RUSSLAND III –
O Ninho das Trovoadas
Éramos só eu e Atahualpa, meu cachorro, sobre o morro alto, na varanda
da cabaninha rústica, naquele lugar que se chama Nova Rússia, e eu nunca
espiara tão de perto o Ninho das Trovoadas.
Desde pequena que ouvia falar dele,
daquele lugar onde as trovoadas nascem dentre os morros, ao sul do
município, região de preservação ambiental, onde ainda dava para se
viver como um dia, no passado... Pela vida afora vira incontáveis
trovoadas vindo de lá e caindo sobre as minhas tardes, mas nunca
estivera tão perto do ninho de onde elas saem. Então, no último sábado,
sozinha com Atahualpa naquele lugar alto,
consegui ver bem direitinho como é que uma trovoada nasce.
Não vi o ovo de onde a tempestade
saiu, pois estava escondido lá no ninho, mas acompanhei atentamente o
jeito como ela se arrumou e cresceu depois de nascer – primeiro, se
anunciou por tímidos clarões piscando no horizonte, mostrando no escuro
o contorno das montanhas que circundam o ninho – mais um pouco e os
clarões já não eram tímidos, e ficava bem evidente que lá naquele lugar
nascera e vivia mais uma trovoada que seria grandiosa dentro em pouco.
E ela foi crescendo, bem como crescem
filhotes saudáveis. Em algum momento, ronronou docemente pela primeira
vez, e como que se estendeu pelo céu se espreguiçando, enfeitada cada
vez mais por clarões relampejantes. Então, a precedê-la, veio uma lufada
de vento que refrescou um bocado o mundo, seguida de ágil exército de
uns esqueléticos seres de finas pernas de água, que correu com muita
rapidez sobre as árvores, a grama, o telhado da nossa cabaninha,
resvalando para dentro da varanda onde espiávamos e esperávamos.
Aquilo foi
como um prelúdio. Aquele primeiro ágil exército foi seguido por outros,
e outros, e outros, os seres cada vez com perninhas menos frágeis,
tangidos pelos grandes roncos que começaram a vir rolando pelo céu
escuro, intermitentemente iluminado pelo piscar da trovoada que se
libertava do ninho e pestanejava luz e raios, e as lufadas de vento,
agora, ora molhavam um lado da nossa varanda, ora molhavam outro, e
Atahualpa e eu mudávamos de lugar a cada vez que a chuva mudava de
direção, mas permanecíamos ali, fascinados, e por nada do mundo eu
perderia aquele espetáculo do nascimento e crescimento de uma trovoada!
E ela veio
vindo, veio vindo, e quando percebi engolira todo o céu e todos os
morros, e molhara cada folha de cada árvore e cada polegada de chão, bem
como nosso telhado inteirinho e partes da nossa varanda, e se tornara
alguém tão forte que mal dava para imaginar que, pouco antes, fora
apenas um filhotinho de trovoada se escapando de um ovo, lá onde eu
sempre ouvira contar que era o ninho das trovoadas!
Permanecemos ali a vê-la ir passando sobre nós, ir-se indo para longe,
para lá distante, onde havia a cidade, sacudindo seu imenso corpo com
grande rumorejo, muitos relâmpagos, arfar de ventos e abundância de
chuva.
Trovoadas
são assim: nascem, crescem, passam e se vão, e houve um momento em que
aquela também se foi, e apenas uns respingos e uns troares ainda vinham
da sua cauda fustigante que se afastava, mas não perdi um momento sequer
da sua passagem e ida. Quando, afinal, seus lampejos foram se perdendo
dentre outros morros distantes e olhei a volta da cabaninha onde
estávamos, via-a cercada de árvores e grama que pareciam envernizadas de
fresca água, brilhantes à luz da nossa pobre lâmpada elétrica, coisa tão
fraca e sem expressão perto da imensa força e potência de uma trovoada
de verdade, vista desde o momento do seu nascimento!
E pensar
que tive o privilégio de ver, enfim, onde é o Ninho das Trovoadas!
Blumenau, 15 de maio de 2011.
Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR.
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