assentamento, em cada ocupação – e que estava sempre pronto a
estudar mais um pouco de teoria e ir observar o mundo todo por aí!
Um ano antes daquele último pôr-do-sol de 2006 preparávamos para,
via Roraima, irmos ao Fórum Social Mundial de Caracas/Venezuela – e
antes estivemos nos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre – e nos
primeiros dias deste ano no qual eu ainda estou vivendo adentramos à
Bolívia, em encantada região que não é assim tão distante de La
Higuera, e havia tanto verde, e tantos lírios do brejo muy
floridos e com tanto perfume que dentro do nosso ônibus a gente se
inebriava com aquele aroma que atraía milhares, milhões de
borboletas brancas, e tu, emocionado,olhavas e nem fotografavas,
pois ficavas pensando que decerto o Che passara por ali... senão,
como tanto perfume e tantas borboletas? Meu Teles querido, decerto
aquelas tantas borboletas brancas e aquele perfume de lírios do
brejo te esperavam nos longos quilômetros daquele primeiro dia de
Bolívia como numa saudação, porque há seres que são mágicos e sabem
quando alguém não vai voltar para aquele lugar... Ah! Meu amigo tão
querido, também é bom te lembrar assim, os olhinhos de estrelas
fascinados por aquelas borboletas brancas, o queixo apoiado na mão
de cotovelo na janela cheia de vento...
Há que chorar, sim, ao lembrar
coisa tão doloridamente doce e dura, porque eu não me conformo de
que tenhas ido, meu amigo querido, e eu sei que foste mesmo porque
fui lá naquele velório onde parecias dormir tranqüilamente, o
rostinho bonito suave e descansado, só que a franjinha de seda não
voava ao vento, como quero te lembrar sempre lá naquele dia no
Chaco...
Ah! Teles, ah! Teles, nunca mais
a vida será a mesma. Lembro das fotos de passarinho que me mandavas,
e das outras, algumas das quais até botei na parede da sala da minha
casa, eu desfilando junto aos palestinos, desfilando com a bandeira
do Iraque – estavas sempre atento a tudo, principalmente a quem
sofria e a quem era solidário, e então me aparecias com tais fotos
que nunca teria tido se no mundo não tivesse nascido, um dia, um
menino que viera para fazer toda a diferença, e nenhum de nós que te
conhecíamos poderemos ser, de novo, como éramos antes que entrasses
nas nossas vidas.
A vida ficou muito mais difícil
agora, meu amigo tão querido, tão difícil que, nós que ficamos, nem
sabemos direito como agir.
Então quero te lembrar naquele
pôr-do-sol do Chaco, a franjinha de cabelos de seda voando com o
vento, teu jeito de bom moço a capturar o último sol do ano na
máquina fotográfica, o deslumbrado encanto com o mundo amplo daquele
lugar que um dia fora mar, o peito aberto para a emoção e para a
vida.
Não dá para te dizer adeus, meu
amigo! Tu vais estar sempre tão aqui junto de nós do mesmo jeito que
estavas antes, e eu sempre vou fazer de conta que te telefono e
pergunto: “Achas que posso botar tal frase no texto tal?” e outras
coisas assim, e em todas as tardes de véspera de Ano Novo da minha
vida vou te ver, de novo, os cabelos de seda ao vento, a ânsia de
captar aquela beleza toda numa fotografia, e vou me lembrar do teu
maravilhamento com as borboletas brancas da Bolívia, e pensar
na tua lealdade, e na tua coragem (que vou contar num outro texto),
e no entrelaçamento da tua vida com a minha, e vou chorar sempre
quando a saudade vier, como agora, pois sei tão bem, tão bem, que
esta é daquelas saudades raras, saudade que nunca irá passar...
Blumenau,
04 de Novembro de 2007.
Urda
Alice Klueger - Escritora