O Homem Maduro
Eu
olho para um homem maduro, absolutamente lindo, absolutamente forte,
como se fosse o tronco centenário de uma árvore de profundo cerne e
madeira capaz de resistir à quase tudo – o homem está sério, em momento
que é de seriedade para a Humanidade, falando uma fala de grande peso, e
sustenta um microfone com força, com a bela mão com que a Natureza o
dotou, e a força com que segura aquele microfone combina com a força das
palavras que sei que disse naquele dia, e há mais coisas a olhar naquele
homem, como a força da amplidão protetora do seu peito avistado pela
ampla abertura da camisa creme – na verdade, trata-se de uma fotografia
quase toda em tons de creme e amarelo, menos na beleza da prata que se
mescla aos cabelos e à barba daquele homem que é um homem maduro e
lindo, e onde, tempos atrás, não havia aquela prata a lhe contornar as
feições, pois então ele não era nem tão maduro nem tão lindo!
Eu olho para o homem maduro da
fotografia e no ângulo do seu queixo e do seu olhar pleno de
inteligência fica muito visível a determinação que o move, e a sua
determinação é a determinação do Bem, e eu sei que se ele pudesse,
mudaria tanta coisa, tanta coisa!!! Se o seu poder fosse um pouquinho
maior o mundo que temos seria outro, e já não haveria a fome, já não
haveria a guerra, já não haveria a tristeza...
Aquele homem é o meu homem embora não
o seja, e sei ler nele como acho que ninguém sabe. As rugas que se
formam na sua testa, acompanhando o arco das sobrancelhas, quando fala
em coisas assim tão sérias, formam-se exatamente porque ele não tem
aquele pouquinho a mais de poder que lhe falta, e ele, sozinho, ainda
não tem a capacidade de debelar deste mundo a fome, a guerra, a
tristeza... Aquele semicírculo de rugas nasce daquela sua preocupação
constante com a Humanidade, e lá por dentro dele, apesar de parecer ter
por fora o tronco centenário da árvore centenária capaz de resistir a
quase tudo, lá por dentro ele tem um cerne de profunda sensibilidade e
compaixão por esta Humanidade que ele, sozinho, não consegue livrar dos
sofrimentos. Eu o conheço, eu sei: por trás da sua madureza, da sua
madeira quase pétrea, da sua seriedade e determinação, seu cerne é puro
açúcar, e quando fala coisas assim sérias, segurando com determinação um
microfone na bela mão, se ele não se controlar, num instante não
suportará mais toda aquela dor pela Humanidade e, sem pejo, chorará aos
soluços frente à sua platéia, por mais exigente que ela seja, e pegará
todo o mundo desprevenido por permitir-se mostrar em toda a grandeza da
sua sensibilidade.
Aquele homem que é como se fosse o
tronco centenário de uma árvore carrega por dentro delicados colibris de
sensibilidade, e o seu cerne profundo é como uma toca onde os colibris
habitam e trepidam com a suavidade dos movimentos de namorados, e o
forte tronco que parece invulnerável, na verdade, por mais forte e
resistente que seja, tem a vulnerabilidade advinda da delicada beleza da
sensibilidade dos colibris, e o homem maduro e que parece tão forte, na
verdade, tem a vulnerabilidade do seu coração.
Eu vejo o homem maduro e lindo na
fotografia e também dentro de mim, e sei que não há no mundo outro como
ele, e seja ele duro e resistente como a árvore centenária, ou seja ele
da doçura do seu cerne de colibris de sensibilidade, tanto faz: é ele o
homem que eu quero, nem que seja para outro tempo, para um tempo além,
de uma vida onde já não haja paixões físicas, quiçá para um tempo em que
sejamos apenas energia solta no Universo – o homem maduro e lindo é o
meu Homem, mesmo não sendo, e os demais não têm importância. Não há como
não amar perdidamente um homem assim!
Blumenau, 28 de Dezembro de 2006.
Urda Alice Klueger - Escritora |