O Meu Amor De Ouro E Prata
O meu
amor é um homem de prata com um coração de ouro. Ele é todo macio e
aconchegante, mesmo sendo de prata, minério que a gente imagina frio e
sem a textura da carícia. Bem lá no começo ele foi diferente: era um
menino feito de rosas, também assim macio e aconchegante como é hoje,
mas ainda sem a prata, embora já tivesse nascido com o coração de ouro.
Como se fosse um ser
humano comum, o meu amor também fez uma longa caminhada pela vida afora:
foi um bebê no colo de uma mãe amorosa, gastou parte da infância a
espiar os astros, foi menino de escola, foi calouro numa universidade,
abriu-se ao sol como se abrem ao sol as flores dos algodoeiros, quando
descobriu uma coisa maravilhosa chamada Amor, viveu, viajou, penou,
aprendeu muitíssimas coisas – mas acho que por todo o tempo as pessoas
não se deram conta do Ser Precioso que ele era, tão precioso que, ao
contrário das outras pessoas, tinha batendo dentro do peito um coração
feito do mais puro ouro, e que escondia nele ânsias e tremuras, como o
coração de um passarinho! Será que é possível a gente juntar as duas
coisas, as ânsias e as tremuras num coração de ouro, já que a gente
costuma pensar em ouro como num metal frio e parado, sem capacidade de
estremecer de ansiedade? Em se tratando do meu amor, dá para juntar,
sim, pois seu coração de ouro é até volátil de tão macio, embora, mesmo
volátil, jamais abandone ele aquele peito amplo e generoso onde é sua
casa.
Ah! O peito do meu amor!
Como a muralha de uma fortaleza, ele se vira para o mundo, forte o
suficiente para absorver todos os dardos que talvez lhe sejam enviados,
e ao mesmo tempo é de uma ternura tão protetora e cheia de calor que não
há como ele deixar alguém se perder no frio da neve da falta de
solidariedade, tão amplo que é capaz de abarcar toda a Humanidade!
Imagino que sobre lá, também, um cantinho, um ninhozinho onde eu possa
me abrigar ao menos na hora das atribulações!
E nessa combinação de
ouro, maciez, calor e proteção, como é que veio a prata? É que o meu
amor foi vivendo, foi vivendo, e um dia, enquanto olhava para ela, a Lua
Cheia prestou atenção nele, e acolheu-o no seio dela como dileto filho
que é. Já pensou ter um amor que é filho, também, da Lua Cheia? Pois foi
ela quem viu o quanto ele era bonito, e meigo, verdadeiro Cavaleiro
Andante a espalhar bálsamo no coração dos outros, e quis lhe dar o
lenitivo da prata. Então, sobre seu tempo de rosas, ela usou de toda a
doçura e da sua mais secreta tecelagem, e teceu nele aqueles fios de
prata que fazem com que hoje ele resplandeça de beleza, raiado da mais
macia prata, sendo que lá por dentro já tem o coração de ouro. Já pensou
como é ter um amor assim?
Não sei se todo o mundo
consegue ver toda a preciosidade desse meu amor! Às vezes as pessoas não
gostam de ver os brilhos externos. Mas eu vejo, e gosto, e me banho na
luz suave e brilhante que vem dele, e então a vida fica tão fascinante!
Não é qualquer pessoa que tem um amor de Ouro e Prata, e que por baixo
da prata é feito de rosas! Como poderia viver sem esse meu amor tão
perfeito?
Não há o que se fazer além de se amar um
amor assim!
Blumenau, 25
de Junho de 2006.
Urda Alice Klueger - Escritora |